Um lobo solitário ou uma ação em grupo? Esta é uma das perguntas a que a Polícia Judiciária (PJ) está a procurar responder na investigação sobre o ativista que arremessou um cocktail molotov na Marcha pela Vida, ocorrida a 21 de março, em Lisboa. Sendo certo que não estava sozinho na hora do ataque (mais três pessoas foram identificadas na altura), não estão descartadas novas detenções com o avançar das investigações, a cargo da Unidade Nacional de Contraterrorismo (UNTC).O suspeito foi detido esta manhã, 15 de abril, em Lisboa. Foi também cumprido um mandado de busca e apreensão, “no qual foram apreendidos diversos elementos indiciadores de um móbil ideológico”, destaca a PJ em comunicado. O DN soube que o detido tem 39 anos, está ligado a movimentos de extrema-esquerda e trabalha na área do design. Ficou-se a saber que é militante do Partido Socialista (PS), que imediatamente reagiu. "Na sequência dessa informação, que nos surpreendeu, o secretário-geral do PS decidiu remeter de imediato para a Comissão Nacional de Jurisdição esta informação, com vista à instauração de um processo disciplinar que determine a aplicação da sanção adequada à alegada prática dos factos que lhe são imputados", lê-se em nota oficial.O PS ainda destaca que "a confirmarem-se os factos poderá ser aplicada a expulsão de militante". O secretariado ainda determinou, desde já, a suspensão preventiva do militante em causa.Pedido de prisão preventivaNo dia do crime, o artefacto utilizado era improvisado e continha gasolina. Foi recolhida a garrafa de vidro com líquido inflamável e material têxtil que serviu de engenho incendiário improvisado.Ao DN, fontes ligadas à investigação afirmaram que a expectativa da Judiciária é que o detido venha a ficar em prisão preventiva como medida de coação. Isto porque existe risco de fuga, um dos pressupostos legais para a aplicação desta medida. O homem tem ligação aos Estados Unidos, onde estudou e mantém contactos profissionais. Inicialmente, o caso ficou a cargo da Polícia de Segurança Pública (PSP); no entanto, passou depois para a PJ. Entre as medidas de coação aplicadas na altura, constava a obrigação de se apresentar periodicamente às autoridades; no entanto, não lhe tinham sido retirados o passaporte nem o telemóvel. O suspeito apagou a conta na rede social X, que utilizava ativamente. “Desde que foi delegada a competência de investigação na PJ, foram realizadas dezenas de diligências com o objetivo de obtenção de meios de prova”, acrescenta a PJ.RepercussãoO ataque não deixou feridos, mas representou perigo nesta manifestação, a qual participavam mulheres e bebés. O crime foi denunciado em vídeos partilhados nas redes sociais por participantes na Marcha pela Vida e por alguns políticos, como a deputada do Chega, Rita Matias. O líder parlamentar do CDS-PP, Paulo Núncio, referiu-se a “um atentado à democracia”, criticando “o ódio e a violência” que deixam “clara a diferença” em relação a “milhares que se manifestaram de forma pacífica”.O caso também levou o ministro da Administração Interna, Luís Neves a condenar o ataque. “Não toleramos qualquer forma de extremismo violento e continuaremos a agir com firmeza para o prevenir e combater, garantindo a segurança e a defesa dos valores democráticos”, disse na altura.De acordo com o último Relatório Anual da Segurança Interna (RASI), divulgado recentemente, “também face à acrescida assertividade da extrema-direita radical e violenta, o ‘antifascismo’ tornou-se, novamente, num dos principais veículos para efeitos de recrutamento, mobilização e radicalização da extrema-esquerda radical e violenta, amiúde interpenetrada pelo ativismo ambientalista radical”.O mesmo documento refere que “destacou-se, contudo, o esforço do movimento autónomo e anarquista em dinamizar a causa antifascista, com os militantes preparados para o confronto físico com os seus adversários e as Forças de Segurança, e em desenvolver uma praxis de violência insurrecional, fosse através de iniciativas promovidas pelo movimento, fosse pela instrumentalização de protestos de terceiros, como sucedeu por ocasião da Greve Geral”.amanda.lima@dn.pt.Ataque contra Marcha pela Vida pode levar a acusação de terrorismo.Ministro admite crime de natureza terrorista no ataque contra Marcha pela Vida