Relatório dos rankings PISA indica que houve um "aumento da proporção de alunos que estão abaixo do limiar mínimo de compreensão da leitura”.
Relatório dos rankings PISA indica que houve um "aumento da proporção de alunos que estão abaixo do limiar mínimo de compreensão da leitura”. Foto: Pedro Correia/Global Imagens

PISA 2025: Analista diz que “é necessária intervenção a 15 anos” para recuperar “problema” da queda na leitura

Dados parecem sugerir ligação ao uso de tecnologias digitais e Porém, investigador da OCDE insiste que estudo não permite retirar causas diretas para problemas.
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Tiago Caliço, analista de educação da OCDE, alerta para a tendência na queda das competências de leitura gerais divulgadas esta terça-feira pelos rankings PISA, que avaliam as competências dos alunos nos países da organização em 91 países, incluindo Portugal 

De acordo com os dados do relatório, as três disciplinas avaliadas (matemática, ciência e leitura) desceram nas duas médias de toda a OCDE face ao relatório do ano de 2022. Para o investigador, que falou com o Diário de Notícias, a mais preocupante é o caso da leitura, que diz mesmo ser um "problema".

Esta disciplina, mostram os resultados, tem agora a pior das médias nas três analisadas e, segundo o analista, os dados “parecem sugerir” que a descida na leitura “tem a ver com o uso de tecnologias digitais”, embora aponte que os rankings servem apenas para mostrar “correlações” e não “causas” diretas.

“Um dos grandes resultados que nós encontramos é, precisamente, que os alunos têm muita dificuldade em ler textos longos e em fazer inferências. Essa, sem dúvida, é uma tendência global e com uma magnitude tal que me parece ser uma grande prioridade”, acrescentou, frisando que é “necessária uma intervenção muito grande, a 15 anos”.

Por exemplo, o investigador indica que houve um “aumento da proporção de alunos que estão abaixo do limiar mínimo de compreensão da leitura”. 

“Quando temos uma proporção tão grande de alunos abaixo desse limiar mínimo, temos, a médio e longo prazo, um risco bastante grande para o desenvolvimento das economias”, afirmou Tiago Caliço, indicando que, “sem leitura não há acesso ao conhecimento, em qualquer que seja o domínio”.

Em vários países, os dados da perda de leitura mostra ser maior em crianças com escalões socioeconómicos mais altos. “O que sugere que isso está a acontecer porque são precisamente os escalões socioeconómicos que têm mais acesso a tecnologias digitais. Portanto, parece claro que há aí uma relação qualquer que tem de ser investigada”, notou.

Apesar destas aparentes correlações, o analista que trabalhou na elaboração deste estudo observacional frisa que o estudo não consegue “apontar impacto, o efeito ou a consequência” de aspectos mas sim “mostrar uma associação entre factores”: “O velho chavão da correlação não é a mesma coisa que a causa”, acrescentou.

IA e tecnologia

O estudo sugere também que a inteligência artificial como um instrumento que, quando mal utilizado ou sem qualquer acompanhamento de professores ou pais, pode influenciar os resultados dos alunos nas suas avaliações.

“Quando as crianças tendem a usar a inteligência artificial como qualquer outra tecnologia, sem qualquer supervisão, sem qualquer orientação, os resultados tendem a ser menos positivos”, indicou o analista, sublinhando porém que, apesar do tema ser mais quente agora, já havia uma correlação semelhante entre uso de tecnologias digitais.

“Os dois sugerem a mesma coisa, é que a diferença se destaca como os instrumentos são usados e não que instrumentos são usados”, frisou ainda o investigador, destacando que o acesso a estas é diferente dependendo dos países ou do estrato socioeconómico.

Tiago Caliço realça então que um dos principais desafios de todos os sistemas educativos é adaptação "conforme a tecnologia e as as sociedades avançam", especialmente sobre "como incorporar esses desenvolvimentos na escola”, continuou o investigador.

E as tecnologias não podem ser só diabolizadas sem uma maior análise, frisou ainda. “É fácil acreditar, sem se ter de pensar muito, que há muitos ecrãs, há muito tempo nos ecrãs, os meninos não aprendem nada, isto é uma desgraça”, afirmou o investigador.

Não é necessariamente assim ou só assim. É preciso entender, por exemplo, como é que estas tecnologias são usadas, com que frequência, como e porque é que são usadas”, ressalvou.

Para além disto, no caso das ações dos governos para melhorar estas situações, “é preciso entender como é que se vai intervir e como é que se vai medir o impacto dessa intervenção” 

“Qualquer intervenção, como muito bem estudada e muito bem intencionada que seja, pode ter resultados que nós não estávamos à espera”, afirmou o investigador, frisando que os governos sejam explícitos em como “vão medir o impacto das suas políticas para o bem-estar humano”.

“Não há soluções fáceis e certamente não há soluções únicas. O que pode funcionar na Europa Ocidental pode necessariamente não funcionar na América do Sul”, concluiu.

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