Alunos portugueses com "resultados históricos, mas no sentido negativo" no PISA
Os alunos portugueses tiveram os piores desempenhos académicos de sempre na prova de Leitura do programa internacional PISA, agravando uma trajetória descendente cujos resultados representam já mais de um ano de estudo perdido. Trata-se, nas palavras do secretário de Estado Adjunto e da Educação, de "resultados que são históricos, mas no sentido negativo”.
Esta é uma das conclusões da nova edição do PISA - Programme for Interacional Student Assessment, o maior estudo internacional de educação realizado pela OCDE, que envolveu mais de 760 mil alunos de 91 países e economias.
Os dados divulgados esta terça-feira, 8 de setembro, trazem más notícias para Portugal: Os jovens de 15 anos avaliados no ano passado voltaram a piorar a Matemática, Leitura e Ciências.
Os resultados dos 6.945 alunos de 225 escolas portuguesas “regressaram a valores próximos dos observados em 2006 nas três disciplinas, revertendo completamente os ganhos anteriores”, refere o estudo.
Mas olhando para as disciplinas individualmente, a situação é ainda mais preocupante.
Os alunos portugueses tiveram agora um desempenho a Leitura pior do que em 2000 e a Matemática obtiveram um resultado próximo ao dos colegas que fizeram a prova em 2003.
“Estamos a falar de resultados que são históricos, mas no sentido negativo”, lamentou o secretário de Estado Adjunto e da Educação, Alexandre Homem Cristo, que descarta responsabilidades políticas no agravamento das aprendizagens. “Estes resultados do ponto de vista da política pública, não estão diretamente ligados ao período deste Governo. Isto não significa que o Governo não se sinta responsável por encontrar soluções”, defendeu.
Portugal participou pela primeira vez no PISA em 2000 e, nessa altura, os alunos portugueses surgiam entre os piores e muito abaixo da média da OCDE.
Até 2015, foram melhorando os seus resultados nas provas que se realizavam de três em três anos, ao ponto de o diretor do Departamento de Educação e Competências da OCDE, Andreas Schleicher, olhar para o país de “maus alunos” como uma das “maiores histórias de sucesso da Europa”.
No entanto, os alunos que realizaram a prova de Leitura no ano passado tiveram 462 pontos, ou seja, oito pontos abaixo da nota obtida em 2000, numa escala em que 500 pontos é a média de referência definida pela OCDE.
Já a Matemática, os conhecimentos recuaram a níveis de 2003, quando Portugal participou pela segunda vez no PISA e obteve 466 pontos. Os alunos que fizeram a prova no ano passado tiveram 460 em Matemática.
Ciências foi a disciplina com a descida menos acentuada, mantendo-se em linha com a média da OCDE, com 482 pontos.
Além desta descida generalizada, que acompanha uma tendência de muitos países da OCDE, existem outros números preocupantes no relatório, como o aumento de alunos portugueses com conhecimentos abaixo do nível mínimo de proficiência.
Numa escala de seis níveis, em que os dois primeiros representam conhecimentos muito básicos, notou-se um aumento brutal de alunos abaixo do 2.º nível, em especial a Matemática e Leitura (mais 11 pontos percentuais na última década).
O estudo mostra que 65% dos alunos portugueses atingiu pelo menos o nível 2 a Matemática, 72% a Leitura e 76% a Ciências, ou seja, neste último caso conseguem reconhecer a explicação correta para fenómenos familiares.
A Matemática, este nível significa que conseguem, por exemplo, comparar a distância total entre dois percursos alternativos ou converter preços para outra moeda, segundo uma explicação do Programme for Interacional Student Assessment (PISA).
Os alunos que atingem pelo menos o nível dois a Português são capazes de identificar a ideia principal num texto de extensão moderada, por exemplo.
Portugal continua estatisticamente perto da média da OCDE, mas perdeu conhecimento, havendo poucos alunos de excelência: apenas 6% são top performers em Ciências (a média da OCDE é 7%), 6% a Matemática (8% na OCDE) e só 3% em Leitura (metade da OCDE, que é de 6%).
Os investigadores concluem que o sistema de educação português continua relativamente capaz de garantir um patamar mínimo a muitos alunos, mas parece ter dificuldades em produzir desempenhos de excelência.
Numa comparação entre os 90 países envolvidos, Portugal surge em 29.º lugar a Ciências, 26.º a Leitura e 30.º a Matemática no PISA 2025.
Face ao estudo anterior, de 2023, os alunos portugueses subiram uma posição em Ciências, mas caíram dois lugares em Leitura e um em Matemática, áreas em que perderam, respetivamente, 15 e 12 pontos.
Medidas em curso
Embora a descida registada em Portugal acompanhe uma tendência sentida nos países da OCDE, Alexandre Homem Cristo defendeu que Portugal não se pode “encostar à média da OCDE”, que deve ser apenas “um ponto de comparação”.
O Ministério da Educação quer os alunos portugueses acima da média da OCDE na próxima edição do PISA, em 2029, ciclo que, segundo o secretário de Estado, já poderá avaliar as políticas da atual equipa governativa.
Entre as medidas em curso na área da Leitura, Alexandre Homem Cristo apontou o investimento em bibliotecas para o 1.º ciclo, o diagnóstico de fluência leitora e um novo programa de formação em didática do ensino da leitura para professores, “que está a ser preparado pelo EduQA” (Instituto de Educação, Qualidade e Avaliação).
Sobre as causas do insucesso, Alexandre Homem Cristo sublinhou que “os resultados de Portugal no PISA contam muitas histórias”, recusando uma explicação única. Entre os fatores apontou o impacto da pandemia de covid-19 nestes jovens, então ainda no 1.º ciclo, e a crescente dificuldade de concentração em tarefas que exigem maior esforço.
O secretário de Estado defendeu ainda maior diversidade pedagógica, através da revisão do currículo e das aprendizagens essenciais, permitindo aos professores adaptar os recursos às necessidades de cada aluno e estimular aqueles com maior potencial.
Sobre as desigualdades entre alunos favorecidos e desfavorecidos, destacou a importância de diagnósticos precoces e rigorosos, sobretudo no ensino básico, para melhorar a resposta das escolas.
Quanto à falta de professores e técnicos, admitiu que a ausência de recursos penaliza os alunos, mas rejeitou que o reforço de meios, por si só, seja suficiente para melhorar os resultados.
Segundo o governante, o desempenho depende também do funcionamento das escolas, do currículo, dos processos de avaliação e da utilização dos diagnósticos para identificar dificuldades e orientar respostas adequadas.
Alexandre Homem Cristo lembrou ainda as assimetrias regionais, com maiores dificuldades concentradas na região de Lisboa, Península de Setúbal e Algarve, onde também existem problemas de contratação de professores.

