AHBVC

“Parece que temos ondas no chão”: comerciantes enfrentam nova cheia em Cascais (veja os vídeos)

Autarquia mobilizou 118 operacionais e prepara apoios financeiros de quase meio milhão de euros para comerciantes, pescadores e munícipes afetados.
Publicado a
Atualizado a

Desde a madrugada desta terça-feira, a Baixa de Cascais voltou a ficar inundada. A chuva intensa que caiu durante a noite, associada à subida da maré e aos solos saturados pela sucessão de tempestades das últimas semanas, provocou inundações em várias artérias do centro histórico, afetando lojas, restaurantes e habitações.

No terreno estiveram, desde as primeiras horas do dia, os cinco corpos de bombeiros do concelho, apoiados por meios da Proteção Civil Municipal.

Em declarações ao Diário de Notícias, o presidente da Câmara Municipal de Cascais, Nuno Piteira Lopes, sublinhou que o concelho já se encontrava em estado de prevenção. “Nós, em Cascais, tínhamos equipas já de prevenção e com planeamento feito, com meios de prontidão para poder ocorrer a qualquer situação que pudesse vir a acontecer, como aconteceu”, afirmou.

A situação mais crítica registou-se na Baixa, que durante a madrugada galgou as margens. “Temos neste momento e desde a madrugada cerca de 118 homens a trabalhar no terreno, nomeadamente na Baixa de Cascais”, explicou o autarca, acrescentando que foram mobilizadas “bombas de alto débito para retirar a água”. Apesar de a situação estar agora “controlada”, o presidente alertou para a necessidade de manter o dispositivo reforçado: “Prevê-se um agravamento do tempo ao final da manhã e ao início da tarde, o que irá coincidir com a maré alta e por isso iremos manter os meios todos disponíveis”.

Também a comandante da Associação Humanitária dos Bombeiros de Cascais, Cristina Santos, confirmou a dimensão da operação. “Houve bastante pluviosidade durante a madrugada, tendo inundado certas zonas de risco aqui da zona da Baixa de Cascais”, explicou. No terreno, encontram-se equipas posicionadas “entre as zonas de maior alagamento, assim como várias lojas”, com especial incidência na área entre o Largo Camões e o Hotel Baía.

A comandante destacou que o pico da maré condicionou os trabalhos: “Estamos mesmo no pico da maré, o que significa que o nível de escoamento da Baixa de Cascais é bastante reduzido.” Por essa razão, os trabalhos deverão prolongar-se “ao longo de todo o dia de hoje e possivelmente pela noite dentro”, dependendo da evolução da maré e das condições meteorológicas.

Quanto aos estragos, ainda é cedo para uma avaliação rigorosa. “Só quando conseguimos retirar a água é que se consegue verificar a real dimensão dos estragos”, referiu Cristina Santos, adiantando que, para já, a maioria dos danos registados é ao nível do piso térreo, embora haja situações mais graves, como uma loja onde a água atingiu “quase acima de dois metros”.

No terreno, a angústia dos comerciantes é evidente. Angelina Ferreira, proprietária de uma ourivesaria na Rua da Baía, descreve um cenário devastador. “Tenho a loja toda cheia de água e a cave toda submersa. Já conseguimos, com máquinas, tirar a água. Só que, como a parte de trás ainda continua cheia de água, já subiu outra vez”, relata.

A comerciante fala num efeito dominó entre estabelecimentos: “Vem de umas lojas para as outras.” O impacto estrutural é já visível: “Reparei que tenho o chão todo levantado. Parece que temos ali ondas. Até dá para saltar.”A água infiltra-se pelas paredes e pelo pavimento, comprometendo seriamente o espaço. “As paredes vão ter de ser todas feitas de novo”, lamenta, sem conseguir ainda quantificar os prejuízos. “Não tenho noção nenhuma.”

AHBVC

Na Farmácia da Misericórdia, a poucos metros dali o cenário é distinto, mas igualmente preocupante. Graça, funcionária do estabelecimento, descreve o que vê à sua volta: “Aquilo que nós vemos é uma tragédia, principalmente da parte dos restaurantes, que este ano já não têm conta as vezes que foram inundados.” A água que invadiu as ruas é, segundo diz, “lama autêntica”.

Apesar de a farmácia não ter sido afetada desta vez, graças a bombas instaladas numa loja vizinha, o ambiente é de solidariedade com os restantes comerciantes. “Temos um aparato enorme de bombeiros e de proteção civil a tentar ajudar e fazer aquilo que podem fazer”, afirma.

CMC

Face aos danos, a Câmara Municipal anunciou um pacote de medidas de apoio que ascende a quase meio milhão de euros. Está a ser preparada para a próxima reunião de Câmara uma proposta de criação de um fundo de emergência de 150 mil euros para os comerciantes da Baixa de Cascais, a que se somam outros 150 mil euros destinados a munícipes afetados por danos provocados pela queda de árvores. Haverá ainda um fundo de apoio à comunidade piscatória, que há cerca de um mês não consegue sair para o mar, e a isenção do pagamento de taxas e licenças municipais para os comerciantes afetados.

Este valor, assim que seja aprovado na reunião de Câmara, estará disponível para começar a distribuir a todos os munícipes afetados e comerciantes”, garantiu Nuno Piteira Lopes.

O autarca deixou ainda um apelo à população: “Vivemos um fenómeno atípico, com as piores tempestades dos últimos largos anos. Os terrenos estão muito saturados, já não aguentam mais chuva.” E acrescentou: “Aquilo que eu peço aos cascalenses é que confiem no trabalho dos corpos de bombeiros, das forças de segurança e da proteção civil, porque estamos coordenados.”

O Instituto Português do Mar e da Atmosfera emitiu, entretanto, um aviso amarelo para vento no concelho de Cascais, prevendo rajadas até 80 km/h, podendo atingir 100 km/h nas serras. As autoridades pedem à população que evite deslocações desnecessárias, que recolha objetos soltos e que se afaste de zonas arborizadas.

Na Baixa de Cascais, entre mangueiras, bombas de água e comerciantes que tentam salvar o que resta, o dia será longo. A normalidade poderá demorar a regressar, mas para já a prioridade é conter a água e minimizar os estragos de mais uma madrugada de tempestade.

image-fallback
Chuva forte provoca inundações em Lisboa, Cascais, Sintra e Oeiras
image-fallback
Madrugada de inundações leva o caos a Cascais

Artigos Relacionados

No stories found.
Diário de Notícias
www.dn.pt