"A minha cadela é o máximo". Não são apenas palavras, é a tradução do sentimento que Ana Carla Almeida nutre e demonstra por Loba, a fiel companheira patuda que, há cerca de três anos, faz parte desta família. E, ao seu modo, Loba também comunica que esta é uma casa onde tem o carinho e cuidado que merece. Não tira os olhos de Ana Carla, move a cabeça para pedir festinhas e reage a todos os "tá tudo bem, Lobita" da sua tutora, necessários quando chegam à porta dois elementos estranhos para saber mais sobre a sua vida e o projeto que ajudou a estruturar - mas já lá vamos.Loba é uma cadela da raça pastor belga malinois que durante vários anos serviu na unidade cinotécnica da Polícia de Segurança Pública, na equipa de busca e salvamento. "Sabemos mesmo que estava um senhor, já velhote, perdido na Madeira e que foi ela que o encontrou", diz Maria Mendes, filha de Ana Carla.Loba já era sénior e estava reformada quando foi adotada, em 2023, por Ana Carla Almeida. É o segundo animal da unidade cinotécnica da PSP que esta magistrada do Ministério Público acolhe, o primeiro foi o Giz, escolhido por Maria, que também era um pastor belga malinois e serviu na equipa de apreensão de drogas..O Giz e o serviço públicoFoi ainda antes da Loba ou do Giz que a ideia de se dar atenção a estes cães polícia reformados nasceu. Cerca de 15 anos atrás, Ana Carla Almeida, por questões ligadas ao seu trabalho, precisou de receber segurança pessoal. Foi nesta altura que ficou mais próxima da PSP e acabou por conhecer e saber mais sobre o trabalho da unidade cinotécnica, onde fez uma amiga. "E eu fiquei bastante impactada pelo serviço público que estes cães prestavam, não é? Ficou um bocadinho na minha cabeça sempre aquela coisa de poder retribuir de alguma maneira", conta.Com a proximidade com a amiga polícia e o trabalho da unidade cinotécnica, surgiu a ideia e a chance de adotar um primeiro cão, o Giz, que entrou para a família em 2020. "O Giz era o cão mais velho da unidade, já tinha 13 anos. Fazia várias coisas, mas busca de drogas era o principal, também fez de explosivos, outra valência que eles têm", conta Maria Mendes."Eu gostei logo muito do Giz, ele não me ligou muito. Acho que pelo facto de já estar na altura reformado há muito tempo, parado naquele ambiente", recorda a jovem. "Foi a Maria mesmo quem decidiu ficar com o Giz, e, na verdade, o Giz elegeu um bocadinho a Maria, que era a dona dele", diz a mãe. "E tu és a dona da Loba. Se repararem, volta a meia a Loba está sempre a olhar para a mãe", destaca a filha.O Giz viveu três anos com Maria e Ana Carla, até que se foi, por problemas de saúde decorrentes da velhice. Foram anos de muito carinho em casa, mas também de gastos financeiros com os cuidados de que ele precisou, de adaptações aos comportamentos ainda de 'cão polícia' que eventualmente aconteciam. "As pessoas precisam ter atenção, não queremos muito aquela decisão emocional de 'vou adotar porque gosto muito de cães'. Isso normalmente não funciona. Têm que ter atenção que há exigências específicas para estes cães e estar disponíveis para isso", reforça Ana Carla..Adota Cães HeróisLogo após a morte do Giz, quando Maria tinha ido para fora em Erasmus, Ana Clara adotou a Loba, e, com o retorno da filha para casa, começaram a estruturar formalmente a ideia do projeto Adota Cães Heróis.Numa primeira fase, a dupla de mãe e filha começou a contatar formalmente as entidades, para perceber se havia cães que pudessem ser adotados. Hoje, o projeto tem como parceiros a PSP e o Exército, e já conseguiu intermediar a adoção de um cão polícia a uma família no Porto. Atualmente, três outros heróis estão em processo de adoção, o Tico, o Gorky e a Mali, que se reformaram do serviço na unidade de paraquedistas do Exército.E como esta funciona esta iniciativa? As entidades parceiras enviam toda a informação sobre os cães aptos para a adoção, desde questões de saúde, até elementos sobre a personalidade dos animais, para a Maria, que, de seguida, comunica a disponibilidade no site e redes sociais do projeto. Desde o ano passado até agora, quase 300 pessoas interessadas em adotar já fizeram o registo no site.A ficha de triagem que preenchem serve para informar os candidatos sobre as especificidades destes cães, mas também para eliminar logo quem não se enquadra no perfil que Ana Carla e Maria pretendem para o projeto. "Fazemos uma pré-seleção dessas pessoas, porque percebemos logo que há pessoas que querem adotar os cães para proteção pessoal, há muitas pessoas que querem adotar cães bebés, porque como são de raça, querem ter, ou para reproduzir. E pronto, essas pessoas eliminamos logo porque percebemos que a intenção não é aquela que nós queremos", explica a Maria.Logo depois é feito um filtro mais detalhado a quem passa para a próxima fase. "Se a pessoa tem gatos, se vive em apartamento, vivenda, se tem crianças, pois para alguns cães pode ser problemático até aos cinco anos. Também perceber a profissão das pessoas e a quantidade de tempo que seriam disponíveis para o animal. Todas estas questões bastante importantes para a própria entidade também conseguir fazer uma decisão", completa a filha..A partir daí, um número de candidatos é enviado para que a instituição responsável pelo animal faça a seleção e finalize a adoção. Para o Tico, o Gorky e a Mali, elas já enviaram uma lista com cerca de dez candidatos para cada um ao Exército.No fundo, Ana Clara explica que as duas estão apenas a "tentar otimizar a oferta e a procura", mas sempre em prol do objetivo que é dar o amor e o conforto que estes animais merecem já numa fase mais avançada da vida. "É preciso que as pessoas percebam que é, sobretudo, alguma coisa que estão a fazer mais para os cães do que para elas próprias. Então, é uma retribuição pelo serviço que eles prestaram à comunidade".Embora ainda no início, mãe e filha têm planos de apostar, quem sabe, em parcerias semelhantes com instituições até noutros países. Em casa, antes com o Giz, agora com a Loba, conseguem confirmar que estão a fazer o melhor por estes animais. O 'à vontade' que a cadela demonstra com estes dois elementos estranhos em reportagem confirma. A presença dos jornalistas não incomoda, a câmara fotográfica não assusta. "Tá tudo bem, Lobita". Esta é uma cadela, e uma família, feliz..Almada: no dia em que a chuva obrigou a deixar a casa, nem os animais ficaram para trás