Gaiolas com pássaros, cães, gatos, sacos com roupas, travesseiros e comida. Os moradores de Porto Brandão e da Azinhaga do Forno, em Almada, saíram de casa levando o que podiam debaixo de uma chuva que insistia em não parar. Com a ajuda de familiares, bombeiros e da Proteção Civil, dezenas de famílias tiveram de abandonar as suas residências.A Proteção Civil esteve no local desde perto das 12h00, a orientar a retirada de emergência de 48 pessoas. Muitos saíram do trabalho mais cedo, a correr, porque ao anoitecer já não seria possível chegar à localidade. Com a estrada principal cortada, no único caminho aberto, pessoas iam de um lado para o outro no meio do barro.Hélder João de Sousa, de 58 anos, nunca viu nada parecido. “Moro cá desde o primeiro ano de vida, nunca tive de sair de casa por causa da chuva, isto é muito triste”, disse ao DN. Além de retirar os próprios pertences, levou também as gaiolas de periquitos da vizinha, que não estava em casa. “Consegui levá-las até aos bombeiros de Almada”, relata. Sousa tem alojamento garantido por “um ou dois dias”, porque “mais do que isso é incomodar as pessoas”..Durante a retirada, uns ajudavam os outros, numa verdadeira corrida contra o relógio. Uma carrinha levou os principais eletrodomésticos de uma das casas e o morador colocou-a à disposição para a retirada de bens de outros vizinhos. “A situação está mesmo grave e tem vindo a agravar-se há dias”, reconheceu um profissional da Proteção Civil. A zona está a ser monitorizada desde o dia 4 de fevereiro, sendo ontem o dia mais grave, ao ponto de ter sido ordenada a retirada dos moradores. Ao fundo, o que era terra plana agora parece revirada. Um muro de 1,5 metros desabou com a terra que desliza dia após dia. Numa das estradas perto da encosta, existe o risco de se abrir uma cratera no meio da rua. Foi também a 4 de fevereiro que a primeira família, de uma casa na encosta, foi retirada. Desde então, progressivamente, alguns moradores tiveram de sair, até à evacuação quase total..Almada está em situação de alerta desde o dia 6 de fevereiro e, nesse mesmo dia, ativou o Plano Municipal de Emergência de Proteção Civil. A situação no município, a apenas 20 minutos de Lisboa, mostra os variados efeitos do chamado “comboio de tempestades” que atinge Portugal. Se em Leiria foi a força do vento e em Alcácer do Sal as cheias, em Almada é sobretudo a chuva persistente que agrava a instabilidade das encostas e arribas. A primeira opção das famílias agora sem teto é recorrer à casa de familiares ou amigos. As que não possuem qualquer rede de apoio neste sentido iriam receber abrigo da Câmara Municipal de Almada.Uma moradora, de nacionalidade brasileira, que prefere não ter o nome revelado, teve de sair à pressa com o filho de sete anos. “Disse ao meu filho que íamos passear ali fora de casa”, contou. Sem amigos ou familiares para onde ir, ainda aguardava uma resposta das autoridades municipais sobre o seu encaminhamento. A estação fluvial foi encerrada, pelo que o serviço de transporte de passageiros se encontra temporariamente limitado ao percurso Trafaria-Belém.Na análise e monitorização da situação, adiantou, a câmara municipal tem contado com a ajuda da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade Nova de Lisboa, localizada no Monte da Caparica, no concelho de Almada. “Temos desabamentos e deslizamentos de terras um pouco por todo o lado, ao longo de toda a arriba. Almada, sobretudo a Costa da Caparica, que se situa entre o mar e a arriba, tem arribas que exigem especial atenção”, relatou à Lusa a autarca Inês de Medeiros, alargando essa preocupação às zonas ao longo do rio até Cacilhas. Até terça-feira, o Caparica Sun Center, na Costa da Caparica, e o Inatel estavam a ser utilizados como alojamento provisório. Com o aumento do número de pessoas a necessitar de abrigo, o Seminário de Almada , da Diocese de Setúbal, passou também a ser usado para esse fim. Foi a própria direção do seminário que colocou o espaço à disposição. “O nosso Seminário está a receber famílias desalojadas devido à evacuação de emergência levada a cabo pela Câmara Municipal de Almada no Porto Brandão. Rezamos por todos os afetados pelas intempéries das últimas semanas”, escreveu a equipa do seminário nas redes sociais.Algumas horas antes, as equipas realizaram a retirada de aproximadamente 30 pessoas na Costa da Caparica, também em Almada. O deslizamento de terras e e a queda de uma pedra da arriba motivaram a retirada das pessoas por segurança. “A prevenção é a nossa maior prioridade. Cada decisão é tomada com rigor e responsabilidade, colocando sempre a segurança das pessoas em primeiro lugar. Estamos atentos, estamos presentes e estamos convosco”, destacou a presidente da câmara, em publicação nas redes sociais, acompanhada de uma foto em que mostra o deslizamento de terra. Ao mesmo tempo, frisou que nenhuma pessoa perdeu a vida na sequência destas ocorrências. “Quero deixar uma palavra de proximidade e tranquilidade a todos os moradores, em especial às famílias diretamente afetadas. Compreendemos a ansiedade e o receio que estas situações provocam”, assinalou Inês de Medeiros.Confira mais imagens, pelas lentes do fotojornalista Gerardo Santos. amanda.lima@dn.pt.Parte de tabuleiro de ponte da A1 abateu na zona onde rebentou o dique nas margens do rio Mondego.Mais de uma semana após a tempestade, falta luz, água e esperança ao interior de Leiria