Médicos contra despacho que permite acompanhamento de grávidas de baixo risco por enfermeiros especialistas.
Médicos contra despacho que permite acompanhamento de grávidas de baixo risco por enfermeiros especialistas. António Pedro Santos / Lusa

Ordem e médicos de família “repudiam afastamento” do acompanhamento de grávidas de baixo risco nos centros de saúde

Dias depois de ter sido publicado o despacho que regulamenta o projeto de vigilância de grávidas de baixo risco por enfermeiros especialistas nos centros de saúde, Ordem dos Médicos e médicos de família criticam ministério por “ignorar trabalho técnico desenvolvido pela comissão criada, em fevereiro” e pediram reunião urgente a Ana Paula Martins.
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O Despacho Normativo n.º11/2026, publicado dia 28 de outubro, veio regular o projeto de Vigilância e Assistência Pré-Natal da Gravidez de Baixo Risco nos centros de saúde um ano depois de este ter sido anunciado. De acordo com despacho, este acompanhamento será assumido por enfermeiros especialistas. Mas a Ordem dos Médicos, num comunicado conjunto com o Colégio da Especialidade de Medicina Geral e Familiar e com a Associação que representa os médicos de família enviado às redações nesta segunda-feira, dia 2 de novembro, já veio “criticar” a decisão do Ministério da Saúde, que considera não respeitar o trabalho feito pela Comissão nomeada por Ana Paula Martins, em fevereiro, e alertar para o facto de esta “comprometer a continuidade dos cuidados”.

A Ordem faz ainda saber que já pediu uma reunião urgente à ministra para discutir a questão.

De acordo com o que é referido, Ordem e representantes dos médicos de família consideram que “o modelo aprovado” cria “um retrocesso inaceitável” e “não garante a participação regular e direta dos médicos de família na vigilância da gravidez de baixo risco”, sendo que o que sempre foi defendido foi “um modelo de equipas multiprofissionais”.

Segundo explica a Ordem , “os médicos de família sempre defenderam que o acompanhamento das grávidas deve ser assegurado por uma equipa de saúde multiprofissional, na qual estejam plenamente integrados e possam dar o seu insubstituível contributo. O conhecimento direto da história clínica, das condições de vida e do contexto familiar de cada mulher permite assegurar uma abordagem clínica integral, identificar necessidades e acompanhar situações que ultrapassam a gravidez. Todas as mulheres grávidas devem ter direito a este acompanhamento de qualidade e seguro”.

Para a Ordem, “a previsão de mecanismos de consultadoria não substitui a participação regular e direta dos médicos de família na vigilância programada da gravidez. A intervenção médica deve integrar o percurso assistencial de forma estruturada, com responsabilidades claras e condições efetivas para o seu exercício. A continuidade dos cuidados exige uma relação clínica que se constrói e mantém ao longo do tempo”, lê-se no comunicado.

A Ordem não poupa críticas à tutela explicando que “apesar da carência de médicos de família no SNS, foram propostas à tutela soluções concretas, no âmbito dos trabalhos da Direção Executiva do SNS, que permitiam preservar a qualidade dos cuidados às grávidas, garantindo o seu acompanhamento por uma equipa de saúde multiprofissional com participação médica regular. A decisão tomada desperdiça essa oportunidade”.

Argumenta ainda que “são medidas desta natureza que contribuem para o Ministério da Saúde afastar os médicos de família do SNS e para desincentivar a escolha da Medicina Geral e Familiar pelos médicos que agora decidem a sua especialidade". "Ao desvalorizar a sua competência clínica e não assegurar a sua participação regular na equipa de saúde multiprofissional, a tutela agrava a desmotivação dos especialistas e compromete a capacidade de atrair novos médicos”, aponta.

Para os médicos, “as consequências recaem sobre as pessoas, com maiores dificuldades de acesso e menor continuidade dos cuidados. O Ministério da Saúde não pode pedir aos médicos que escolham uma especialidade enquanto toma decisões que a desvalorizam”.

A Ordem dos Médicos e o Colégio da Especialidade de Medicina Geral e Familiar e a APMGF “exigem, em defesa das mulheres grávidas, a revisão deste modelo e a garantia de participação regular e direta dos médicos de família na equipa de saúde multiprofissional responsável pela vigilância da gravidez de baixo risco".

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