"Há pessoas que chegam aqui e não sabem o que é um veículo de combate a incêndios, e isso reflete-se no trabalho final". O alerta é de Pedro Sampaio, operador de telecomunicações da Proteção Civil, classe que está em greve esta semana. A especialização da carreira de operador de telecomunicações de emergência é a principal reivindicação destes profissionais, que terminam na sexta-feira a paralisação.“Não colocamos o socorro em causa. Vamos salvaguardar sempre o socorro e a intervenção dos meios necessários para as populações. Fizemos este pré-aviso de greve também para alertar para a nossa situação, para lhe dar visibilidade e para nos fazermos ouvir”, afirma o operador. A greve foi convocada pelo Sindicato Independente dos Trabalhadores da Floresta, Ambiente e Proteção Civil (SINFAP).O dirigente sindical explica que a inexistência de uma carreira especializada faz com que qualquer assistente técnico possa pedir mobilidade para esta função. “Dado o grau de complexidade das nossas funções, entendemos que é necessária uma carreira específica. Tratamos da coordenação, da gestão e da mobilização dos meios de socorro, sejam meios aéreos, terrestres ou de proteção civil. Cabe-nos fazer o acompanhamento de todas as ocorrências, a difusão de avisos meteorológicos, gerir a rede de rádios e uma série de outras informações complexas”, detalha. Oficialmente, o nome da função é Operadores de Telecomunicações de Emergência (OPTELE).A situação agrava-se, segundo Sampaio, pela falta de profissionais. “Temos cerca de 300 profissionais a nível nacional, mas existe uma grande carência de efetivos em todas as salas. Há muitas salas, em todo o país, praticamente sem profissionais e muito desfalcadas. Estamos, muitas vezes, dependentes de mão de obra voluntária”, sublinha.De acordo com o operador, estas falhas são colmatadas pelos bombeiros que, embora saibam desempenhar a função, não possuem a mesma formação técnica. Outro problema é que acabam por “destapar um santo para tapar outro”, uma vez que fazem falta no combate aos incêndios, sobretudo nesta época crítica.Para dar um exemplo da importância da função, cita a missão humanitária que foi enviada à Venezuela na sequência dos sismos recentes. “Foi acionada uma força para o sismo, para a Venezuela, não é? Nessa força vai um assistente técnico, que é um operador de telecomunicações. Então, este homem faz parte de uma força operacional, é necessário para as coisas funcionarem”, explica.Complexidade o ano todoPedro Sampaio, que exerce a profissão há três décadas, chama ainda a atenção para o aumento da complexidade do trabalho ao longo de todo o ano. “Cada vez mais estamos a sentir os impactos durante todo o ano. Os incêndios deixaram de ser uma situação quase sazonal e passaram a ocorrer praticamente ao longo de todo o ano. Depois, temos fenómenos como a depressão Martinho, tivemos as cheias. Cada vez mais, para desenvolver esta atividade, é preciso ter conhecimentos técnicos e as aptidões necessárias para a desempenhar”, reforça.Os operadores de telecomunicações de emergência foram integrados nos quadros da Autoridade Nacional de Emergência e Proteção Civil (ANEPC) em 2021, ao abrigo do Programa de Regularização Extraordinária dos Vínculos Precários na Administração Pública (PREVPAP).O dirigente sindical diz ao DN que foram mantidas duas reuniões após o pré-aviso de greve, uma com o Ministério da Administração Interna e outra com o comando da ANEPEC. O DN pediu esclarecimentos ao Ministério da Administração Interna, mas não recebeu resposta até ao fecho desta edição.amanda.lima@dn.pt.Como nos filmes, mas sem ficção: como funciona o comando nacional da Proteção Civil.Na rua, em casa ou no trabalho, o que fazer para se proteger do calor extremo que aí vem?