Os oceanos atingiram em março um nível de calor quase recorde, indicou o observatório europeu Copernicus, um sinal do provável regresso do fenómeno natural de aquecimento El Niño, em conjunto com as alterações climáticas de origem humana.O boletim mensal do Copernicus, programa da União Europeia para a observação climática, publicado esta sexta-feira, 10 de abril, é um sinal de alerta, após os três anos mais quentes alguma vez registados na Terra, o regresso cada vez mais provável de El Niño na segunda metade do ano leva os climatologistas a temer que a humanidade esteja a caminho de novas ondas de calor extremas.A temperatura da superfície dos oceanos foi de 20,97°C em março (excluindo zonas polares), apenas um décimo de grau abaixo do recorde de março de 2024. E a média continua a subir em abril, segundo o painel em tempo real do Copernicus.O último episódio de El Niño, em 2023 e 2024, tornou esses anos os dois mais quentes alguma vez registados. O fenómeno cíclico corresponde ao aquecimento periódico em larga escala das águas de parte do Pacífico, que afeta em cadeia o clima mundial durante vários meses.A temperatura dos oceanos "testemunha uma transição provável para condições de El Niño", avalia o observatório.A Organização Meteorológica Mundial (OMM) da ONU já considerou possível o regresso este ano, à medida que se esbate o fenómeno inverso, do La Niña, associado a temperaturas mais frescas. No início de março, a OMM estimava em 40% a probabilidade de que El Niño surgisse até julho.O aquecimento dos oceanos dilata a água, elevando o nível do mar, intensifica as ondas de calor marinhas, que enfraquecem os corais, e agrava fenómenos meteorológicos extremos como chuvas intensas ou ciclones.O mês de março, em terra como no mar, situou-se no quarto lugar das temperaturas mais elevadas à superfície do globo, 1,48°C acima dos valores estimados para o período pré-industrial (1850-1900), antes da combustão massiva de carvão, petróleo e gás aquecer de forma duradoura o clima.Quase toda a Europa — o continente que mais rapidamente aquece — registou temperaturas acima das normais sazonais, sobretudo nos países nórdicos, nos Estados bálticos e no noroeste da Rússia.O mês ficou também marcado por uma vaga de calor precoce "sem precedentes" no oeste dos Estados Unidos, onde os termómetros alcançaram os 44°C em alguns locais."Os dados do Copernicus para março de 2026 dão-nos que pensar", comentou Carlo Buontempo, diretor do serviço do observatório para as alterações climáticas, citado no boletim."Cada número é impressionante por si só, mas o conjunto oferece o retrato de um sistema climático sujeito a pressões sustentadas e cada vez mais fortes", acrescentou.O Copernicus confirmou igualmente que a extensão da banquisa do Ártico atingiu este inverno a menor superfície alguma vez registada, em nível semelhante ao recorde do ano passado, como já havia anunciado o instituto norte-americano de referência nesta área, o NSIDC.A banquisa, formada pelo congelamento da água do mar, derrete naturalmente no verão e volta a formar-se no inverno. Mas devido ao aquecimento, a proporção em que se recompõe a cada inverno está em declínio.A libertação do metano e de CO2 - o primeiro 28 vezes mais potente do que o segundo do ponto de vista do efeito de estufa - acumulados debaixo desta placa de gelo perene constitui uma ameaça crítica para o clima global.