O Sr. SIRESP. Uma "vida errática" com boxe, deserto e Guerra da Informação

Paulo Viegas Nunes, brigadeiro general do Exército e ex-diretor da Academia de Informações e Comunicações da NATO, é a aposta do governo para gerir o SIRESP. Este engenheiro eletrotécnico é a antítese do nerd: é paraquedista, foi campeão de boxe, adora contar histórias e o cheiro das monções africanas.

Paulo Viegas Nunes, 56 anos, é o novo presidente da empresa Siresp S.A., que gere as redes de comunicações de emergência do país. Brigadeiro-general do Exército da arma de transmissões, é o único doutorado das Forças Armadas em Guerra da Informação.

Assume que tem uma história de vida "um pouco errática", que começou em Tavira, e passou por vários países, entre os quais Guiné-Bissau, Angola, Itália e até pelo deserto do Saara, numa missão interrompida uma semana para se casar.

A sua escolha para presidente do conselho de administração da Siresp foi a solução para pôr fim a um período de grandes pressões marcado pelo conflito aberto entre o governo e a então líder da empresa, com acusações mútuas de favorecimentos a empresas.

Francisca van Dunem, na altura com a pasta da Administração Interna, quis afastar "suspeições de conflitos de interesses" e não reconduziu Sandra Perdigão Neves, ao mesmo tempo que ordenava a substituição de um consultor da secretaria-geral do ministério, sobre cuja imparcialidade havia dúvidas.

"Era urgente escolher alguém com qualificações, independência, sentido de Estado e espírito de missão", contou ao DN fonte governamental envolvida no processo.

"O primeiro-ministro fez questão de que fosse um militar, a sra. ministra falou com o então ministro da Defesa, João Gomes Cravinho, e o nome do general Viegas Nunes surgiu muito rapidamente como a escolha óbvia", acrescenta.

Acabado de assumir o cargo de diretor de Comunicações do Exército, Viegas Nunes recebeu o telefonema do Chefe de Estado-Maior do Exército (CEME), Nunes da Fonseca, com um misto de surpresa e orgulho.

"Não havia como dizer que não. O SIRESP é um serviço crítico essencial para o país que é preciso salvaguardar neste momento. Estou habituado a procurar soluções. Para um militar, quando se lhe atribui uma missão, é para cumprir. Fiz a minha avaliação, identifiquei o problema e propus as minhas soluções", frisa.

Alinhamento internacional

A sua primeira (e espinhosa) tarefa foi concluir o caderno de encargos para o concurso público internacional que vai selecionar os melhores fornecedores para a operação e manutenção do SIRESP.

Um ponto de honra para o governo depois de, em junho de 2021, ter sido obrigado a fazer um ajuste direto com os mesmos fornecedores de há 14 anos, porque o ex-ministro Eduardo Cabrita não tratou do processo a tempo.

"Havia problemas a ser resolvidos e essa foi a minha primeira missão. O caderno de encargos foi pensado e reformulado", afirma.

"Toda a engenharia por detrás do concurso dá boas soluções. A rede foi preparada para suportar as novas tecnologias, LTE (Long Term Evolution) e outras que permitem a transmissão da imagem e som (esta complementa a atual tecnologia de voz). O contrário seria um estrangulamento. Com este concurso a base foi alargada de forma a permitir toda a evolução tecnológica 5G, 6G, o que for. O nosso plano é que sejam feitas experiências-piloto, com ilhas de utilização para validar as condições de segurança, antes de se generalizar. Estamos completamente alinhados com o ciclo internacional, que prevê que seja esta década de 20 a ser o período para esta evolução. A maioria dos países estão neste momento a iniciar projetos-piloto nesse sentido", reitera.

Embora tenha recusado reagir às críticas da sua antecessora, Sandra Perdigão Neves - que acusou o governo de ter feito um concurso à medida para uma das empresas fornecedoras, impedindo a evolução tecnológica -, estas declarações não deixam de ser a resposta às alegações de favorecimento no concurso público internacional que a secretária de Estado da Administração Interna, Isabel Oneto, garantiu, em entrevista ao DN, ser "à prova de bala".

Boa parte desta exigência de imparcialidade está no júri. "Os membros do júri, presidido pelo professor de Telecomunicações do IST, Luís Correia, foram selecionados de três origens relevantes: da entidade reguladora, a ANACOM, da engenharia, com a Ordem dos Engenheiros, e da academia, com o IST. Foram convidados por mim, um a um, e nenhum hesitou. Vão sacrificar muito do seu tempo livre deste verão pro bono. Há até quem venha dos Açores. Revelaram um enorme sentido de serviço público", afiança.

Paulo Viegas Nunes nasceu em Tavira em 1966 e, reconhece, teve "um percurso bastante errático". Aos três anos a sua família seguiu para a Guiné, onde o pai, também militar, tinha sido colocado durante a Guerra Colonial. Um ano depois um novo destino, Luanda, onde ficou até à revolução do 25 de Abril. Tinha apenas oito anos, mas ficou com "as cores, sons e o perfume das monções" nas suas memórias. "Tive uma infância muito feliz", afirma.

Em 74 regressou a Tavira, onde completou o Ensino Primário, seguindo depois para Faro. "Aos 12 anos decidi que queria vir para Lisboa, para a escola dos Pupilos do Exército. Os meus pais não gostaram muito que viesse sozinho, mas consegui convencê-los. Passei ano e meio nos Pupilos e ia a casa aos fins de semana. Para mim era muito importante aquele regresso ao Algarve, era a minha casa e sabia bem voltar. Até tive pena quando os meus pais quiseram mudar-se para Lisboa, para ficarem mais perto de mim", relembra.

O desporto e o nariz partido

Completou o 12.º ano nos Pupilos do Exército e classifica esta experiência como uma "escola de vida". E as exigências militares muito contribuíram para que não fosse o típico nerd de óculos, que usa, agarrado a computadores.

Praticante de vários desportos, corria o país com a sua equipa em exibições, tendo começado por ser Campeão Nacional de Infantis em andebol.

Ginástica desportiva e a mesa alemã, foram outras modalidades em que venceu, mas também ousou os "desportos mais radicais", revela, apontando com um sorriso para um dos emblemas da lapela. "Fiz o curso de paraquedista em Tancos", indica.

Mas há mais. Foi campeão de Boxe na Academia Militar na categoria de meio-médio-ligeiro, modalidade que lhe valeu uma distinção muito especial: um novo órgão olfativo.

"O meu nariz não ficou em muito boas condições e teve de ser, digamos, reconstruído", ri-se, não escondendo uma ponta de vaidade. "Não sou mesmo o estereótipo do nerd", confirma, lembrando uma das regras militares - "corpo são, mente sã".

A vocação pelas transmissões começou logo a surgir no 9.º ano, nos Pupilos, quando escolheu a área de Eletrotecnia. "Tive, desde muito cedo, a convicção de que seria a arma do futuro", explica. O que o atraiu foi "um misto de tecnologia e futuro, no aspeto da transformação para melhorar a vida das sociedades".

O serviço público está-lhe na pele - tal como a farda que não tira mesmo em funções civis, como a atual - e dá-lhe a tranquilidade de resistir a tentações de mudar para o privado onde, com o seu nível de qualificações, poderia ter enormes compensações financeiras. "Nunca senti esse apelo. É a minha vocação", diz.

A sua "vida errática" continuou ainda durante os anos em Engenharia Eletrotécnica no Instituto Superior Técnico (IST), quando foi destacado para a MINURSO, uma missão das Nações Unidas no Saara Ocidental, a meio do mestrado. "Escrevi a dissertação final dentro de um contentor no deserto, em 1997", recorda.

Foi ainda durante esta sua "travessia" no deserto Saara que se casou, conseguindo que o comandante no terreno, na altura o general Garcia Leandro, o deixasse vir a Lisboa semana e meia para a cerimónia e lua-de-mel.

Desta missão trouxe também alguns motivos de orgulho. "Fui oficial para as comunicações das forças e consegui disponibilizar um terminal-satélite para cada time site (aquartelamento) e, assim, havia um telefone para os militares poderem receber e fazer chamadas em casos especiais familiares. Teve um impacto enorme na moral dos militares. Depois instalámos internet e podiam trocar e-mails e mensagens", conta, frisando que "as comunicações militares portuguesas têm um grande histórico e reputação".

Regressado do Saara foi designado para comandar o corpo de alunos do 1.º ano da Academia. Um desses cadetes integra atualmente o grupo de trabalho que criou na Siresp, para preparar e acompanhar o concurso público e os desenvolvimentos tecnológicos. "Costumo dizer que esse ano (1997/1998) foi um ano vintage. Vários cadetes seguiram áreas tecnológicas e continuam a deixar a sua marca no Exército, como altamente qualificados que são", afiança.

Destaca como alguns dos mais satisfatórios desafios profissionais, em 2001, a criação da primeira pós-graduação em Competitive Intelligence and Information WarFare, na Academia Militar, onde ainda é professor. "Este curso mudou o paradigma na Academia Militar, que passou a ser um centro especializado nessa matéria", assinala.

Um Doctor Europeo

O doutoramento foi a sequência natural para este oficial. A guerra da informação surgiu como tema, inspirado por um artigo que leu na Revista Militar. "Hoje vivemos um novo paradigma da moderna conflitualidade, que afeta não só a área militar, mas também toda a sociedade. (...) Neste novo tipo de guerra, o objetivo declarado é o de condicionar ou limitar a ação de um adversário, atingindo elementos sensíveis da sua IIN (Intelligent Information Network - Redes de Informação Inteligente). Dentro deste enquadramento, a Guerra de Informação, abrange tudo o que se possa fazer para preservar os nossos recursos e sistemas de informação da exploração, corrupção ou destruição enquanto simultaneamente se explora, corrompe ou destrói os recursos e sistemas de informação dos adversários, conseguindo desta forma obter a necessária "vantagem de informação", escreveu em 2006 na Computer World.

A sua tese (Análise da conflitualidade da informação na sociedade em rede: um enquadramento para a conceção e implementação de um modelo de Estratégia da Informação Nacional) foi terminada quando estava numa missão em Bruxelas (como adjunto na missão militar da NATO na União Europeia) e defendida na Universidade Complutense de Madrid, alcançando a classificação máxima de Sobressaliente cum laude (Excelente, com distinção).

Com a particularidade de se tratar de um grau de Doctor Europeo - tese escrita em português e defendida em castelhano foi uma das condições - válido em todo o espaço europeu.

Cumpriu várias missões ao serviço da ONU, NATO e UE, o que lhe deu mundo. Em 2017 foi nomeado comandante na NATO Communications and Information Systems School, em Latina (Itália), escola essa que acabou por "desinstalar integralmente e transferir na totalidade" para Oeiras, com a designação de Nato Comunnications and Information Academy, onde esteve até 2020. "

Foi um processo muito interessante. Toda a estrutura, equipamentos, laboratórios, teve de ser desmontada e reconstruída a mais de 2500 quilómetros. Foi uma operação logística gigantesca em apenas cinco meses, entre maio e setembro. Não houve férias em agosto para ninguém. Depois, foi preciso deslocalizar todo o "cérebro" da escola, todos os formadores, tudo sem nunca interromper as aulas. Iniciámos vários projetos-piloto de ensino à distância, que depois vieram a ser muito úteis na pandemia". Esta Academia certifica todos os operadores das missões da NATO.

Depois do Curso de Promoção a Oficial General, assumiu funções de adjunto do diretor de ensino da Academia Militar e foi nomeado coordenador do Grupo de Implementação da Cyber Academia and Innovation Hub, em março de 2021.

Quando foi desafiado para a Siresp, S.A., tinha acabado de ser escolhido para liderar a Direção de Comunicações e Sistemas de Informação do Exército.

Um major-general que conhece Viegas Nunes pelo menos há 30 anos, destaca que é "uma pessoa muito consistente, vertical, institucional e só faz o que estiver correto do seu ponto de vista.

Sublinha a sua "carreira nacional e internacional muito interessante", recordando que "foi muito graças ao seu trabalho que se conseguiu trazer a Academia de Comunicações da NATO para Oeiras".

Não hesita em afirmar que "as competências técnicas que tem para o atual cargo são elevadíssimas". Este oficial general não estranha que Viegas Nunes tenha aceitado ser presidente da Siresp, S.A., porque "sendo militar, o espírito de missão está no seu ADN", mas crê que "deve ter imposto as suas condições e uma delas, foi, certamente, levar a sua equipa".

Duarte da Costa, brigadeiro general que preside à Autoridade Nacional de Emergência e Proteção Civil (ANEPC), considera-o "um homem muito capaz, um homem de missão".

Este responsável, que foi acompanhando ainda no Exército o percurso de Viegas Nunes, assevera que, "da sua geração de militares, é alguém com características muito vincadas para altos cargos e por isso a sua escolha era óbvia. Trata-se de um cargo difícil, no qual é preciso lidar como muitas dificuldades, mas ele tem engenho e arte para as enfrentar".

Planear o provável, preparar para o pior

Desde que assumiu as funções, há pouco mais de três meses, Viegas Nunes lançou a "Academia SIRESP", com o objetivo de proporcionar formação aos utilizadores deste serviço.

"Foi um dos problemas que identificámos e organizámos um plano de formação, composto por quatro módulos que se adaptam às necessidades de cada um: um módulo básico, outro para o utilizador da rede, outro para o gestor e área que coordena meios e um 4.º para a coordenação interagências".

A 2 e 3 de junho organizou o SIRESP Tech Days, juntando utilizadores e várias empresas tecnológicas fornecedoras destes serviços. "A ideia foi promover o diálogo para identificar necessidades e debater as melhores soluções", explica.

Foram preparados vários cenários e os participantes trabalharam em conjunto para os enfrentar: um terramoto seguido de tsunami, um furacão a atravessar vários distritos do país, um acidente em túnel ferroviário e um blackout total, com ausência de comunicações a nível nacional.

Pelo que já conhece do SIRESP, Viegas Nunes considera-o um sistema com "resiliência suficiente para evitar que qualquer situação mais complicada comprometa a emergência e a segurança do país".

Acompanhou os trágicos fogos de 2017 a partir de Itália, quando comandava a Escola da NATO, em Latina.

"Frequentemente existiam também numerosos incêndios na zona onde estava, na estrada de Pontina, que liga Latina a Roma. Ao ter tido conhecimento da tragédia de Pedrógão senti que, coletivamente, teríamos todos de evitar que as lacunas, fragilidades e constrangimentos verificados se voltassem a repetir. No caso do SIRESP, as lições aprendidas converteram-se em ação, tendo sido reforçada a redundância de comunicações , com quatro novas estações-móveis e instalando-se um terminal-satélite em todas as estações-base, reforçando-se também, neste processo de aumento de resiliência da rede, a energia socorrida com 18 grupos de geradores prontos a ser utilizados em caso de necessidade".

É do quartel-general da Siresp, na sala de operações, onde é monitorizada em tempo real o estado da rede e antenas durante as operações (era quinta-feira e a onda de calor já começava a provocar vários incêndios no país), que nos diz que "a Siresp está em reestruturação profunda, visando a internalização de funções, para que o Estado assuma todo o poder", e, para isso, salienta "tem de haver um reforço de competências".

De resto, é consultar a "cartilha" do planeamento militar: "Planeamos para a situação mais provável e para a mais perigosa, minimizando os riscos".

valentina.marcelino@dn.pt

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