O descarrilamento do elevador da Glória aconteceu a 3 de setembro de 2025
O descarrilamento do elevador da Glória aconteceu a 3 de setembro de 2025FOTO: GERARDO SANTOS

O ponto da situação um ano após o descarrilamento do elevador da Glória

Acidente que provocou 16 mortes e 24 feridos aconteceu a 3 de setembro de 2025. Memorial inaugurado esta quinta-feira, mas ainda não há conclusões definitivas, novo ascensor nem indemnizações fechadas
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Faz esta quinta-feira, 3 de setembro, um ano que o elevador da Glória descarrilou, em Lisboa, um acidente que provocou 16 mortes e 24 feridos, entre portugueses e estrangeiros de várias nacionalidades.

As vítimas mortais eram sobretudo turistas estrangeiros, mas também morreram cinco portugueses: o guarda-freio André Marques, que operava uma das cabines deste equipamento gerido pela empresa municipal Carris, e quatro trabalhadores da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa que utilizavam este transporte público. O acidente provocou ainda 24 feridos, dos quais nove graves.

O relatório preliminar de outubro apontou falhas e omissões na manutenção do ascensor da Glória e a falta de formação dos funcionários e de supervisão dos trabalhos efetuados pela empresa prestadora do serviço.

Um ano depois, como está o ponto da situação?

Seguradora já assumiu custos de 2,3 milhões de euros

A Fidelidade assumiu até agora custos no total de 2,3 milhões de euros relacionados com o acidente do elevador da Glória, incluindo quatro indemnizações a famílias de vítimas mortais, anunciou a seguradora da Carris.

A Fidelidade adiantou num comunicado publicado na semana passada que, até ao momento, “suportou diretamente, ou assumiu a responsabilidade pelo reembolso, de aproximadamente 2,3 milhões de euros em despesas relacionadas com o acidente, incluindo além dos acordos indemnizatórios já alcançados, serviços funerários, repatriamentos, consultas, tratamentos, internamentos, intervenções cirúrgicas, reabilitação, transportes, salários perdidos, entre outros”.

Relativamente às 16 mortes, foram concluídos até à presente data acordos de indemnização com quatro famílias e estão atualmente em negociação sete processos.

“Uma situação segue os respetivos trâmites judiciais, após não ter sido possível, até ao momento, alcançar acordo quanto à proposta apresentada”, revelou a seguradora, avançando ainda que “existe uma outra vítima mortal que está a ser regularizada exclusivamente em sede de acidentes de trabalho à qual estão a ser pagas pensões provisórias que se manterão até que esteja concluído o processo no tribunal do trabalho”.

Há ainda três processos em que “ainda não foi possível apresentar uma proposta indemnizatória definitiva”, devido, essencialmente, à “necessidade de obtenção de documentação indispensável e das especificidades legais dos países envolvidos”, explicou.

Já quanto aos 24 feridos, “a avaliação indemnizatória definitiva apenas poderá ser realizada quando exista estabilização clínica que permita determinar, de forma adequada, a extensão das eventuais sequelas e dos danos sofridos”, o que ainda não aconteceu em nenhum dos casos.

A seguradora vincou que não comenta casos individuais, nem qualquer informação pessoal ou clínica abrangida por deveres de confidencialidade e privacidade das vítimas e das suas famílias.

Salientando a “especial complexidade” que revestiu algumas das situações, a Fidelidade afirmou que a conclusão dos processos “depende, essencialmente, da estabilização clínica das vítimas, da obtenção dos elementos necessários à avaliação dos danos e, nos processos indemnizatórios, do acordo entre as partes”.

Câmara de Lisboa e Carris afirmam ter feito "tudo, tudo, tudo” no apoio às vítimas

O vice-presidente da Câmara de Lisboa afirmou na segunda-feira que a autarquia e a empresa municipal Carris “têm feito tudo, tudo, tudo” no apoio às vítimas e seus familiares na sequência do acidente com o elevador da Glória.

“O tema do drama das vítimas e das famílias é um tema fortíssimo e é um tema que nós temos que o viver, que o respeitar e que o honrar. Portanto, a Carris e a Câmara Municipal de Lisboa têm feito tudo, tudo, tudo para ir ao encontro das vítimas, aos familiares das vítimas, disponibilizando apoio médico, apoio psicológico, apoio social”, disse Gonçalo Reis aos jornalistas após a apresentação da solução para o futuro ascensor da Glória.

Sobre a demora no apuramento das causas do acidente, Gonçalo Reis alegou que as auditorias internas e externas da Carris e os trabalhos da Comissão Técnica Independente “dependem também da disposição dos elementos técnicos” por parte do Gabinete de Prevenção e Investigação de Acidentes com Aeronaves e de Acidentes Ferroviários (GPIAAF).

Há cerca de duas semanas, o GPIAAF informou que o relatório final sobre o acidente não ficará concluído em setembro, como previsto, devido à complexidade das peritagens técnicas, prevendo-se agora a publicação até “final do primeiro trimestre de 2027”.

Interpelado sobre se a CML, enquanto acionista única da Carris, não se sente envergonhada por ainda não se saber exatamente o que aconteceu, o autarca disse: “O drama que aconteceu, nós temos que o honrar, temos que o tratar, temos que cuidar e temos que reparar. O GPIAAF já disse que não consegue fazer o trabalho técnico em 12 meses e já apontou um prazo de 18 meses.”

“Estamos a fazer o máximo possível. As equipas técnicas no terreno, as equipas médicas, as equipas de apoio psicológico, as equipas de apoio social. Portanto, estamos a fazer todos os possíveis com o maior empenho”, reforçou o vice-presidente da CML.

Quanto às indemnizações às vítimas, Gonçalo Reis indicou que a seguradora da Carris, a Fidelidade, “já apresentou propostas a todos, já houve quatro que aceitaram e espero que sejam resolvidas o mais rapidamente possível, sem qualquer restrição financeira”.

Já o presidente da Carris, Rui Lopo, no cargo desde janeiro – após a demissão do anterior gestor Pedro de Brito Bogas na sequência do descarrilamento –, expressou “total solidariedade” da empresa para com as vítimas do acidente e seus familiares.

Em relação à investigação, Rui Lopo considerou que “não há uma falta de resposta, há uma falta de conclusões”, lembrando que, “felizmente”, já são conhecidos vários relatórios que foram feitos por uma entidade independente, referindo-se ao GPIAAF.

“Temos que ter todos nós enormíssima confiança naquela independência e naquela capacidade técnica e, portanto, já são conhecidos um conjunto de aspetos sobre os quais nós já trabalhámos e continuamos a trabalhar na Carris para melhorar”, declarou o presidente da empresa municipal de transporte público, defendendo que, mais do que a demora na investigação, o importante é que, “quando se conclua, se saiba exatamente o que aconteceu”.

Relatório do Ministério Público aguarda resultado de ensaios e peritagens

A investigação do Ministério Público ao descarrilamento do ascensor da Glória aguarda a conclusão de ensaios e peritagens prevista para o próximo mês de novembro, foi divulgado na quarta-feira, 2 de setembro.

Em comunicado, o Ministério Público refere que a sua investigação, independente daquela que está a ser feita pelo Gabinete de Prevenção e Investigação de Acidentes com Aeronaves e de Acidentes Ferroviários (GPIAAF), “aguarda a conclusão dos ensaios e peritagens técnicas que se prevê que deva ocorrer no próximo mês de novembro”.

De acordo com o organismo, depois será realizada a “análise minuciosa dos factos, a avaliação criteriosa sobre a suficiência de indícios e o apuramento de eventuais responsabilidades criminais, pelo que se estima que o despacho final de inquérito, salvo algum imponderável, possa ocorrer até ao final do primeiro trimestre de 2027”.

Desta forma, a divulgação ocorrerá na mesma altura que o relatório final ao acidente do ascensor da Glória do GPIAAF, que deveria estar pronto um ano após o acidente, em 03 de setembro, mas que, “devido à complexidade das peritagens técnicas”, tem agora previsão de publicação até “final do primeiro trimestre de 2027”.

Inspeção aos ascensores da Bica e do Lavra e ao elevador de Santa Justa ainda decorre

A inspeção aos ascensores da Bica e do Lavra e ao elevador de Santa Junta, equipamentos históricos em Lisboa encerrados há cerca de um ano na sequência do descarrilamento do elevador da Glória, ainda decorre, informou esta segunda-feira, 31 de agosto, a Carris.

Em declarações aos jornalistas após a apresentação da solução para o futuro ascensor da Glória, o presidente da Carris, Rui Lopo, disse que os ascensores da Bica e do Lavra e o elevador de Santa Junta ainda estão sob “avaliação técnica rigorosa, de grande detalhe, de grande cuidado”, sem previsão de quando voltarão a funcionar, adiantando que no elevador de Santa Justa “a avaliação está mais avançada do que no Lavra, mas ainda vai demorar”.

“A segurança não é negociável e, portanto, estas coisas não podem ter precipitações e tem que ser tudo visto com grande cuidado”, declarou.

Passado cerca de um ano, os ascensores da Bica e do Lavra ainda estão a ser avaliados, sendo que “há um conjunto de circunstâncias técnicas que têm que corresponder às questões de segurança”, indicou o presidente da Carris, Rui Lopo, no cargo desde janeiro, após a demissão do anterior gestor Pedro de Brito Bogas na sequência do descarrilamento.

Afirmando que ascensor do Lavra tem o mesmo sistema de funcionamento do ascensor da Glória, porque “a Glória é o irmão gémeo do Lavra”, o presidente da Carris ressalvou que, “independentemente disso, há uma Comissão Técnica Independente que está a trabalhar” quanto à avaliação da segurança do Lavra.

“Ainda é prematuro nós conseguirmos avaliar o que é que efetivamente tem de acontecer” para que o ascensor do Lavra possa voltar a funcionar, expôs Rui Lopo, referindo que “há um enquadramento macro, mas tem que ser analisado, com muito detalhe, com muita responsabilidade”, sublinhando que “são processos demorados”.

O funcionamento destes equipamentos históricos da Carris depende de vários fatores, inclusive a demora no fornecimento de equipamentos e de subsistemas de segurança, o que “tem um tempo demoradíssimo”.

“Portanto, avaliar condições, com grande responsabilidade, ter o tempo que for necessário para, quando for reposto, é reposto em condições de segurança, hipertestadas e hiperverificadas”, defendeu, explicando que “o funcionamento destes equipamentos não é assim tão diferente uns dos outros.

Referindo que todos estes equipamentos históricos da Carris “são património nacional”, Rui Lopo disse que, “se todas as condições de segurança podem ser garantidas, ainda que em equipamentos antigos”, a empresa municipal tem de garantir toda a avaliação técnica, que está a ser feita por “variadíssimas entidades”, inclusive a Comissão Técnica Independente e técnicos internacionais.

Essa avaliação técnica concluirá se os equipamentos podem funcionar tal como estão ou se é preciso introduzir alterações ou se carecem de “uma solução completamente nova”, apontou o presidente da Carris.

A Comissão Técnica Independente, criada por deliberação da Câmara de Lisboa, presidida por Carlos Moedas (PSD), após o acidente com o elevador da Glória, é composta por especialistas indicados pela Ordem dos Engenheiros (OE), pelo Laboratório Nacional de Engenharia Civil (LNEC) e pelo Instituto Superior Técnico (IST), contando ainda com representantes das empresas municipais Carris (transporte público) e da EMEL (estacionamento e mobilidade).

Futuro ascensor terá "novo sistema" a conceber após concurso internacional

O futuro ascensor da Glória contará com um “novo sistema” que garantirá “toda a segurança”, prevendo-se um concurso público internacional de conceção até ao final março de 2027 e a inauguração do equipamento em 2029, foi divulgado esta segunda-feira.

“Já não podemos ter um equipamento histórico que funcionava sem modificações substantivas até ao dia 01 de janeiro de 1986 e, portanto, estamos perante uma solução nova em termos de processo construtivo”, afirmou o presidente da Carris, Rui Lopo, na apresentação da solução e dos conceitos técnicos subjacentes ao projeto do futuro ascensor da Glória, que decorreu no auditório da Ordem dos Engenheiros, em Lisboa.

Gerardo Santos

Rui Lopo reforçou que o projeto não consiste numa reconstrução do anterior sistema de transporte do elevador - que descarrilou em 03 de setembro de 2025, num incidente com 16 mortos e 24 feridos -, até porque uma das duas cabines ficou destruída. Ainda assim, apesar do anúncio de um “novo modelo”, o novo equipamento será “semelhante ao anterior”.

“É um equipamento seguro, é um equipamento moderno, uma cabine semelhante à anterior, mas não será em madeira, será em materiais mais resistentes a qualquer embate, a qualquer circunstância", afirmou.

Antes de falar sobre a solução, o presidente da transportadora deixou uma primeira palavra às vítimas, aos sobreviventes e aos seus familiares, indicando que nada do que se possa apresentar “pode, nem quer, apagar a dimensão humana” de um acidente que “marca profundamente a cidade, a Carris e os seus trabalhadores”.

Nesta sessão esteve também o vice-presidente da Câmara Municipal de Lisboa (CML), Gonçalo Reis (PSD), que enalteceu o trabalho do município “depois do trágico acidente”, no apoio às vítimas e aos seus familiares, na “averiguação de todas as causas do acidente”, com auditorias internas e externas, e no desenvolvimento de uma solução futura para o ascensor da Glória e para os equipamentos históricos da Carris.

Relativamente ao futuro ascensor, o vice-presidente da CML realçou a aposta numa modelo “tecnicamente robusto”, que garante “toda a eficácia, toda a segurança, e que segue as melhores práticas do mundo”.

“É também um modelo que compatibiliza uma boa solução em termos de mobilidade de transportes com a valorização do espaço público, e é uma solução moderna, é uma solução avançada, mas que respeita a identidade, o caráter e a história deste espaço tão especial”, apontou Gonçalo Reis.

Memorial às vítimas inaugurado esta quinta-feira

O memorial às vítimas da tragédia do elevador da Glória, em Lisboa, foi inaugurado esta quinta-feira, 3 de setembro, no Largo da Oliveirinha, junto à Calçada da Glória, onde há um ano ocorreu o acidente.

A composição do memorial integra uma oliveira adulta com 150 anos implantada em caldeira circular e rodeada por “16 blocos pétreos em calcário” com “alturas diferenciadas e superfícies preparadas para gravação dos nomes das vítimas”, informou a Câmara Municipal de Lisboa (CML), em comunicado.

O Largo da Oliveirinha, com uma árvore de 150 anos e 16 blocos calcários – o número de vítimas mortais –, será o memorial inaugurado esta quinta-feira, dia 3 de setembro.
O Largo da Oliveirinha, com uma árvore de 150 anos e 16 blocos calcários – o número de vítimas mortais –, será o memorial inaugurado esta quinta-feira, dia 3 de setembro. FOTO: Tiago Figueiras | CML

“A partir desta quinta-feira, 03 de setembro de 2026, e na sequência do trágico acidente ocorrido no elevador da Glória, equipamento histórico, inaugurado em 1885 e elemento identitário da cidade, Lisboa passará a contar com um local de homenagem, memória e reflexão coletiva: um memorial no Largo da Oliveirinha”, realçou a CML, presidida por Carlos Moedas (PSD).

“O memorial pretende afirmar-se como um espaço de recolhimento, passando a reforçar simultaneamente a dimensão simbólica daquele lugar”, indicou a autarquia.

Além da oliveira e dos 16 blocos em calcário com os nomes das vítimas, a composição do memorial inclui um banco semicircular contínuo em pedra natural e uma guarda metálica envolvente ao memorial, incorporando iluminação integrada e suporte para deposição de flores.

A CML reforça ainda que o memorial se desenvolve em torno da oliveira adulta, elemento central da intervenção, símbolo de paz, continuidade e permanência, diretamente associado ao topónimo “Oliveirinha”.

Articulado com o eixo turístico-cultural da Calçada da Glória e do Jardim de São Pedro de Alcântara / Jardim António Nobre, um dos miradouros mais emblemáticos de Lisboa e o ponto alto da experiência urbana proporcionada pelo histórico elevador da Glória, o Largo da Oliveirinha funciona como um pequeno espaço de transição entre ruas históricas e zonas de maior movimento, pelo que “a sua qualificação reforça a continuidade pedonal e a coerência do conjunto monumental”, segundo a CML.

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