Apresentação do novo Elevador da Glória, em Lisboa.
Apresentação do novo Elevador da Glória, em Lisboa.Gerardo Santos

Carris quer lançar concurso do Elevador da Glória no próximo ano e tê-lo a funcionar em 2029

Rui Lopo apresentou na Ordem dos Engenheiros, em Lisboa, as cinco características principais do novo projeto que vai substituir, no mesmo local, o Elevador destruído há um ano.
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O presidente da Carris, Rui Lopo, anunciou esta segunda-feira, 31 de agosto, que a empresa pretende lançar o concurso internacional para a conceção e construção do novo Elevador da Glória no primeiro trimestre do próximo ano. O antigo Elevador da Glória ficou destruído num acidente no dia 3 de setembro de 2025 que causou a morte de 16 pessoas.

Numa apresentação na Ordem dos Engenheiros, em Lisboa, Rui Lopo listou as cinco características principais do novo projeto que vai substituir, no mesmo local, o Elevador que ficou destruído.

“Ao longo dos últimos meses, tornou se evidente que não estávamos perante uma situação simples de reparação ou reposição do equipamento existente. O acidente provocou alterações significativas nos ativos que compõem o conjunto do Elevador da Glória, e acabou por praticamente destruir a cabine de trabalho amplamente danificada e, portanto, a responsabilidade da Carris não era apenas reconstruir o passado”, disse Rui Lopo.

A responsabilidade da Carris, disse, “é projetar necessariamente o futuro”.

Assim, explicou, a solução a apresentar terá de “respeitar a identidade histórica, mas simultaneamente procurar os mais elevados padrões de segurança, fiabilidade, acessibilidade, de oportunidade, de sustentabilidade e de capacidade de supervisão tecnológica”.

Rui Lopo recordou que a acionista da Carris, a Câmara Municipal de Lisboa, deu orientações genéricas para o novo projeto. 

“Os nossos cinco princípios para o Elevador da Glória observaram as orientações da autarquia. O primeiro é que estamos perante uma nova instalação, não estamos perante uma reconstrução. O acidente deixou estruturalmente afetados um conjunto de elementos e, portanto, esta solução deixa de poder estar enquadrada naquilo que era a exceção do regulamento comunitário que tutela este tipo de equipamentos”, sublinhou.

Ou seja, a Carris já não poderá “ter um equipamento histórico que funcionava sem modificações substantivas até ao dia 1 de Janeiro de 1986. Portanto, estamos perante uma solução nova em termos de processo construtivo”.

“O segundo princípio é que a solução tem que ser, como é evidente, absolutamente segura para passageiros, trabalhadores e terceiros, recorrendo às melhores práticas internacionais e à melhor tecnologia disponível”, continuou.

Por isso, as análises de segurança subsequentes deverão abranger o sistema de transporte, a utilização da calçada e todas as operações de manutenção, operação e gestão do ativo.

O terceiro princípio é da preservação da Calçada da Glória como a conhecemos.

“Manter a Calçada da Glória como a conhecemos nos últimos 140 anos ou mais constitui um objetivo urbano, patrimonial e prioritário, maximizando a continuidade da utilização pública da calçada compatível em matéria de segurança, totalmente compatível com a operação do futuro ascensor”.

O quarto princípio é que “o valor patrimonial da glória reside no conjunto formado pelo ascensor, pela calçada, pelo traçado, pela inclinação, pela envolvente urbana e pela memória da sua relação com a cidade”.

Assim, o novo equipamento deverá preservar essa identidade e ser reconhecível como pertencendo à Glória, “não tendo necessariamente de reproduzir artificialmente uma antiguidade que não possui. Mas o ascensor será necessariamente ascensor”.

“E, por fim, como quinto princípio, um novo Ascensor da Glória deverá proporcionar uma experiência segura, acessível, confortável e adequada aos diferentes perfis de passageiros.

Quer isto dizer que a nova cabine deverá procurar ser inclusiva, confortável e reconhecível como parte da experiência singular da Calçada da Glória”, concluiu Rui Lopo.

A conceção das cabines e dos interfaces que eventualmente venham a surgir para compatibilizar o acesso de pessoas com mobilidade condicionada e reduzida deverá, assim, atender a estes requisitos contemporâneos. O plano da Carris passa por lançar o concurso internacional no primeiro trimestre de 2027.

Luís Gonçalves, membro da Comissão Técnica Independente, sublinhou que após o lançamento do concurso internacional o novo Elevador poderá, se tudo correr bem, a funcionar em 2029.

Câmara pediu processo "transparente e exemplar"

Presente na apresentação, o vice-presidente da Câmara Municipal de Lisboa, Gonçalo Reis, desfiou os vários pilares que a autarquia definiu junto da Carris para o novo Elevador da Glória.

“O mandato que nós demos enquanto Câmara Municipal de Lisboa, enquanto acionista único da Carris, os objetivos, as linhas orientadoras para a solução futura são quatro”, disse Gonçalo Reis. Em resumo, a Câmara pediu uma solução robusta, que respeite a mobilidade e a requalificação da zona da Glória; moderna, mas que respeite a personalidade do Elevador da Gloria antigo e o seu carácter específico.

Por último, o vice de Carlos Moedas sublinhou que a Câmara pediu “um processo exemplar, com um concurso público internacional, que inclua parceiros tecnológicos nacionais e internacionais”. E transparente.

Não há relatório final sobre o acidente um ano depois da tragédia

O descarrilamento do elevador da Glória ocorreu em 03 setembro de 2025 e causou 16 mortos 24 feridos de várias nacionalidades. Até ao momento ainda não há um relatório final do Gabinete de Prevenção e Investigação de Acidentes com Aeronaves e de Acidentes Ferroviários (GPIAAF) sobre o incidente.

Aliás, o GPIAAF informou mesmo que o relatório final sobre o acidente não ficará concluído em setembro, como previsto, devido à complexidade das peritagens técnicas, prevendo-se agora a publicação até “final do primeiro trimestre de 2027”.

Já a Fidelidade, seguradora da Carris, revelou que assumiu até ao momento custos no total de 2,3 milhões de euros, incluindo despesas relacionadas com o acidente, quatro acordos de indemnização a famílias de vítimas mortais, serviços funerários, repatriamentos, consultas, tratamentos, internamentos, intervenções cirúrgicas, reabilitação, transportes, salários perdidos, entre outros.

“Enquanto vice-presidente, eu sinto que a Carris e a Câmara Municipal de Lisboa estão a fazer o máximo possível para ir de encontro aos familiares, às vítimas e mantêm o contacto com  todas as famílias”, sublinhou Gonçalo Reis.

Sobre o porquê de apenas terem sido pagas quatro indemnizações pagas em 16 vítimas, o vice-presidente de Carlos Moedas disse que é uma questão que tem de ser posta às seguradoras.

 “Os temas das indemnizações, como sabe, são sempre, em qualquer parte do mundo, geridos pelas seguradoras. E aquilo que nós sabemos é que a Fidelidade já apresentou propostas a todos.

Já houve quatro que aceitaram e espero que sejam resolvidos o mais rapidamente possível, sem qualquer restrição financeira do lado, nem da Carris, nem da Câmara Municipal”, assinalou.

Sobre os custos do projeto do novo Elevador da Glória que agora foi apresentado tanto a Câmara Municipal como a Carris afirmaram que é ainda prematuro avançar valores. No entanto, ao DN, tanto o vice-presidente da CML como o presidente da Carris salientaram que a operação da nova estrutura, no final de todo o processo, ficará a cargo da Carris, como até ao momento do acidente. Ou seja, não está previsto uma eventual entrada de privados na exploração deste ou dos outros elevadores de Lisboa, ficando este concurso internacional reservado à conceção e construção do novo elevador.

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