Nobel para resolução de um mistério com mais de um século
IMAGEM: Niklas Elmehed © Nobel Prize Outreach

Nobel para resolução de um mistério com mais de um século

Em 1986 por Henri B. Kagan, que descobriu uma forma de manipular as reações químicas. Em 1995, Kenso Soai descreveu como conseguir a primeira reação química com potencial para ser homoquiral.
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A resolução de um “enigma que durante muito tempo foi um mistério para os químicos” valeu ao francês Henri B. Kagan e ao japonês Kenso Soai o prémio Nobel da Química de 2026.

Escolha explicada por serem os autores de uma descoberta que ajuda a fabricar moléculas que existem em duas versões “espelho” uma da outra e que é decisiva para os químicos que concebem reações para o fabrico de produtos farmacêuticos.

“Vou falar-lhe das nossas mãos, a minha mão direita e a minha mão esquerda. Se olharmos elas parecem iguais, mas não são. É como se fossem a imagem no espelho uma da outra. E o que acontece é: quando cumprimento, a minha mão direita liga-se à sua mão direita, não se liga à esquerda. Portanto, há uma complementaridade”, explica ao DN Paula Branco, química e professora da NOVA FCT além de investigadora no Laboratório Associado para a Química Verde.

Segundo a docente, a importância deste prémio “é a capacidade de conseguirmos modelar em laboratório apenas um dos compostos que tem de interagir, por exemplo, com o alvo biológico. Foram pessoas que trabalharam em métodos de sintetizar apenas uma das moléculas”.

Uma descoberta de enorme importância também para a química, como reconhece: “Todos nós procuramos, na verdade, este Santo Graal, que é encontrar algum catalisador, algo que possamos fazer a síntese só daquele composto. Repare, em termos de desperdício, poupa-se logo 50%, não é? Porque o outro 50% não interessa para nada. A química sustentável também é crucial.”

Um mistério com mais de um século

Para o Comité Nobel “Henri Kagan e Kenso Soai forneceram uma solução para um mistério químico com mais de um século: como a homoquiralidade pode surgir espontaneamente. As reações químicas que desenvolveram são espetaculares”.

“Algumas moléculas, como os aminoácidos, existem como duas variantes que são imagens especulares uma da outra. No entanto, os organismos vivos contêm apenas uma destas imagens espelhadas. Como é que uma assimetria química como esta poderia ter surgido foi um mistério para os químicos durante muito tempo”, acrescentou o Comité do Prémio Nobel no comunicado onde anunciou a escolha.

O primeiro passo para esta descoberta foi dado em 1986 pelo francês Henri Kagan, que descobriu uma nova forma de manipular as reações químicas, permitindo criar um excesso maior de uma das imagens especulares do que se acreditava ser possível anteriormente.

Depois, explica o Comité, em 1995, o japonês Kenso Soai descreveu como conseguir a primeira reação química com potencial para ser homoquiral, algo que concretizou em 2003.

“As suas descobertas foram decisivas para os químicos que concebem reações para o fabrico de produtos farmacêuticos”, resume o Comité do Nobel.

Comentando a atribuição do prémio, Kenso Soai, que é professor universitário no Departamento de Química Aplicada da Universidade de Ciências de Tóquio, sublinhou ser este “o dia mais emocionante” da sua vida. “Estou muito contente por partilhar este prémio com o professor Henri Kagan”, disse.

Para a professora Paula Branco há um outro ponto a destacar: a diferença de idade entre os investigadores – Kagan tem 95 anos e Kenso 76. “Acho que é interessante ver que são duas pessoas com diferenças de 20 anos e que estão no mesmo caminho”.

Com Sofia Fonseca

Nobel para resolução de um mistério com mais de um século
Nobel da Química para Henri B. Kagan e Kenso Soai por descoberta importante para fabrico de medicamentos
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