A estação 'Lunar Gateway' ia servir de ponto de escala para astronautas em viagem. Agora terá de o ser a base lunar do Programa Ignition, a partir de 2030.
A estação 'Lunar Gateway' ia servir de ponto de escala para astronautas em viagem. Agora terá de o ser a base lunar do Programa Ignition, a partir de 2030.FOTO: NASA.com

NASA cancela estação orbital e antecipa construção de base lunar para estadias longas em 2030

Impelida pela competição com a China, NASA redireciona 30 mil milhões de dólares para a extração de recursos e energia nuclear do satélite da Terra, tornando-o um novo continente económico e habitável
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A NASA anunciou esta terça-feira, 24 de março, o cancelamento imediato da estação orbital Lunar Gateway para avançar diretamente com a construção de uma base permanente na superfície da Lua, segundo notícia avançada pela Reuters. A agência espacial norte-americana decidiu concentrar todos os recursos financeiros e técnicos na aceleração do Projeto Ignition, que prevê o estabelecimento de uma presença humana fixa no solo lunar até ao final desta década.

O administrador da NASA, Jared Isaacman, justificou esta decisão estratégica com a necessidade urgente de simplificar a logística de exploração e responder à crescente competição internacional, liderada pela China.

Esta mudança de rumo visa eliminar o "ponto de escala" orbital — uma espécie de estação intermédia para os astronautas em viagem — para focar no que Isaacman descreve como a verdadeira fronteira da exploração espacial: a ocupação direta do solo.

O investimento: 30 mil milhões de dólares no solo

A reestruturação financeira necessária para esta operação é massiva. De acordo com dados publicados pelo Investing.com, a NASA prevê investir cerca de 20 mil milhões de dólares exclusivamente em infraestrutura de superfície ao longo dos próximos sete anos. No cômputo geral, o Programa Ignition deverá exigir um financiamento total de 30 mil milhões de dólares durante a próxima década para se tornar plenamente operacional.

Os fundos, que estavam originalmente destinados à construção da Gateway, através de contratos com a Northrop Grumman e outros parceiros globais, serão agora redirecionados para o desenvolvimento de habitats modulares, sistemas de extração de recursos locais e centrais de energia nuclear compactas.

Este movimento acarreta riscos diplomáticos consideráveis, uma vez que o projeto orbital contava com a participação ativa da ESA (Europa), do Canadá e do Japão, cujos contratos entram agora numa fase de reavaliação técnica, conforme sublinhado pelo portal The Register.

Artemis: o caminho para a permanência

A aceleração do programa obrigou a um ajuste drástico no calendário das missões Artemis, detalhado pela IFLScience. O novo plano começa já em abril de 2026 com a missão Artemis II, que levará uma tripulação num voo de teste em redor da Lua.

No ano seguinte, em 2027, a Artemis III realizará testes críticos de acoplagem e transferência de carga em órbita terrestre, servindo de prelúdio para o momento histórico planeado para o início de 2028: a missão Artemis IV, que deverá marcar o regresso definitivo dos humanos ao solo lunar e o início da montagem dos primeiros módulos habitacionais fixos.

O objetivo final é que, em 2030, a base esteja apta a receber astronautas para estadias de longa duração.

Do ecrã à realidade: o legado de Espaço: 1999

Para os observadores e entusiastas do setor, esta decisão da NASA representa uma mudança radical de estratégia que evoca o imaginário da ficção científica dos anos 70. Ao abandonar o conceito de uma estação clínica em órbita em favor de uma infraestrutura terrestre, a agência transforma a lendária Base Lunar Alpha da série Espaço: 1999 numa possibilidade concreta.

Especialistas consultados pelo SpaceQ referem que este foco na ocupação territorial e na exploração mineira de recursos valida a visão de uma economia lunar sustentável. Em vez de uma simples paragem no caminho para Marte, a Lua passa a ser vista como um novo continente a ser habitado, aproximando a realidade tecnológica do século XXI da audácia visual que marcou a ficção de há cinco décadas.

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