O ano é 2023, o mesmo ano no qual rebentou, em abril, aquele que é até agora o maior escândalo português associado ao movimento #metoo. O “caso Boaventura de Sousa Santos”, ou “caso CES”— de Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra —, surgido a partir de um artigo publicado numa revista científica internacional sobre assédio sexual na academia, e que o DN investigou desde o primeiro momento.É, curiosamente, no mesmo mês, abril de 2023, em que rebenta esse escândalo, que ao DN chega pela primeira vez a informação de que há, num partido que se posiciona, face ao CES, no outro lado do espectro ideológico (o fundador da IL e atual deputado Carlos Guimarães Pinto apelidou o CES de “viveiro da esquerda radical”), mulheres que se queixam de ser vítimas de assédio sexual. Esta informação, porém, acaba por não ter seguimento: as mulheres em causa optam por não falar ao jornal. Têm medo, explica quem fez a intermediação.Ainda assim, meses mais tarde, várias mulheres ligadas à IL criam um grupo de WhatsApp para, precisamente, debater o assunto. “Queríamos perceber se havia mais casos de assédio sexual e de assédio laboral, para proteger as pessoas, e era também a tentativa de criar uma espécie de aliança entre as mulheres, para serem mais valorizadas no partido”, explica ao jornal uma delas, a quem chamaremos Teresa.E a que conclusão chegaram? “Que não fazíamos ideia da quantidade de assédios que havia e que com o poder deles sobre tudo era completamente impossível fazermos alguma coisa.” Ficaram com a ideia de que havia vários casos? “Sim.” Teresa, como a maioria das mulheres que integrou esse grupo, tem episódios de assédio sexual para contar, mas prefere que o DN não os revele nem ao autor porque, diz, se o fizer será de imediato identificada. Porquê? “Porque alguns ocorreram à frente de terceiros do partido.”Quando o grupo surgiu, relata, já tinha tido conhecimento de outro caso semelhante ao seu. “Lembro-me de que quando me contaram não fiquei surpreendida, porque eu própria já tinha sido assediada. Depois percebi que havia bastante mais gente com o mesmo problema.”“Todos sabem”Nas conversas de WhatsApp, às quais o DN teve acesso, várias mulheres (devidamente identificadas) assumem que foram vítimas de assédio e que contaram a pessoas com responsabilidade dentro do partido, que nomeiam, sem que isso resultasse em qualquer tipo de ação (participações que a hierarquia do partido, presente e passada, nega). “Todos sabem”, diz uma delas, num eco talvez inconsciente do “Todas sabemos” que surgiram graffitados nas paredes do CES em referência aos alegados assédios perpetrados por Boaventura de Sousa Santos.Aliás outra das participantes (a esta chamamos Sara) do grupo começou por ter esperança de que dali pudesse sair algo semelhante ao Coletivo de Vítimas do CES, um conjunto de mulheres que escreveu, sob anonimato, várias cartas sobre a situação no centro académico.“Elas estavam a tentar unir-se para fazerem uma queixa conjunta anónima, ou para falarem anonimamente aos media. Mas ficaram em pânico por não saberem em quem podiam confiar e tiveram medo de ser processadas por difamação.” Sorri. “E tinham razão, como se constata: é ver o que se está a passar com a Inês Bichão.”Inês Bichão, recorde-se, é uma ex-assessora parlamentar da IL cujo nome saltou esta segunda-feira para a ribalta graças à partilha de uma foto de uma story privada (“só para amigos chegados”) da sua conta de Instagram, story na qual acusa João Cotrim Figueiredo de assédio sexual, exemplificando esse assédio com algumas frases que o atual candidato presidencial lhe teria endereçado. Malgrado ter certificado, em comunicado enviado esta quinta-feira para a Lusa, que a partilha pública da informação sucedeu contra a sua vontade, a ex-assessora terá já, de acordo com o que foi dito por Cotrim de Figueiredo aos media, uma queixa-crime por difamação contra ela na justiça. Nas redes sociais, o partido estende a ameaça: “Este assunto será tratado em tribunal, onde tudo será esclarecido, de forma inequívoca. Todos os que, sem evidência ou qualquer fundamento, participaram nesta campanha coordenada de difamação terão de por ela responder.”Por coincidência, também no caso do CES a primeira reação de Boaventura de Sousa Santos foi ameaçar com processos por difamação — que, depois de o Coletivo de Vítimas revelar os nomes de todas as suas integrantes, acabaria por colocar a várias dessas mulheres.“Esta intimidação toda vai fazer com que haja ainda menos coragem de falar”Ver o que aconteceu a Inês Bichão deixou Teresa de rastos. “Podia ter acontecido comigo — com todas nós, se tivéssemos avançado para uma denúncia pública. A intimidação toda que a IL está a fazer, a maneira como a Inês foi tratada nos jornais, vai fazer com que as pessoas tenham ainda menos coragem de falar.”Questionada sobre o que acha que deveria ter acontecido no partido face aos relatos que algumas das mulheres dizem ter feito a instâncias internas — caso de Inês Bichão, que no aludido comunicado afirma ter reportado internamente os factos em causa — e a situações em que terceiros assistiram a interlocuções ou gestos abusivos, Teresa hesita. “O que acho que devia ter acontecido? Quando alguém testemunha uma situação assim, deve chamar logo a atenção, seja a quem for; que deve haver um pedido de desculpas. E mais: uma pessoa com aquele tipo de comportamentos não deve poder avaliar, contratar, não pode estar no grupo de pessoas que vai tomar esse tipo de decisão. E acho que o partido devia ter uma maneira eficaz de lidar internamente com estes casos, que não acredito que tenha até hoje. Há uma ausência de responsabilização, e não me parece que ninguém, entre os dirigentes, queira que haja.”E face à situação que aconteceu agora, como acha que o partido deveria ter feito? “É muito difícil dizer, porque se está no meio de uma campanha. Mas como mulher e pessoa decente acho que o mínimo seria não instigar o jornalismo a fazer uma devassa à vida da Inês e depois de isso acontecer, pedir que não seja feito. É o mínimo de humanidade. E o acusar imediato pelo crime de difamação é uma maneira de silenciar as pessoas com a qual eu não concordo.”Sara concorda. “O que a IL deveria ter feito era fazer um processo de investigação interno, abrir um canal de denúncias, fazer tudo para a averiguar.” Em vez disso, comenta, houve encobrimento; nada. Teresa suspira. “Uma pessoa disse-me uma frase que se aplica na perfeição: isto não é o metoo (eu também), é o me neither (eu também não). É o que está a acontecer, e deixa-me muito triste.”