Um dia depois de a Direção Executiva do Serviço Nacional de Saúde (DE-SNS) ter vindo anunciar que o projeto das urgências regionais (ou centralizadas) na área da Ginecologia-Obstetrícia vai iniciar-se na região norte de Lisboa, com os hospitais de Loures e Vila Franca de Xira, já a 16 de março, os médicos do Hospital Beatriz Ângelo (HBA), em Loures, manifestam-se preocupados com “a situação”. "Sobretudo porque não sabemos como vai ser possível prestar serviços adequados a todas as utentes”, explicou ao DN o delegado sindical do Sindicato dos Médicos da Zona Sul (SMZS), João Nunes.De acordo com o que foi anunciado pela DE-SNS, a unidade de Loures terá de assegurar as equipas em escala com 80% dos profissionais e a de Vila Franca apenas com 20%. E a “confirmar-se que é mesmo o que diz a comunicação social, que não haverá reforços das equipas médicas, mas só da equipa de enfermagem, não sabendo nós se o que foi anunciado será também suficiente, a nossa preocupação é: como vai ser possível prestar cuidados adequados a todas as utentes?". João Nunes sustenta ao DN que, "mesmo que houvesse mais profissionais, também não seria possível fazer mais partos, porque para os fazermos precisamos de mais infraestruturas, nomeadamente mais camas para deitar as grávidas e interná-las". E, neste momento, "pura e simplesmente não temos sítio para colocar mais camas para mulheres em trabalho de parto”. O delegado sindical afirma ao DN que “os profissionais foram apanhados de surpresa em relação a este processo e, pelo que sabemos, as chefias também não têm sido informadas”, criticando ainda o facto de não terem sido “envolvidos na discussão de um processo destes”.Segundo o comunicado enviado pela DE-SNS às redações na tarde de terça-feira, Loures terá de assegurar a maioria dos profissionais e Vila Franca de Xira apenas uma parte. O que acontece, tal como foi referido pelo DN na peça publicada na sua edição desta quarta-feira, dia 11, porque o hospital da Unidade Local de Saúde Estuário do Tejo só tem um médico ginecologista obstetra no seu mapa de pessoal, e com mais de 50 anos. Ora, desta forma, "Vila Franca não pode reforçar equipas médicas", disseram-nos. O contributo deste hospital está previsto ser na área de enfermagem, com "um enfermeiro especialista 24h/sete dias por semana, 365 dias, o que dá cerca de cinco enfermeiros por semana".Para os médicos de Loures, este processo de centralização das urgências está a ser feito com “redução de pessoal e não com reforço de pessoal”, porque “Vila Franca de Xira tem trabalhado com médicos tarefeiros que vão ser 'perdidos' na realização de trabalho em urgência. Estes médicos não vêm reforçar a equipa do Beatriz Ângelo. E, portanto, serão os mesmo médicos que já asseguram a urgência de Loures", diz João Nunes. "E quando falo em médicos falo em ginecologistas-obstetras, anestesistas, pediatras e neonatologistas, que já estão a trabalhar no limite das condições que têm e que além disso vão ter de assegurar também todos os partos que vierem de Vila Franca".Portanto, sublinha João Nunes, "em termos efetivos, isto é reduzir o número de profissionais a trabalhar na urgência”, argumentando que aquilo que parece "é que para se evitar a carga num hospital, está-se a sobrecarregar outro, porque não se acautelou a sua capacidade, quer de meios quer de infraestruturas”..Primeira Urgência Centralizada de Obstetrícia avança em Loures, mas só com reforço de enfermeiros. Segundo o delegado do SMZS, “para nós isto é gritante, porque na minha área, anestesia, não se prevê qualquer aumento de profissionais e o serviço não tem capacidade de colocar mais pessoas a fazer serviço de urgência. Mesmo em relação ao reforço de enfermeiros que poderá ser feito por Vila Franca de Xira também não sabemos se serão suficientes para o aumento de utentes que podem procurar as urgências”.Mas há mais questões que se colocam em relação às urgências centralizadas: “Em relação ao acompanhamento que é necessário dar às grávidas de Vila Franca de Xira no período pré e pós parto, quem o vai fazer? Também são os médicos de Loures? Não sabemos. Nada disto nos foi explicado”, destaca.João Nunes recorda que até aqui a urgência de Ginecologia-Obstetrícia do HBA “tem sido das mais estáveis da Grande Lisboa, e com grande esforço, mas já teve necessidade de encerrar algumas vezes. Se tiver o trabalho aumentado, e sem reforços, com vai ser?”, alerta.O DN contactou o gabinete de comunicação da Unidade Local de Saúde Loures-Odivelas (ULSLOD) para saber o que vai fazer em relação ao serviço de urgência de ginecologia-obstetrícia, se vai haver reforço das equipas médicas e de enfermagem com tarefeiros ou não e como vai ser feito o acompanhamento das grávidas no período do pré e pós parto, mas não obteve resposta em tempo útil.Fnam acusa governo de “irresponsável” por avançar com modelo sem estudo de impactoO presidente da Federação Nacional dos Médicos (Fnam), André Gomes, critica ao DN o facto de o Governo e o Ministério da Saúde irem avançar com “um modelo de urgências regionais sem estudo de impacto, com informação contraditória e à revelia dos acordos coletivos de trabalho”, relembrando que a estrutura que agora dirige solicitou no início do ano à Provedoria de Justiça que enviasse o diploma para apreciação constitucional. Para a Fnam, “a forma como estão a impor o modelo das urgências regionais de obstetrícia é irresponsável, discriminatório e ilegal”, destacando que “a decisão de concentrar urgências num contexto em que existem grandes distâncias entre as várias unidades de saúde prejudica os interesses de médicos e utentes, colocando em causa a saúde de proximidade. É uma medida precipitada e lesiva dos direitos das grávidas e das suas famílias, agravando as dificuldades sentidas no Serviço Nacional de Saúde (SNS)”, diz a federação, relembrando que “uma utente de Benavente terá de fazer quase uma hora de caminho para chegar a Loures”.Bastante crítica, a Fnam considera que “o anúncio feito pela Direção Executiva do SNS, nesta terça-feira, revela a descoordenação que impera no governo. Sem qualquer debate público, sem uma audição séria aos sindicatos, percebemos que o governo insiste em respostas que agravam a situação ao invés de a melhorar e resolver”.André Gomes relembra que o que estava previsto inicialmente era este modelo de urgência ter tido início na Península de Setúbal, onde “no último fim de semana houve pessoas a manifestarem-se contra esta decisão”, mas, afinal, “a primeira urgência regional a avançar é a de Loures”, que “arranca sem qualquer projeto-piloto avaliado e sem que se conheça o impacto real nas unidades que perdem a urgência. A garantia de que '80% das escalas' serão asseguradas por uma das equipas é uma justificação administrativa que não tranquiliza os profissionais de saúde, nem as utentes. A centralização não resolve a falta de médicos, apenas a redistribui, desguarnecendo uns hospitais em benefício de outros”.Por tudo isto, a Fnam “exige a suspensão imediata da entrada em funcionamento das urgências regionais” e, em contraponto, “a aposta no reforço da carreira médica, por forma a fixar mais médicos no SNS. Não aceitamos que o SNS se transforme num arquipélago de ilhas de excelência cercadas por desertos de cuidados urgentes”.A ministra Ana Paula Martins lembrou esta quarta-feira que este modelo estará a ser avaliado diariamente. Em atualização .Primeira Urgência Centralizada de Obstetrícia avança em Loures, mas só com reforço de enfermeiros