Nos últimos anos, o encerramento temporário de urgências na área de Ginecologia-Obstetrícia, sobretudo na Grande Lisboa, levaram a Comissão Nacional da Saúde da Mulher, da Criança e do Adolescente, criada em julho de 2024 para pensar a reforma nesta área e liderada pelo médico Caldas Afonso, a propor a criação de um novo modelo de urgências que consiste na centralização de equipas num só serviço, de forma a haver sempre um serviço de porta aberta nalgumas regiões, por exemplo na Margem Sul. E este modelo tornou-se uma das grandes apostas reformistas do Serviço Nacional de Saúde (SNS) anunciadas pelo ministério de Ana Paula Martins e pelo próprio Governo de Luís Montenegro - aliás, foi com este modelo que o Governo respondeu ao repto do então Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, em setembro do ano passado, quando pediu soluções urgentes para resolver a crise nas urgências. Desde essa altura que foi assumido que o modelo teria início nas urgências da Península de Setúbal, que deveriam reunir, pelos menos, as equipas dos hospitais Garcia de Orta, em Almada, e de Nossa Senhora do Rosário, no Barreiro. As equipas do Hospital de Setúbal deveriam manter a atividade na sua urgência para responder às utentes do distrito, nomeadamente às do Litoral Alentejano.Há duas semanas, no Parlamento, numa audição regimental, a ministra voltou a confirmar aos deputados que a primeira a avançar em março neste modelo seria a urgência da Margem Sul, assumindo também que esta ficaria a funcionar em Almada e que a do Barreiro teria de encerrar.Mas, afinal, não. Os que vão avançar com este modelo, são mesmos dois dos hospitais da região Norte de Lisboa, Beatriz Ângelo, em Loures, e Vila Franca de Xira, que integra a Unidade Local de Saúde do Estuário do Tejo.O facto foi assumido pelo diretor executivo na semana passada nas visitas que fez às duas unidades e confirmado ontem em comunicado. “A Urgência Centralizada de âmbito regional de Ginecologia e Obstetrícia de Loures-Odivelas / Estuário do Tejo / Bloco de Partos com apoio perinatal diferenciado entrará em funcionamento a partir de segunda-feira, dia 16 de março de 2026, 24 horas por dia, sete dias por semana, e localiza-se no Hospital Beatriz Ângelo, em Loures.” Mas sobre a urgência da Margem Sul nada é referido, embora ontem a contestação dos autarcas da Península de Setúbal, sobretudo de Alcochete tivesse sido manifestada em reunião com a ministra da Saúde.O coordenador da comissão, Caldas Afonso, reiterou há dias ao DN que “esta é a única solução para esta região, tal como para a Margem de Sul, para podermos prestar melhor cuidados às utentes”.Para o diretor executivo, Álvaro Almeida, “a centralização regional da urgência permite reforçar a qualidade clínica, reduzir a instabilidade operacional - provocada pela carência de profissionais especializados - e assegurar uma maior previsibilidade às utentes. Ao concentrarem-se equipas e meios das duas ULS na UCR_GINOBS_LOET, garantem-se escalas estáveis, bem como uma articulação adequada entre a resposta urgente e os cuidados programados”.No caso de Loures e Vila Franca, o DN sabe que esta urgência vai ser assegurada por equipas médicas e de enfermagem do Hospital de Loures, 80% dos profissionais, já que o Hospital de Vila Franca Xira, que só integra um médico ginecologista-obstetra no seu mapa de pessoal, não pode contribuir com profissionais desta área, mas vai disponibilizar enfermeiros especialistas, um 24 horas/sete dias por semana, 365 dias - mais ao menos cinco enfermeiros por semana.Aliás, e como foi confirmado várias vezes, pela administração da ULS Estuário do Tejo, o encerramento da Urgência de Obstetrícia, que há meses servia apenas de referenciação para o CODU, era precisamente por não ter médicos desta especialidade, nem conseguir contratar devido à pressão na atividade de urgência. A partir daqui, a ULS tem a expectativa de poder reativar o próprio Serviço de Ginecologia Obstetrícia do Hospital de Vila Franca de Xira, com mais médicas para poder manter a atividade programada em consulta e em bloco de partos, o que agora só acontece de forma residual.No seu comunicado a Direção Executiva (DE) assegura que “a maternidade do Hospital de Vila Franca de Xira vai continuar a funcionar. A centralização ocorre apenas ao nível do Serviço de Urgência. Toda a restante atividade se mantém a funcionar, incluindo partos programados e consultas abertas de Ginecologia e Obstetrícia para doença aguda não-urgente”.No Hospital Beatriz Ângelo, a atividade também se mantém “inalterada ao nível da consulta externa e consulta aberta; ecografia obstétrica e diagnóstico pré-natal; internamento de grávidas; cirurgia obstétrica programada; internamento de puérperas (devidamente ajustado às necessidades), e as atividades de Ginecologia”.De acordo com as explicações dadas em comunicado, a DE recorda que este modelo pode reunir urgências com distância entre 60 quilómetros desde que tal permita manter uma urgência a funcionar 24 horas, sete dias por semana, 365 dias ao ano. Diz ainda que “serão realizadas avaliações semestrais a este modelo de funcionamento”, reforçando que “é um passo decisivo na resposta do SNS ao nível das urgências”.O DN questionou a Direção Executiva sobre os motivos que levaram a avançar com este modelo de urgência na zona norte de Lisboa e não na Margem Sul, como tinha sido anunciado desde o início, mas não obteve resposta. O certo é que a contestação quer de autarcas quer de equipas de profissionais das unidades da Margem Sul tem sido forte e frequente: ainda no domingo houve uma manifestação da Comissão de Utentes do Barreiro contra o encerramento desta urgência. Ontem era conhecido que apenas três dos sete médicos que compõem a equipa do Barreiro tinham aceitado fazer urgência em Almada, mas quando esta deverá começar a funcionar ninguém arrisca avançar. O diretor executivo assumiu, na semana passada, durante as suas visitas a Loures e a Vila Franca de Xira, que “o processo está mais atrasado”.