A entrada da escola sede do agrupamento de Marrazes ainda tem a movimentação decorrente dos estragos que as tempestades do final do mês de janeiro trouxeram à zona de Leiria. Com as instalações afetadas pela força do vento e da chuva, alguns contentores foram instalados ao lado da portaria, para dar lugar a salas de aula improvisadas.Os operários vão e vêm a trabalhar neste ponto e noutros reparos, ao mesmo passo em que os alunos e funcionários vêm e vão na sua dinâmica normal, ou quase, de um dia escolar. “A sala dos professores transformou-se em sala de aulas”, explica o diretor, a justificar o motivo pelo qual não atende a reportagem do DN naquele recinto para uma conversa mais calma. Um pequeno contratempo que, na verdade, até permite que o ambiente desta escola seja visto de forma mais genuína.Ao pé da entrada para a biblioteca, onde o diretor Jorge Edgar Brites pede alguns instantes para a nossa entrevista, vemos balões coloridos em formato de letras a escrever “Spain”. Logo abaixo, bandeirolas vermelhas completam a frase com “welcome”. É o dia de receber um grupo de estudantes de Espanha em Erasmus para um convívio e, pelo historial do agrupamento de Marrazes, fazer quem vem de fora sentir-se bem-vindo é a regra e não a exceção..MulticulturalidadeO agrupamento é formado por dez estabelecimentos de ensino e, atualmente, conta com cerca de 2500 alunos. Deste total, 32% são de origem estrangeira, de 37 nacionalidade diferentes. São a maior parte brasileiros, mas também de Angola, Marrocos, Ucrânia, Índia, entre outros. “A nossa principal riqueza é a multiculturalidade deste agrupamento”, afirma o diretor.“É uma grande mais-valia termos num mesmo espaço culturas tão diferentes, religiões diferentes, temos uma população muçulmana também significativa, e temos uma sã convivência. Isso é talvez a maior lição que estes jovens nos dão a nós adultos, que estão todos muito bem uns com os outros e isso faz toda a diferença no bom ambiente que tem este agrupamento”, completa..Escola portuguesa com alunos de 37 nacionalidades cria manual de boas-vindas para imigrantes.‘Kit’ de boas-vindasEstes alunos estrangeiros, aquando da sua chegada ao agrupamento, são recebidos com um manual de acolhimento que traz informações básicas sobre a escola e a vida em Leiria. Ideia da Patrícia Oliveira, a assistente social do agrupamento. “Quando fiquei cá colocada, há cerca de cinco anos, rapidamente percebi que o nosso agrupamento era multicultural”, conta ao DN. “Já existiam manuais muito burocráticos e práticos de informações de instituições, de entidades, mas o objetivo daqui sempre foi fazer algo pedagógico e integrador”, destaca a profissional..Assim, Patrícia liderou o grupo de adultos e alunos que trabalharam na composição deste kit de boas-vindas. Um livreto que conta a história de uma aluna ucraniana que se muda com a família para Portugal e passa a frequentar a escola. O material foi ilustrado por estudantes que estavam, na altura, no 2.º ano. “No fundo o livro conta a história da criança, como é que se está a ambientar, em que sítios é que pode ir dentro da escola, como é o refeitório, como são as salas de aula, o que pode fazer na biblioteca, o próprio caminho de casa até à escola, como é que se diz bom dia, boa tarde ou boa noite, como é que se tira um bilhete do autocarro. Portanto, conta o percurso desta criança até à escola e depois dentro do meio escolar, como é que é a vivência dela”, explica Patrícia.O material foi feito em quatro idiomas diferentes, traduzido voluntariamente pelos professores do agrupamento. Com o sucesso da iniciativa e uma parceria com a Agência Para a Integração, Migrações e Asilo (AIMA), está hoje disponível em nove línguas, além de braile para alunos invisuais. Além disso, dispõe de uma sinalética em cada página com símbolos que tornam o conteúdo acessível para quem tem dificuldades de compreensão textual. “Assim que cheguei aqui, vi que a escola era boa, que tinha pessoas muito boas”, diz a tímida Brenda da Silva, de 12 anos, natural do Rio de Janeiro, no Brasil, e aluna do 6.º ano no agrupamento. Na rotina de imigrante, a partilha de elementos do lugar onde nasceu é recorrente. “Eles sabem da música”, conta. “Além da gente saber as tradições de Portugal, também gosto que eles saibam das tradições do Brasil, acho que eles ficam interessados”, completa Alana Peres, também do 6.º ano, outra brasileirinha a dar o seu contributo para a multiculturalidade desta escola.A diversidade foi, inclusive, o fator que motivou a jovem Thaís Oliveira a procurar o agrupamento de Marrazes para o seu estágio do curso de Serviço Social no Instituto Politécnico de Leiria. Brasileira, vive em Portugal há oito anos. “Eu queria trabalhar com crianças que eu entendesse, que pudesse impactar a vida delas de alguma forma. E elas se identificam comigo. Não só as brasileiras, de todas as nacionalidades”, revela Thaís..O exemplo do agrupamento de Marrazes está a espalhar-se um pouco pelo país. “Eu acho que é exatamente por ter este caráter lúdico, por terem sido os alunos a participar ativamente, por estar traduzido em nove idiomas e, no fundo, por ter sido algo diferente que alguma escola pudesse ter desenvolvido. De facto, neste momento temos muitas escolas a nível nacional a pedirem-nos o livro e já fomos recebidos por três embaixadores”, revela Patrícia Oliveira.“Todo este crescimento deste documento, esta partilha e disseminação é claro que nos fazem sentir bem e dão-nos a indicação de que estamos no caminho certo”, afirma o diretor..Cônsul-geral do Brasil em Lisboa. “A escola é um lugar que precisa receber atenção no combate ao racismo e à xenofobia”.Imigração. O Fundão é também exemplo na formação de funcionários públicos