Na orla da Bacia de Sichuan, no sudoeste da China, estão situados em proximidade dois tesouros da civilização: o Monte Qingcheng e o Sistema Hidráulico de Dujiangyan. Um é reconhecido como um local sagrado de retiro espiritual ligado à religião taoista, o outro é um modelo clássico da engenharia prática da China Antiga. Em 2000, ambos foram inscritos na lista do Património Mundial da UNESCO.Um provérbio muito repetido na China, “procurar o Tao no Monte Qingcheng, prestar respeito às águas em Dujiangyan”, resume bem a dupla experiência que ali se vive: no Monte Qingcheng procura-se a sabedoria sobre o universo e a vida; em Dujiangyan admira-se a solução engenhosa dos antigos para domar as águas.Monte Qingcheng: berço do pensamento taoistaSituado a oeste de Chengdu, o Monte Qingcheng (literalmente “cidade verde”) deve o seu nome ao conjunto de picos verdejantes que o cercam como muralhas. Famoso pela tranquilidade suprema, é celebrado como “a montanha mais serena sob o céu” e considerado o lugar ideal para escapar à azáfama do dia a dia e entrar em comunhão com a natureza.O Monte Qingcheng é, sobretudo, um dos berços da religião taoista. No século II, o mestre Zhang Daoling ali fundou uma das primeiras organizações taoistas. Ao contrário da vertente filosófica do taoismo (daojia), baseada nos ensinamentos de Laozi e Zhuangzi, o taoismo enquanto religião (daojiao) desenvolveu um panteão próprio de divindades, um sistema de regras e rituais, um ideal de prática espiritual que visa a saúde do corpo e da mente, e mesmo o ideal de “alcançar o Tao e tornar-se imortal”..Os templos e santuários do Monte Qingcheng, como a Tianshi Dong (Gruta do Mestre Celestial) e o Palácio Shangqing, foram construídos em plena harmonia com o relevo, encaixando-se na encosta entre florestas e riachos. A sua integração na paisagem ilustra de forma exemplar o princípio central do taoismo, “seguir o curso natural das coisas”, segundo o qual o ser humano deve respeitar as leis da natureza, em vez de lhes opor resistência.Dujiangyan: uma obra hidráulica que funciona há 2250 anosA cerca de 20 quilómetros do Monte Qingcheng encontra-se Dujiangyan, um sistema hidráulico cuja construção teve início em 256 a.C. Não se trata de uma barragem no sentido clássico, mas de um engenhoso sistema de desvio de águas sem barragem, que continua a abastecer a planície de Chengdu. É considerado o mais antigo projeto hidráulico do mundo ainda em funcionamento.No período dos Reinos Combatentes (475-221 a.C.), as cheias do rio Min, afluente do Yangtzé, constituíam uma ameaça constante para a região. O governador da então comarca de Shu, Li Bing, optou por uma solução “suave”: em vez de conter o rio à força, procurou reorientá-lo com inteligência por meio de obras hidráulicas.O sistema apoia-se em três elementos principais que funcionam em conjunto. Em primeiro lugar, o dique Yuzui (“Boca de Peixe”), que reparte naturalmente o caudal do Min em dois braços: o rio interior, destinado à irrigação, e o rio exterior, que recebe a maior parte das águas de cheia. Em segundo lugar, o canal de descarga Feishayan que, tirando partido da força centrífuga numa curva, devolve ao leito exterior o excesso de água e cerca de 75% dos sedimentos - um princípio que a hidrodinâmica moderna confirma. Finalmente, a passagem estreita de Baopingkou (“Boca do Jarro”) regula a quantidade de água que entra na rede de irrigação da planície de Chengdu..Há um provérbio muito repetido na China, “procurar o Tao no Monte Qingcheng, prestar respeito às águas em Dujiangyan”.. O resultado é um sistema de autorregulação que atenua tanto as cheias como as secas através da distribuição sazonal do caudal: em tempo seco, cerca de 60% da água é dirigida para o rio interior, reforçando a irrigação; na estação das chuvas, a proporção inverte-se e apenas cerca de 40% segue para os canais, enquanto o restante escoa pelo rio exterior, conciliando assim irrigação e controlo de cheias.Em apenas seis palavras - “limpar o leito, baixar o dique” -, Li Bing deixou uma máxima de manutenção que recomenda escavar periodicamente os fundos para remover lodos e manter o dique baixo para facilitar o escoamento das águas. Graças a estas regras simples e a uma rotina anual de limpeza, Dujiangyan pôde funcionar de forma ininterrupta durante mais de dois milénios. Foi este sistema que transformou uma região sujeita a cheias e secas alternadas numa verdadeira “terra de abundância”, frequentemente descrita como um lugar onde “as águas obedecem ao homem, e a fome é desconhecida”.Sabedoria oriental em duas maravilhas antigasEmbora muito diferentes na forma, o Monte Qingcheng e Dujiangyan partilham um mesmo núcleo de sabedoria oriental: colaborar com a natureza em vez de a conquistar. O Monte Qingcheng simboliza a busca de harmonia interior por via da aceitação da ordem natural; Dujiangyan, por sua vez, revela como, na prática, é possível orientar as forças naturais para alcançar prosperidade coletiva. Ambos exprimem um princípio central da cultura chinesa: a busca de uma convivência equilibrada entre o ser humano e o mundo natural. .INICIATIVA DO MACAO DAILY NEWS