Madeira Ocean. Para “ver a ilha” é preciso estudá-la: dos voos das freiras à vida no Atlântico profundo
Os 300 cavalos debitados pelos dois motores do semi-rigído da Polícia Marítima dão uma amostra da sua potência assim que a embarcação deixa as águas tranquilas da marina do Porto Santo e se faz ao mar aberto, em direção ao Ilhéu da Cal. A bordo seguem cientistas, operadores de imagem e técnicos especializados em matérias do mar, que por estes dias fazem parte de um conjunto de aproximadamente 200 pessoas que participam numa expedição no âmbito do programa Madeira Ocean. Pertencem a 34 instituições diferentes, que emprestam recursos humanos e know-how para dar corpo ao maior e mais completo levantamento científico realizado até hoje sobre as áreas marinhas da Região Autónoma da Madeira.
Na aproximação ao ilhéu, feita em conjunto com outra embarcação, também repleta de profissionais de diferentes áreas, saltam à vista as dezenas de galerias abertas pelo homem para a extração de cal, processo que só seria interrompido nos anos 70 do século passado. A costa é observada com atenção, à procura de um ponto para desembarque. A ondulação é algo elevada e o grau de preparação de quem está a bordo para fazer o desembarque em segurança não é uniforme – no caso, era necessário saltar do barco em movimento, fora de pé, para uma zona de rocha.
É preciso tomar uma decisão na hora e esta cabe a Paulo Oliveira, coordenador geral do Madeira Ocean e vice-presidente do Instituto das Florestas e Conservação da Natureza (o IFCN, da Madeira): assim, uma equipa acabou por sair ali, para análise de dados na zona intertidal (partes da costa que só ficam à superfície durante a maré baixa), e outra seguiu para uma praia rochosa no Porto Santo, onde o desembarque era mais fácil, para uma ação de monitorização e recolha de lixo marinho. Saber adaptar-se às circunstâncias acaba por ser uma regra de ouro nesta expedição, já que o planeamento, por mais elaborado que seja, tem sempre de ter presente que quem dita verdadeiramente as regras do jogo é a própria natureza, as condições atmosféricas e o estado do mar.
“Na verdade, é disso que gosto. Estar no meio da confusão, a procurar soluções. Repare: esta expedição começou a ser preparada há três meses. E logo aí a discussão foi: quando, como e com quem vamos fazer isto? Que especialistas precisamos ter aqui, que meios é que eles precisam e como é que os vamos providenciar? Certo é que um mês antes da expedição, já tínhamos o todo o calendário definido, com as horas de cada ação, a embarcação que ia fazer o transporte, as pessoas que iam estar a bordo, etc, mesmo sabendo que as condições meteorológicas podiam baralhar tudo isso. O importante era ter este esqueleto montado, para depois podermos ‘brincar’ com ele. É um processo bastante dinâmico”, conta Paulo Oliveira, ao DN, antes de destacar a dimensão desta iniciativa.
“Já levo alguns anos disto. Participei, por exemplo, na expedição nas Ilhas Selvagens, em 2015, que também envolveu muita gente [um trabalho que culminou com o alargamento da Reserva Natural para 2677 kms quadrados, transformando-a na maior área marinha de proteção total do Atlântico Norte e da Europa]. Mas não me lembro de uma expedição tão grande em Portugal. O que marca a diferença é a dispersão geográfica. Estamos a ir a muitos sítios, a todas as áreas de interesse, no arquipélago da Madeira, do Porto Santo e das Ilhas Desertas. E, além de cobrirmos todo o arquipélago, o nosso trabalho incide em várias camadas, desde o céu e o estudo das aves marinhas até aos corais de grande profundidade”.
O Programa Madeira Ocean foi estabelecido a 7 de maio de 2026, data em que foi assinado o Memorando de Entendimento entre o Governo Regional da Madeira (representado pelo IFCN, a quem cabe a supervisão de todo o projeto), a Fundação Oceano Azul, a ARDITI - Agência Regional para o Desenvolvimento da Investigação, Tecnologia e Inovação, e a National Geographic (através do programa Pristine Seas). Tem como objetivo central apoiar a Madeira a proteger de forma efetiva 30% do seu mar até 2030 – incluindo pelo menos 10% em proteção total – dando resposta, com base em dados científicos, a três questões fundamentais enumeradas por Paulo Oliveira: “Estão as nossas áreas marinhas a funcionar? O nível de proteção aplicado a cada uma é o correto? E se quisermos aumentar as áreas marinhas protegidas, onde é que temos potencial para o fazer?”. O programa foi desenhado para quatro anos, com os últimos dois a visarem a implementação de novas medidas de conservação e potenciais propostas de alargamento de reservas e os primeiros dois a servirem para a “aquisição de conhecimento” científico que suporte futuras decisões.
É nesta fase que estamos agora e em que se insere a expedição científica em curso (há uma outra já projetada para 2027, nas Selvagens). Arrancou a 2 de outubro, dividida em cinco etapas (Funchal+Desertas; zona sul da Madeira; crista das Desertas; Porto Santo; zonas norte e oeste da Madeira), e termina a 28 de outubro com a divulgação dos primeiros resultados provisórios dos estudos, que combinam diversas metodologias científicas, desde a utilização de tecnologia robótica não tripulada para monitorizar o mar à superfície e em profundidade, filmando-o e mapeando-o, passando pelo trabalho dos mergulhadores e pela simples observação das espécies a partir de terra.
Outra das frentes científicas é avaliar pressões antropogénicas (microplásticos, metais pesados, contaminação de solos, artes de pesca perdidas) nas zonas protegidas. Ao longe, do semi-rígido da Polícia Marítima, já é possível observar lixo espalhado pela praia, não só pelo volume de alguns objetos, mas, principalmente, por as cores garridas dos plásticos e cordas contrastarem bastante com o negro das pedras que cobrem o chão. Ao contrário do que acontece ao lado, na praia do Zimbralinho, esta pequena baía não tem acesso pedonal, pelo que o lixo que ali chega através das correntes oceânicas pode estar a acumular-se há muitos anos, sem ações de recolha.
Feito o desembarque, surge imediatamente o primeiro sinal de alarme, ao serem detetados plasticrusts (crostas de plástico), uma forma de poluição marinha que ocorre quando detritos plásticos se fundem e ficam incrustados nas rochas que estão em zona intertidal, a que fica submersa na maré alta e exposta na maré baixa. São, entretanto, distribuídos pelos participantes sacos de plástico pretos, de 200 litros cada, para coletar material. Agora, de perto, a realidade poluente ganha novos contornos, na forma de tampas, garrafas e outros pequenos contentores de plástico, cordas e cordéis usados na pesca, latas de conserva, e tantos outros objetos. Em pouco mais de uma hora, foram coletados oito sacos de lixo.
A recolha é apenas o primeiro passo do processo. Ainda na praia é feita a pesagem: 101 kg de lixo, sendo que só uma corda que deu à costa pesava 23 kg. O material segue depois para triagem, sendo distribuído por uma das cerca de 200 categorias de lixo marinho existentes. Alguns destes objetos oferecem pistas que permitem perceber a sua proveniência e é então que se inicia uma espécie de trabalho de detetive por parte dos investigadores do mar.
16 toneladas de lixo e os desafios da Madeira
Logo na praia, Pedro Sepúlveda, biólogo marinho que trabalha na Direção-Geral de Ambiente e Mar da Madeira, sendo também o rosto principal na região do projeto Free-LittterAT (iniciativa europeia que combate o lixo marinho no Espaço Atlântico), segura uns pequenos pedaços de corda e decifra o que já vê neles: “O que temos aqui são fragmentos de cordas de reparação de redes, que sabemos logo à partida não estarem relacionados com frotas ou métodos de pesca regionais. Ou seja, é lixo vindo de outros pontos do globo. Aliás, aquilo que o lixo nos mostra é que na Madeira, ao contrário do que seria expectável, as praias a norte têm mais acumulação de resíduos do que as praias a sul, o que, à primeira vista, até parece um contrassenso, pois 80% da população está concentrada no sul, assim como todos os grandes portos e a maior parte da atividade marítima turística. No entanto, a zona norte acaba por ser a mais impactada por ser aquela que está mais exposta às correntes oceânicas, o que comprova a nossa teoria inicial de que a maior parte do lixo vinha de outro lado e não era gerado localmente”, explica ao DN.
Recolher o lixo é tão importante como estudá-lo, pois é esta abordagem que permite transformar conhecimento empírico em saber científico. À medida que este trabalho ganha volume, aumenta a quantidade de informação pública disponível. E esta tanto pode servir para as classes profissionais que operam no mar corrigirem alguns procedimentos mais nocivos, como auxiliar os decisores políticos a promoverem alterações legislativas que mitiguem o problema, acelerando os processos. Pedro Sepúlveda dá como exemplos, nos últimos anos, a proibição de se comercializar palhinhas e cotonetes de plástico, bem como o fim dos sacos de plástico gratuitos nos supermercados, que eram três dos objetos mais frequentes à deriva no mar. A verdade é que, como chamou a atenção e o DN pôde constatar, nenhum deles foi recolhido naquela manhã.
Desde 2020, foram recolhidas 16 toneladas de resíduos no mar da Madeira, “uma quantidade astronómica, difícil de visualizar até por se tratar, sobretudo, de um material leve como é o plástico, mas que é apenas um arranhar da superfície do que realmente está nos oceanos”. Ainda assim, o biólogo marinho não considera que a Madeira seja uma zona problemática, destacando a qualidade da conservação das áreas já protegidas, embora saliente que o arquipélago enfrenta outros desafios por estar no meio do Atlântico.
Entre eles, o de estar exposto a lixo que vem de zonas onde não é aplicada legislação nacional ou europeia (casos da costa africana e dos Estados Unidos), tornando-se mais difícil aplicar medidas de contenção que produzam resultados rapidamente. E há ainda o risco crescente de darem à costa objetos com bioincrustação de vida (biofouling), principalmente se se tratarem microrganismos e espécies não-indígenas, que se podem tornar invasoras – um problema ainda mais relevante na quase imaculada, e distante, Reserva Natural das Selvagens, se a vigilância não for regular e eficaz.
Uma boa parte do lixo marinho, no entanto, é quase invisível. Tratam-se dos micro e nanoplásticos, que devido ao tamanho reduzido e toxicidade se tornam uma das maiores ameaças à vida marinha, fruto da sua ingestão. Detetar a presença destes pequenos fragmentos também faz parte do trabalho das equipas que recolhem dados na zona intertidal.
Num dos dias em que o DN acompanhou a expedição, assistiu à chegada à marina do Porto Santo da bióloga marinha Manuela Parente, investigadora auxiliar da Universidade dos Açores e perita em ficologia (estudo de algas e flora marinha). Acabou de passar as últimas três horas da manhã numa zona isolada de rocha, que fica exposta apenas durante a maré baixa, na qual a superfície irregular do terreno exigia esforço físico permanente para manter o equilíbrio sem cair à água. A ferramenta base para este trabalho é uma estrutura metálica de 25 por 25 centímetros, subdividida em nove quadrículas, que é colocada em diferentes níveis do litoral costeiro. Depois, primeiro através da observação, é examinada a presença de vida. “O que nós encontramos hoje foi maioritariamente algas. Encontramos também litorinídeos (pequenos caracóis marinhos) e uma abundância muito grande de cracas”, detalha Manuela Parente.
No local, é feita uma primeira contagem de organismo vivos, mas são também guardados registos fotográficos para análise posterior em laboratório. O cruzamento destas informações permite calcular a percentagem de vida naquele ecossistema. E a sua saúde. Comparando com amostras anteriores, os investigadores percebem se houve ou não variações na biodiversidade. Quando se tratam de zonas já sob algum tipo de proteção, os resultados certificam se as medidas tomadas estão a produzir os efeitos desejados ou se é necessário adotar novos métodos. Por outro lado, se forem identificados sinais de vida com relevante interesse científico, o conjunto de dados ajuda a fundamentar propostas para um eventual alargamento ou criação de nova zona protegida. Ora, isto responde precisamente aos três pilares da expedição, que o coordenador Paulo Oliveira enumerou mais acima nesta reportagem: saber se as atuais áreas marinhas protegidas estão a funcionar; se o nível de proteção é o correto; e se há novas zonas com potencial para obter esse estatuto. O trabalho intertidal é, assim, uma das peças que irão completar o gigantesco puzzle de informação científica que resultará do Madeira Ocean.
Democratizar a ciência com tecnologia mais barata
A articulação do trabalho científico e a ligação às diferentes entidades académicas envolvidas (locais, nacionais e internacionais) está a cargo da ARDITI - Agência Regional para o Desenvolvimento da Investigação, Tecnologia e Inovação (que agrega a capacidade do MARE-Madeira e do Observatório Oceânico da Madeira). Cabe-lhe também assegurar recursos humanos especializados e os meios tecnológicos mais avançados, como drones e veículos robóticos operados remotamente (ROV’s) e autónomos (AUV’s), equipados com câmaras de alta definição e sensores para recolha de imagens e medição de dados em zonas profundas ou de difícil acesso para mergulhadores.
João Canning-Clode, investigador principal da agência e um dos quatro líderes da expedição (papel que reparte com o já citado Paulo Oliveira, com Emanuel Gonçalves, da Fundação Oceano Azul, e com Paul Rose, da National Geographic), acredita que o trabalho de todo este conjunto de pessoas, além de contribuir para “uma grande base de dados a nível mundial”, irá “inspirar outras nações, principalmente nações insulares, a tentarem reproduzir o que estamos a fazer aqui”. Isso também passa pelo desenvolvimento de tecnologias de baixo custo, que “democratizam a ciência”, tornando-a menos dispendiosa, logo, mais acessível.
João Canning-Clode dá um exemplo prático: “Debaixo de água não existe internet. Ou seja, a maior parte das comunicações é feita com acústica. Se eu queria, por exemplo, colocar uma GoPro a 50 metros de profundidade, onde os mergulhadores normalmente não vão, isso dependia de um sensor acústico, que custa à volta de 7 a 8 mil euros. Então nós, para combater isso, desenvolvemos um mecanismo que consiste basicamente numa braçadeira plástica em que aplicamos, através de uma resina especial, uma pequena carga explosiva e um temporizador, que acionamos quando entendemos, libertando e posicionando a GoPro onde desejamos. Já o testámos a mais de 200 metros de profundidade e funcionou. Custa-nos 70 euros”. O guião para se montar o sistema, batizado como MARS (Programmable Multipurpose Auto-Release System), foi, entretanto, publicado na revista científica Limnology and Oceanography: Methods, em regime de open source. A invenção made in Madeira pode, agora, ser replicada mundo fora.
Como nadar num aquário
A partilha de conhecimento é, de resto, outra âncora da expedição. E os primeiros dados que resultam desta iniciativa já permitem dizer que a estratégia adotada para as zonas protegidas está a dar resultados positivos, que tanto impactam a saúde e a vitalidade da vida marinha como podem trazer benefícios para atividades económicas ligadas ao mar, caso da pesca.
Quem o diz é Emanuel Gonçalves, administrador e coordenador científico da Fundação Oceano Azul. “Estivemos no Garajau (costa sul da Madeira), que é uma das área marinhas mais antigas, e de facto é possível observar ali um oceano que já não vemos no resto da Europa e no Mediterrâneo, com grandes garoupas, que ali encontram refúgio, um habitat privilegiado, e com isso aumentam a sua dimensão e, ao mesmo tempo, a sua população. E hoje viemos de um mergulho no Porto Santo que foi como mergulhar num aquário. Num ambiente onde vemos os efeitos da proteção, onde vemos todos estes cardumes que se acumulam dentro das áreas marinhas protegidas. A mensagem principal é que quando a proteção marinha é eficaz dá espaço às espécies e cria ambientes para aumentar a biomassa. Assim, vamos ter indivíduos maiores, que se reproduzem exponencialmente mais, o que vai alimentar também as áreas adjacentes, já que os peixes acabam por migrar para zonas exteriores às protegidas, onde se desenvolvem atividades de pesca recreativa e comercial. Portanto, os indicadores científicos, um pouco por todo o mundo, mostram que a proteção resulta e que ali temos não só mais vida marinha, como mais economia a ser gerada a partir dessa vida marinha. Essa é a visão que está também subjacente ao programa Madeira Ocean e a que queremos dar corpo”, frisa ao DN.
Um dos principais públicos alvo da Fundação Oceano Azul, criada em 2015 pela Sociedade Francisco Manuel dos Santos (detentora do grupo de retalho Jerónimo Martins) e a quem compete a gestão do Oceanário de Lisboa até 2045, são as gerações mais jovens.
O histórico veleiro Santa Maria Manuela (SMM), um antigo bacalhoeiro construído em 1937, que hoje pertence à Jerónimo Martins e que foi, entretanto, remodelado para uma aposta no turismo sustentável com treino de mar, é a casa mãe da expedição. É ele a base móvel que transporta materiais e cientistas durante estes dias, em que também pernoitam a bordo. No passado dia 13 esteve ancorado no Porto Santo para um dia aberto à comunidade e, entre outros visitantes, destacaram-se as largas dezenas de alunos que quiserem saber mais sobre a vida a bordo do veleiro, a sua história e sobre os objetivos e entidades envolvidas no Madeira Ocean.
Enquanto comandante do navio, João Ciriaco sintetiza ao DN os desafios que a expedição lhe coloca: “Em primeiro lugar, temos que garantir a segurança de todas as pessoas que estão aqui. E, ao mesmo tempo, garantir que conseguem trabalhar com qualidade. No fundo, o desafio é cumprir as nossas tarefas para termos a certeza que, no final da expedição, também ajudámos todas estas pessoas a realizar as delas”.
Foi também a partir do navio, ao largo do Porto Santo, que na manhã do dia 15 se realizou um programa em direto nos canais da Oceano Azul focado no setor da Educação, em que se inscreveram para assistir cerca de 6000 alunos da rede de escolas da fundação e do Oceanário de Lisboa.
Enquanto se preparam os equipamentos para o direto, a vida a bordo não pára. Do navio partem outras embarcações mais pequenas, em que seguem os mergulhadores da expedição para uma manhã de trabalho centrado no mapeamento do fundo marinho. Pelas 10h00, essas equipas já rumaram para as respetivas tarefas e o ritmo abranda um pouco. Contam-se agora os minutos que restam até ao início do direto. É o próprio Emanuel Gonçalves que assume a condução deste contacto com as escolas, apresentando os objetivos da expedição e introduzindo na conversa outros protagonistas, como o comandante do SMM, João Ciriaco, e alguns dos cientistas que estão a bordo.
As escolas vão comunicando através do chat, de vários pontos do país: Atouguia da Baleia, Lisboa, Faro, Póvoa de Varzim, Santa Cruz, Venda do Pinheiro, Algueirão são dos primeiros a colocar questões. As espécies que têm na Madeira o seu habitat são as que suscitam maior curiosidade. O arquipélago, além de ser corredor para espécies migradoras no Atlântico Norte, é também refúgio de baleias-piloto e tem uma população superior a três dezenas de lobos-marinhos. Um dos episódios que mais prende a atenção dos estudantes é o relato de como, através de uma ventosa, se conseguiu tagar pela primeira vez uma baleia-de-bico-de-Blainville, o que permitirá durante seis meses recolher dados de traking desta espécie que vive preferencialmente em áreas oceânicas profundas.
O direto conta com apoio técnico de uma equipa da National Geographic (NG), que irá, pela tarde, colaborar em mais um live, desta vez para os canais da organização canadiana Exploring by the Seat of Your Pants, a qual está espalhada por escolas de mais de uma centena de países focada nestas ações de contacto direto entre cientistas e alunos. A National Geographic é um dos promotores do Madeira Ocean e terá um papel central na divulgação planetária da expedição. Tem profissionais a acompanhar em permanência o desenrolar dos trabalhos para, no final, ser produzido um documentário de longo formato, através do programa Pristine Seas, criado em 2008 com o objetivo de explorar, documentar e proteger os últimos locais verdadeiramente virgens (pristine) do oceano.
Alinhar cientistas e pescadores
Paul Rose, líder da expedições da NG e um dos quatro coordenadores do Madeira Ocean, destaca o que tem sido desenvolvido na região: “A Madeira está a ser muito inteligente nesta gestão das áreas marinhas, a tomar uma série de decisões acertadas, trabalhando com as comunidades e com os pescadores para as proteger. Quando isso é feito corretamente, a vida começa a crescer imediatamente nessas zonas. Mais áreas protegidas significa mais peixe. E isso significa mais pesca. Que é também mais sustentável, até porque se usa menos combustível pois já se sabe onde estão os peixes, não é preciso andar a persegui-los”.
A eventual criação de novas áreas marinhas protegidas, que possam vir a ser propostas na fase de implementação do programa Madeira Ocean, não se fará por imposição. Esta é, pelo menos, a garantia dada pelos coordenadores da expedição, que destacam o papel que os pescadores têm em qualquer decisão que possa ser tomada. “Estas decisões políticas não devem ser top-down, devem envolver todos, nomeadamente os pescadores. Nós não podemos fechar o mar só porque sim”, defende João Canning-Clode.
O investigador principal da ARDITI destaca que essa articulação já se nota na expedição, que conta com o atuneiro Ponta Calhau como uma das principais embarcações de apoio aos cientistas. O barco, diz, simboliza essa aliança entre o conhecimento científico e os saberes empíricos da frota: “Eles vão para o mar todos os dias e sabem onde há mais peixe ou corais. Há aqui uma sinergia quase perfeita. Nós saímos da bolha científica e eles conseguem ver, em direto através das nossas câmaras, as espécies que pescam.”
Esta colaboração também prevê um levantamento mais detalhado sobre a pesca na região, frisa, por sua vez, Paulo Oliveira, coordenador principal do Madeira Ocean. “A aquisição de conhecimento passa por saber como é a pesca na Madeira: onde, o quê e quando se pesca, e qual o impacto socioeconómico. Queremos proteger com toda a vontade, mas salvaguardando sempre a pesca artesanal efetuada pelas comunidades da Madeira, como a do peixe-espada preto ou a do atum, que é toda ela sustentável e feita à linha”, sublinha.
No Conto da Ilha Desconhecida, José Saramago escreveu: “É preciso sair da ilha para ver a ilha”. No caso desta expedição, e da informação que dela resultará, numa vasta radiografia a todo o ecossistema do arquipélago, a frase ganha nova luz – para "ver a ilha" é preciso estudá-la: do céu onde voam freiras-da-Madeira e garajaus à vida nos corais negros que residem no oceano mais profundo.
O jornalista viajou a convite da Fundação Oceano Azul

