José Magalhães "A percentagem de pessoas que encontraram no trabalho em casa a sua realização pessoal aumentou grandemente"

Para o doutor em Psicologia e coordenador da Comissão de Segurança e Saúde no Trabalho do Instituto Nacional de Estatística existe uma relação entre segurança e felicidade e, olhando para os mais recentes rankings internacionais, os portugueses não estão nada mal.

Portugal foi anunciado como o quarto país mais seguro do mundo e o segundo mais seguro da União Europeia. O Relatório Anual da Segurança Interna mostra também que a criminalidade no nosso país em 2020 foi a mais baixa desde 2003. Portugal está também na posição 58 do ranking dos países mais felizes do mundo. Podemos estabelecer uma relação entre segurança e felicidade?
Relativamente ao ranking em que Portugal aparece em quarto lugar nos países mais pacíficos tem um pouco que ver com a questão das evidências. O principal critério - para além dos acidentes rodoviários, que aparecem com alguma preocupação internacional - tem que ver com os crimes, tem que ver com o terrorismo e tem que ver com os homicídios. O que quer dizer que em Portugal as questões relacionadas com estas áreas não têm grande evidência. Não há muita gente a ler o Relatório da Segurança Interna para perceber ao pormenor o nível de crimes que existe e, portanto, esta perceção que as pessoas têm em termos globais coincide. Não temos evidências de terrorismo, os suicídios, os homicídios e a criminalidade também não têm muita evidência e em termos factuais ela desceu claramente. Ora, a felicidade é um ato emocional, tem muito que ver com algumas evidências que possam desencadear as nossas emoções, concretamente as positivas, para a vida. O que quer dizer que felicidade também é uma área que está diretamente relacionada com a segurança, seja ela qual for. A segurança interna, a segurança nas organizações, a segurança em todos os domínios. O facto de estarmos em quarto lugar nos países mais seguros e no lugar 58 e não, por exemplo, no 12 ou 13 dos mais felizes tem que ver com outras nuances que podem perturbar de alguma forma o sentido de felicidade - por exemplo, a situação económica, as questões das contratualidades, as questões de alguma dificuldade da relação entre quem estuda e encontrar um lugar quando vem procurar a sua atividade profissional. A felicidade é o nosso sentido de vida e não há nenhum ser humano que não queira ser feliz. O problema é que em termos pessoais e em termos organizacionais nós estamos envolvidos num contexto que pode eventualmente aproximar ou afastar a felicidade que procuramos.

Somos o país que é notícia porque o Presidente da República ajuda a salvar duas turistas no mar... Segurança e descontração que, se calhar, acabam por passar uma imagem de felicidade lá para fora.
De facto, em termos de figuras nacionais, seja o Presidente da República seja o próprio primeiro-ministro, temos uma forma de dialogar com as pessoas, em termos formais e informais, que dá alguma abertura. Aquilo que referiu relativamente ao Presidente da República acho que é extraordinário, ele de facto demonstra que pelo facto de ter um cargo político não pode deixar de ser humano, quando era possível com os abraços, os beijos e as selfies, e agora na sua própria atitude, no seu sentido de abertura para ouvir as pessoas, para falar nas pessoas. Acho que é muito importante que essa imagem transpareça também para o exterior. E há a nossa segurança, os dados da criminalidade baixaram todos. Mas eu não sei se a população portuguesa tem ideia disso, eu julgo que não. O ser humano vive em comparação com os outros e quando comparamos o que acontece em Portugal nas áreas que nos afetam, a criminalidade que mais afeta é aquela que é exercida sobre as pessoas, porque podemos achar que um dia podemos ser nós, mesmo nessa não temos grandes evidências. Embora nos últimos anos, através das redes sociais, tenham aparecido vídeos que mostram forças policiais a fazer algum exercício indevido da sua autoridade, comparado com situações que vemos no exterior, até em países como a Noruega e a Suécia, que eram países perfeitamente seguros, não encontramos bombas, não encontramos terrorismo perfeitamente assumido.

E a relação entre a população e a polícia, no geral, não é má.
A polícia durante a pandemia acabou, na minha opinião, por aumentar a sua notoriedade e visibilidade na segurança das pessoas, porque apareceu de uma forma pedagógica. A polícia durante os anos 2020 e 2021 aparece muito mais como protetora da saúde das pessoas. A sua função pedagógica acabou por aumentar alguma da sua credibilidade que já existia como força de segurança um pouco diferente daquela que encontramos em países, na própria Europa, onde efetivamente as questões da violência aparecem com muita evidência.

Acha que se tem falado de mais nos efeitos da pandemia na saúde e de menos na questão dos efeitos da pandemia na saúde mental?
Acho que não se fala de mais da saúde com o tempo da covid, acho que se recuperou aquilo que se falava de menos da saúde antes da covid. Embora aquilo que se fala presentemente tenha muito mais que ver com as consequências e os números que a covid está a dar às pessoas e, de alguma forma, a saúde mental não apareceu da mesma forma. Ou seja, não temos um fórum em termos da comunicação - tirando algumas boas exceções que têm aparecido - sobre os problemas da saúde mental decorrentes do período pandémico. Em termos da sociedade em geral, participativa, o que nós tínhamos era: analisávamos os problemas nas organizações dentro das organizações, dentro da sociedade. E o que é que acontecia? A casa, a família, era um coping, era uma estratégia de coping. Aliás, todos os estudos dizem que uma das maiores valências para nós atenuarmos as situações de stress e perturbações psíquicas, quer do local de trabalho quer do movimento societário, é quando chegamos a casa. O que é que aconteceu agora? É que a família deixou de ser uma estratégia de coping. Porquê? Porque a maior parte das pessoas está permanentemente em família. Só que o estar permanentemente em família não veio beneficiar a conciliação da vida profissional, pessoal e familiar, antes pelo contrário. Porque a maior parte das pessoas que estão em casa são famílias alargadas, cada um transformou a sua casa num posto de trabalho, quando tinham condições para o fazer, e quando não tinham transformavam casas de banho, marquises, cozinhas e salas de estar em ambientes de escritório. O que é que isto veio dizer? Aquilo que era um coping, aquilo que era uma situação positiva, que era estarmos em casa com a família e atenuarmos as nossas pressões do dia-a-dia, acabou por não acontecer.

O que é que isso representa para o nosso futuro em termos de saúde mental?
Quando eventualmente voltarmos a um normal, que não é 2019, mas é podermos andar na rua, podermos ir com alguma segurança para o nosso local de trabalho, nós vamos ter pessoas que vêm de casa com níveis de ansiedade e de medo que antigamente só tinham do emprego para casa, da sociedade para casa, portanto, houve aqui uma inversão. Relativamente à questão que colocou inicialmente, acho que se tem falado de menos na saúde mental neste contexto. É preciso encararmos a saúde mental de uma forma diferente, não em relação aos conceitos básicos, mas na forma de gerir. Eu dou aulas de Psicologia desde 1996 e nunca aprendi em nenhum manual, em termos de psicologia, que os abraços, a proximidade, as dinâmicas de grupo ou a máscara fossem alguma coisa que fizesse parte da pedagogia de ensino. Portanto, estamos todos a aprender. Os próprios psicólogos, e os próprios profissionais da saúde, têm de reaprender a sua forma de tratar a saúde mental com nuances que não tínhamos. E, portanto, este de menos na saúde mental, na minha opinião, tem que ver com a projeção de como é que devemos gerir, como é que devemos prevenir a saúde mental face a uma nova nomenclatura que nos envolve e para a qual não estávamos preparados, profissionais e não profissionais, na área da saúde.

"As pessoas estão em casa, conseguem fazer o seu trabalho, gerir a sua vida e um grande número de pessoas sentem que encontraram na função de teletrabalho o seu sentido de vida profissional."

Também é coordenador da Comissão de Segurança e Saúde no Trabalho do INE. Juntando esta experiência profissional ao psicólogo como avalia o impacto que teve nos portugueses o facto de muitos terem passado a um regime de teletrabalho?
Vou partilhar consigo a minha experiência mais direta relativamente ao contacto com os colegas no INE. A esmagadora maioria dos colegas, quando ficaram em casa, passado um mês estavam altamente preocupados, achavam que era uma situação cansativa, que não havia possibilidades de movimentação, que se sentiam menos bem. Entretanto, foram criadas condições para se estar em casa. As organizações, neste caso do Estado, o Instituto Nacional de Estatística, não estavam preparadas para ter 600 pessoas em casa. À medida que o tempo foi passando, foram criadas condições. E hoje a percentagem de pessoas que encontraram no trabalho em casa a sua realização pessoal aumentou grandemente. As pessoas estão em casa, conseguem fazer o seu trabalho, conseguem gerir a sua vida e um grande número de pessoas sentem que encontraram na função de teletrabalho o seu sentido de vida profissional. Conseguem estar mais concentradas, mais livres, porque conseguem gerir o seu tempo, na maior parte dos casos trabalham até mais horas sem darem por isso.

O que é que os patrões podem fazer para que as pessoas se sintam seguras e até felizes para regressarem ao trabalho?
É evidente que o teletrabalho não é adaptado para toda a gente, existem áreas onde não é possível. Agora, o que o empregador tem de fazer, na minha opinião, é analisar quais são os postos de trabalho que tem no seu quadro de empresa, seja pública ou privada, que são passíveis de ser feitos em teletrabalho. Depois tem de fazer uma avaliação sobre quem são as pessoas que têm perfis psicológicos funcionais para estar na função do teletrabalho, porque nem toda a gente responde bem ao teletrabalho. Há pessoas que estão em teletrabalho mas que mostram permanentemente uma necessidade de interação, de estar em termos presenciais no local de trabalho, há pessoas que a partir de uma determinada altura solicitaram autorização para ir para o local de trabalho, não conseguiam ter concentração em casa. Se a decisão for fazer regressar toda a gente só porque sim quer dizer que não aprendemos rigorosamente nada com o que estamos a fazer agora. O teletrabalho não é só importante agora porque houve pandemia.

Qual é então a sua mensagem para os empregadores?
É que existe um grupo alargado de pessoas que estão há demasiado tempo em casa e o ser humano é um ser de hábitos e houve pessoas que se adaptaram às rotinas de casa. Portanto, uma decisão para regressar ao trabalho, se for extemporânea, se for apenas uma decisão métrica, no sentido "a partir de agora, estamos todos bem, volta toda a gente", vai causar problemas de saúde mental graves, agudizados, não tenho dúvidas sobre isso. E se quisermos voltar ao tema inicial teremos pessoas menos felizes.

Além de existirem muitos trabalhadores que preferem estar no local de trabalho, também existem muitos empregadores que querem os funcionários por perto, pois acham que em casa não trabalham tanto...
A liderança remota tem de se aprender, as reuniões em situação remota têm de se aprender e, sobretudo, as lideranças têm obrigatoriamente de mudar. Não só em termos da administração pública, também em termos dos privados, as lideranças têm obrigatoriamente de mudar. Continuamos com lideranças muito voltadas para quem é líder e quem é chefe não poder assumir um erro, não poder pedir desculpas, ter de saber tudo, não poder mostrar hesitações. A liderança do futuro é uma liderança participativa e a liderança, se quiser funcionar em termos remotos, mais participativa tem de ser. E, claramente, as lideranças nas organizações públicas ou privadas são de facto o fio condutor para podermos ter trabalhadores felizes, organizações felizes e trabalhos produtivos.

Os problemas de saúde mental vão prolongar-se para lá da pandemia. Em Portugal, a questão de ir ao psicólogo ou ao psiquiatra tem várias facetas: uma é porque a maioria dos portugueses acham que é só para os "maluquinhos", outra é a questão de ser dispendioso, não existem muitos psicólogos no Serviço Nacional de Saúde, nas escolas existem sempre queixas da falta de psicólogos. Como é que acha que neste pós-pandemia se pode normalizar o apoio psicológico?
Essa é uma questão para a qual eu gostaria um dia de ter um poder de decisão para tornar as coisas mais céleres. Efetivamente, em termos do Serviço Nacional de Saúde a procura de um psicólogo ou psiquiatra é preocupante, porque se eu marcar uma consulta para um psicólogo no centro de saúde, na melhor das hipóteses espero dois ou três meses, para não dizer que espero até ao ano que vem. E estou a falar-lhe em exemplos concretos. Se tiver de recorrer ao privado, embora haja preços diversificados, não é fácil. Um preço mais fácil que eu conheço, que um amigo meu pratica, são 30 euros por consulta. Se fizermos a conta a que qualquer problema do foro psicológico implica pelo menos uma ou duas sessões por semana inicialmente, estamos a falar em 60 euros por semana. O Serviço Nacional de Saúde devia criar uma área de apoio em termos de custos e em termos de facilidade. Repare, se eu me sinto menos bem hoje, quero uma consulta hoje, se eu me sinto menos bem hoje e vou a correr ao SNS, tenho uma consulta daqui a um mês. A não ser que vá para as urgências, e o Hospital de Santa Maria tem uma área de urgências psiquiátricas, mas eu posso considerar que não é uma urgência psiquiátrica. Posso necessitar de uma situação natural, de um acompanhamento natural. E, portanto, acho que o Serviço Nacional de Saúde devia ter uma construção diferente.

ana.meireles@vdigital.pt

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