José Ornelas. Não é católico quem defende discurso de ódio ou exclusão
ANTÓNIO COTRIM/LUSA

José Ornelas. Não é católico quem defende discurso de ódio ou exclusão

O presidente da Conferência Episcopal Portuguesa critica também os que se dizem católicos e são contra o aborto ou eutanásia, mas depois nada fazem para melhorar a vida das famílias e promover a inclusão social.
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O presidente da Conferência Episcopal Portuguesa (CEP) defende que deveria existir um novo tribunal de Nuremberga para os políticos que invocam valores cristãos para defenderem discursos de ódio e exclusão de minorias ou outras religiões.

Em entrevista à Lusa, no fim do seu segundo mandato à frente da CEP, que irá eleger na próxima semana o seu sucessor, José Ornelas considerou que “dizer que em nome de Deus, que se vai fazer uma luta de perseguição e de exclusão” está errado, propondo um discurso de agregação de quem é diferente numa sociedade democrática.

“Eu não concordo contigo, mas concordo que tu tenhas o direito de exprimir que não concordas comigo”, resumiu o bispo de Leiria-Fátima, que contestou o uso da religião para promover guerras ou perseguir outras pessoas.

“Radicalmente isso não é ser católico, eu não posso usar a Igreja para fazer um discurso de ódio, um discurso da exclusão, um discurso de monolitismo de que eu é que tenho razão e todos os outros estão errados”, disse, propondo um “caminho de agregação e caminho comum”.

Ornelas recordou que “Jesus atuou fora da caixa dentro da religiosidade do tempo” e “qualquer que seja um discurso que, em nome de Deus, faça discriminação de pessoas” está “errado”.

Muitos políticos que se dizem católicos depois promovem discursos de ódio e “completas aberrações sobre a racionalidade da fé”.

“A Igreja foi perseguida e continua a ser perseguida em várias partes do mundo precisamente por isso, por ser um território que apela aos valores da humanidade, aos valores fundamentais” e hoje ouve-se “um discurso de responsáveis políticos que deveriam estar nas barras do Tribunal de Nuremberga”, porque o que “propõem está completamente fora daquilo que é a razão, a racionalidade do ser humano e da fé” cristã.

“Temos de colaborar na construção de um mundo aceitável para todos e para isso a justiça e o direito são fundamentais” e a “corrupção política, por detrás, começa por ser uma corrupção económica”, acusou José Ornelas, considerando que “não é por acaso que estas guerras acontecem nos países que têm petróleo”.

“Deus é muito paciente connosco, mas isto não é propriamente o caminho do Evangelho”, acrescentou.

Critica quem é “contra o aborto e contra os vivos”

José Ornelas criticou também os que se dizem católicos e são contra o aborto ou eutanásia, mas depois nada fazem para melhorar a vida das famílias e promover a inclusão social.

Ornelas lamentou o discurso de muitos crentes, que usam a fé para promover a exclusão e a discriminação.

Sobre a Interrupção Voluntária da Gravidez, Ornelas defende o primado da vida humana, mas rejeita o discurso de quem é “contra o aborto e contra os vivos”.

“Uma pessoa que diz que é contra o aborto, mas que depois, aos vivos, deixa-os na miséria” ou “aceita que se bombardeiem os hospitais onde estão as mamãs com os bebés nas incubadoras” isso “não é um cristão”, afirmou o bispo de Leiria-Fátima, recordando a coerência da Igreja nesta matéria.

“A Igreja tem sido muito clara: eu não quero ver ninguém ir para a cadeia, muito menos uma mamã que esteja com dificuldades e que já sofre o que sofre” e “gostaria era que tivesse oportunidades para poder ter o seu filho e cuidar dele como deve ser”, disse.

Por isso, devem ser dadas “condições às famílias para ter os seus filhos” e não cabe à Igreja julgar as “difíceis decisões pessoais” de muitas mulheres.

Sobre a eutanásia, os que optam por essa solução “têm toda a minha atenção e solidariedade”, bem como o “amor de Deus”.

“Não quero ninguém na cadeia, mas também não aceito que a solução também seja simplesmente despachar o problema pela via menor” ou “mais fácil”, em vez de investir nos cuidados paliativos, explicou José Ornelas.

Espera visita papal pelos 110 anos das aparições

O presidente da Conferência Episcopal Portuguesa afirmou esperar a visita de Leão XIV a Fátima em 2027, por ocasião dos 110 anos das aparições marianas na Cova da Iria.

“Espero que sim. Aliás, isso já foi um convite que lhe foi feito mais do que uma vez por mim e por outras pessoas, também membros da Conferência Episcopal”, afirmou, que também é o bispo diocesano de Leiria-Fátima, onde está o santuário mariano.

“Ele sabe, já deu um sinal de que quer vir também a Portugal e fizemos também já por escrito esse convite”, que foi levado “de um modo oficial”, assinado por todos os bispos portugueses.

“Acho que ele vai ser sensível, mas não tenho mais [informação] do que isso”, disse, esperando que “ele possa por na agenda” para 2027.

A última visita de um Papa a Portugal foi em 2023, quando se realizou a Jornada Mundial da Juventude e, na ocasião, Francisco visitou o santuário de Fátima, onde já havia estado nos 100 anos das aparições, de 1917.

Sobre Leão XIV, que assumiu o cargo em 2025, José Ornelas mostrou-se confiante de que irá concluir a discussão interna promovida pelo seu antecessor e promover uma Igreja mais global e menos europeia.

“Acho que vai ser finalmente cumprido” o Concílio Vaticano II, admitiu José Ornelas, numa referência ao encontro magno da Igreja, em meados do século XX.

“Eu vivi ainda o tempo do latim”, como língua das celebrações, e agora “assisti ao surgimento de uma Igreja Nova”, mas “há algumas conclusões que só agora estão a chegar à nossa Europa”, disse o bispo português, missionário dehoniano que olha para outros continentes como “exemplo” de novas práticas de fé católica.

 Debate interno sobre mudanças na Igreja tem de levar a decisões

Ornelas defende que o debate interno sobre as alterações na Igreja terá de terminar com decisões do Papa, sem colocar em causa a capacidade da instituição agregar os fiéis.

“Têm de haver decisões, claro”, afirmou.

O sínodo, um processo de auscultação das bases sobre temas fraturantes como a ordenação de mulheres, o celibato dos padres ou o lugar dos divorciados e dos gays, foi iniciado por Francisco e caberá agora a Leão XIV tomar as decisões.

No final, será necessário definir o que deve ser aceite como prática religiosa, sem desvirtuar os valores católicos, procurando distinguir “o essencial” do resto, defendeu Ornelas.

“A diversidade não é inimiga da unidade” e “a Igreja não é um albergue onde cabe tudo, mas onde todos, todos, todos são convidados e onde participam à medida do seu caminho”, disse José Ornelas, numa referência à expressão “todos, todos, todos”, utilizada por Francisco em Lisboa.

Em todo o mundo, há “modos muito diferentes” de viver a fé e “o Evangelho tem de ser traduzido em cada uma das culturas”.

E deu o exemplo do celibato dos sacerdotes: a “ordenação de homens casados é mais fácil de resolver e de perceber, até porque nós, dentro da mesma Igreja Católica, temos ritos diferentes e igrejas de tipo diferente”, algumas das quais com essa prática.

Durante o debate sinodal em Roma, Ornelas foi abordado por um bispo ucraniano que lhes disse que os padres casados “são um grande serviço à Igreja” no seu país, que tem uma grande comunidade católica de rito oriental e em que se permite o casamento de sacerdotes.

“Dentro da mesma igreja temos disciplinas diferentes e temos também ritos diferentes”, resumiu Ornelas, recordando que “não está escrito em nenhum Evangelho que os padres tenham de ser solteiros e Jesus tinha homens casados e solteiros na sua companhia”.

Sobre a ordenação de mulheres, o presidente da CEP admite que o debate está mais atrasado, mas a criação do diaconado feminino (uma primeira ordenação sacerdotal como diácono, que tem menos poderes que os padres) é uma “forma de começar a perceber” o fenómeno e “vem ajudar a Igreja a fazer caminho” na reflexão interna.

Nestas matérias como outras, existe “um debate que está em causa e não se pode adiar eternamente” a decisão, “mas também não se pode tomar apressadamente”.

Nos últimos dois mandatos à frente da CEP, que iniciou como bispo de Setúbal antes de ter transitado para Leiria-Fátima, Ornelas enfrentou a crise de abusos sexuais na Igreja ou a pandemia e recebeu o Papa na Jornada Mundial da Juventude (JMJ), em Lisboa.

A par disso, viveu “crises económicas e sociais que a economia provocou”, primeiro em Setúbal e depois em Leiria-Fátima com a violência do comboio de tempestades que assolou a diocese, em janeiro deste ano.

Mas olhando para o passado, Ornelas destaca a responsabilidade de ter liderado a Igreja num tempo em que o Papa Francisco iniciou o processo de auscultação das bases.

“Foi uma abertura na Igreja a chegada do Papa Francisco” e “algo de novo começou na Igreja, um vento novo começou a soprar”.

Estes seis anos constituíram experiências “novas e interessantes” e “não foi um tempo para se dormir na formatura”, porque a sociedade exigia novas respostas da Igreja.

Depois da JMJ, a Igreja sentiu um “retorno de um tipo diferente” da prática religiosa, particularmente entre os jovens portugueses.

“Não quer dizer imediatamente o retorno a ir à missa”, mas “há movimentos muito interessantes que surgiram” e verifica-se o aumento do batismo de adultos, em particular de jovens.

Em “momentos decisivos de mudança de cultura”, como os que se vivem hoje, em “tempos radicais de mudança, em termos ideológicos e em termos tecnológicos, que criam instabilidade”, o regresso da fé torna-se mais natural, salientou o bispo, considerando que a Igreja terá de se adaptar a esta nova procura de fiéis, mais centrados na espiritualidade e menos nos ritos.

“Os caminhos novos vão surgindo” e a resposta “vai ser certamente eclética” e já não centrada na visão europeia, salientou.

Dantes, era a “Europa que marcava o ritmo da fé” e hoje, com a chegada de Francisco, surgiu “um tipo diferente de Igreja”, com quadros que não “dão tanta atenção aos autores europeus” que construíram a teologia cristã ao longo dos séculos.

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