José Ornelas olha para Fátima como um lugar onde chegam pessoas “que não caem do céu”. Transportam as inquietações da vida concreta: a guerra, a instabilidade, a solidão, a doença, a ansiedade ou a falta de sentido. Em entrevista a propósito do 13 de maio, o bispo de Leiria-Fátima fala do Santuário como “casa da mãe”, um espaço de acolhimento, silêncio e esperança, onde peregrinos, turistas religiosos, jovens, famílias e estrangeiros procuram mais do que uma celebração: procuram um ponto de apoio.O prelado confirma que o convite a Leão XIV para visitar Fátima “está feito”, também a nível político, e revela que o próprio lhe manifestou vontade de visitar o santuário. Admite que 2027, ano dos 110 anos das aparições e dos dez anos da canonização de Francisco e Jacinta, “poderia ser uma ocasião”. Na entrevista, José Ornelas fala ainda do crescimento do número peregrinos, da internacionalização de Fátima, do turismo religioso, da articulação com autoridades e operadores locais, da herança de Francisco e do papel social do santuário, que diz dever continuar a cuidar “dos mais pequenos” e dos que mais sofrem.E, falando de uma “casa da mãe” e de uma Igreja chamada a cuidar, tornou-se impossível escapar a um tema que não quer comentar - as críticas dirigidas aos bispos pelo tratamento dado às vítimas de abusos sexuais. José Ornelas respondeu que “cada um pode fazer e criticar o que entender”, admitiu que “pode haver interpretações melhores ou piores”, mas sublinhou que “o abuso na Igreja ou fora dela, o abuso de crianças, o abuso sexual de crianças, é sempre um horror”. E concluiu: “É nesse sentido que Fátima me inspira e vai continuar a inspirar.” Que mensagem quer que fique deste 13 de maio, num tempo marcado por guerras, instabilidade social e tantas pessoas em busca de esperança?A maior mensagem não vem de cima, vem da conjuntura de que fala e, sobretudo, das pessoas que se confrontam com essa conjuntura, conjugada com a sua própria situação de vida. Não só do ponto de vista económico, também do ponto de vista social, da estabilidade emocional e da esperança. As pessoas que vêm a Fátima não são pessoas que caem do céu. São pessoas que vivem nesta terra, vivem aquelas situações. Saem das suas casas e vêm à procura de um sentido, direção, esperança. Antes de mais, é essa busca, essa sede de vida, que as traz a Fátima. A pessoa que se põe a caminho, que sai do dia- a- dia para encontrar um outro ponto de apoio. Chegam de muito longe. Encontrei esse povo em muitos lugares, que podem não se chamar Fátima, mas significam um rosto materno, segurança, uma perspetiva diferente de relacionamento e, também, de ver o futuro.Fátima continua a ser sobretudo um lugar de oração pela paz? Ou sente que hoje os peregrinos chegam também com outras feridas? Frei Bento Domingues chama-lhe “um porto de esperança”.Falando com peregrinos percebe-se que vêm à procura de algo de novo. Tirar um tempo para pôr a sua vida em ordem, para dar algum rumo, para encontrar sentido. Não é simplesmente uma questão de “estou doente, fiz uma promessa, tenho de cumprir”. Há muitos que sim, que vêm por isso, outros que vêm porque estão muito preocupados com outra pessoa, mas há muitos outros que procuram Fátima porque não encontram sentido na vida. Há ainda os que vêm simplesmente por curiosidade, por turismo. Mas é um turista que chega à procura de algo, como outros procuram a floresta ou o mar para se encontrarem. O papa Francisco usou uma imagem que me marcou muito: “aqui é a casa da mãe”, disse. Quando as pessoas estão em dificuldade de encontrar sentido não é por acaso que se colocam tantas vezes em posição fetal. Estão em busca da origem - a casa da mãe.Como é que Fátima fala hoje para as gerações mais novas?Na semana passada estava num ponto de concentração para o Caminho de Santiago. É importante ver como, de ano para ano, vão crescendo os peregrinos. Gente já madura, mas também gente jovem. Há cada vez mais jovens a visitar Fátima e muitos até estrangeiros. Vêm normalmente em grupo e para festejar. No final, encontram uma dimensão daquilo que é viver em conjunto, à sombra de um lar, de uma luz. Vêm à procura de qualquer coisa que lhes fale não simplesmente à inteligência e aos números, mas ao coração. E partilham isso. Tem sido falada a possibilidade de uma visita do papa Leão XIV a Fátima nos próximos anos. Que contactos existem neste momento? O convite já foi formalizado?O convite está feito. Da minha parte, da parte de outros, e também a nível do diálogo político.Pelo Governo e pela Presidência da República?Sim. Já escrevi e falei com o papa Leão XIV, que me respondeu: “Tenho vontade de ir.” Está, portanto, na agenda do papa. Ele tem vontade de vir e vai certamente vir. Quando? Isso depende.Há alguma data que faça mais sentido: 2027, os 110 anos das aparições, ou outra ocasião ligada ao calendário da Igreja?Talvez em 2027. Serão os 110 anos das aparições e os dez anos da canonização dos pastorinhos Francisco e Jacinta. Portanto, poderia ser uma ocasião. Mas Fátima é sempre o lugar de referência, quer seja por essa razão ou por outra. Ainda mais neste momento conturbado da situação mundial - o tema da paz faz parte integrante da mensagem de Fátima. A paz, a fraternidade.Que temas gostaria que o papa trouxesse a Fátima? A paz, a juventude, a sinodalidade, migrações, abusos sexuais na Igreja, a renovação da Igreja? O que é que deveria trazer?Sendo a casa da mãe, nela cabem todos os problemas da humanidade. Fátima tem origem em 1917, na Primeira Guerra Mundial. “Rezem pela paz”, pediu Nossa Senhora. A consagração ao Coração de Maria, precisamente como um apelo à paz. Porque é uma mãe universal. Não é mãe só dos portugueses. Cuida de quem precisa.Vamos falar de alguns números. O santuário registou 6,2 milhões de peregrinos em 2024. Baixou um bocadinho, mas estabilizou depois do efeito extraordinário que foram as Jornadas Mundiais da Juventude e a visita papal de 2023, com 6,8 milhões. Em 2025 recuperou para 6,5 milhões. Que expectativas tem para 2026? Os números estão a crescer, a estabilizar, a mudar de perfil?Os números têm aumentado e, portanto, a expectativa para este ano é de continuação de um aumento de peregrinos. Mas também depende das condições internacionais. Fátima não está isenta daquilo que foi uma pandemia, da dificuldade em viajar e de estar junto. E, nos anos em que aumenta o custo de vida, como é evidente, nota-se. O aumento dos transportes, mesmo a nível nacional, sabendo que muitos chegam em carro individual, conta.Tem a informação de quais são os países de onde chegam mais peregrinos?Na Europa: Espanha, Polónia e Itália. Mas também muitos da Ásia, sobretudo da Indonésia, Vietname e Filipinas. E das Américas: Estados Unidos, Brasil e México. os quatro primeiros da lista são Espanha, Itália, Estados Unidos e Indonésia.Fátima é um santuário, mas é também um dos grandes motores do turismo religioso em Portugal. De que forma a Igreja e os bispos equilibram a fé, o acolhimento, o comércio e o turismo?Nós fazemos a nossa missão. E essa missão é a mensagem de Fátima; é ela que leva as pessoas ao santuário. Agora, à volta disto, um peregrino tem necessidades normais, como em qualquer lado. Isso leva à criação de vida económica e cultural, cada vez mais cultural, diga-se, e recreativa. Tantas empresas que realizam as suas atividades aqui em Fátima têm condições excelentes e realizam atividades de formação ou de encontro. Isso, no dia a dia, faz parte de Fátima. Fátima cidade. Fátima cidade humana. Os santuários, ao longo da história, foram sempre acolhedores de cultura. Criaram cultura. As universidades nasceram aí. Claro que, se não houvesse o Santuário, Fátima não teria esta dimensão. Mas isso faz parte.Não significa risco de turistificação de Fátima?A missão de Fátima não se faz com isso. Mas também não se pode fazer independentemente disso. Há um bom relacionamento que o santuário procura ter com as entidades turísticas, de acolhimento, de hotelaria e de transportes. Não se pode conceber o santuário sem uma rede de transporte, sem boa acessibilidade. Gente com visão permitiu que o Santuário comprasse os terrenos à volta. E hoje temos uma coisa que dificilmente se encontra por aí fora: parques que são livres e que permitem que milhares e milhares de carros, centenas de milhares de pessoas, possam chegar e usufruir.Consegue distinguir, ou faz uma distinção, entre turista religioso e peregrino? Ou hoje essa fronteira já não faz sentido?Faz sentido o percurso humano de cada um dos que chegam. Quantas pessoas vêm simplesmente para acompanhar um familiar e um dia descobrem em Fátima uma evidência nova, uma surpresa. Só vindo compreendem e são sensibilizadas pelo ambiente que aqui se vive. O papa Francisco dizia: “Olhe, sabe, nunca fui grande adepto de Fátima. Não conhecia, nunca tinha lá ido.” E, na primeira vez que foi, sabe o que o influenciou? O silêncio. Isso também é possível porque, precisamente, houve quem se preocupasse em garantir sempre um ambiente de silêncio e porque esse é, também, o espírito com que as pessoas chegam. Sendo, claro, que há quem venha simplesmente porque precisa de descansar. Tenho pessoas amigas que vêm para aqui porque têm paz e um lugarzinho relativamente barato, acessível, para preparar um doutoramento ou um trabalho.Como é que avalia a articulação que está a ser feita entre santuário, diocese, autarquia, hotelaria, restauração, forças de segurança e operadores turísticos? A articulação é ótima. Funciona à volta do santuário, mas com uma grande participação e responsabilidade das entidades oficiais.Que investimento acha que falta fazer em Fátima?Tudo isso está a ser conversado. Todos os anos temos um encontro com as entidades oficiais à volta de Fátima onde esses assuntos estão também em discussão, além de encontros bilaterais constantes. E envolve forças de segurança, autarquias, bombeiros e proteção civil. Todos estes organismos estão aí presentes.Fátima devia ir além de maio e de outubro ou será que isso já acontece?Fátima já não é só maio e outubro. Isso já está largamente ultrapassado. Constantemente, passam grupos. De maio para a frente, todos os sábados e domingos enchem-se o santuário e os parques. Basta olhar para o parque e ver a quantidade de pessoas que vêm, cada vez mais, durante a semana e, sobretudo, ao fim de semana. Porque é que demorou a desenvolver-se? Porque havia uma hotelaria só para os grandes acontecimentos. Agora não é assim. É comum marcar-se para Fátima encontros de estudo e encontros religiosos.A zona de Leiria-Fátima foi marcada este inverno por uma tragédia natural imensa, que ainda se nota. Que papel é que acha que pode ter o santuário na marcação de uma agenda nos temas sociais?O santuário, local de escuta, da palavra, de diálogo, já marca muito. Depois tem também a história. No final de janeiro, o santuário sofreu muito. Metade das árvores tombou. Já foi limpo, mas passei por aqui no dia seguinte e era uma zona devastada. Também participou na ajuda, dando guarida a bombeiros e proteção civil, durante várias semanas, dando apoio a famílias que estão ainda a viver em dependências do santuário porque continuam sem casa. O santuário, nesse aspeto, tem o seu trabalho, que sempre foi ajudar os peregrinos. Como "casa da mãe", não podia ser outra coisa. O santuário deve ser visto como aquilo que é essencial na vida do Senhor: o cuidado pelos mais pequenos. A mãe de Jesus veio aqui cuidar de crianças entre os oito e os 12 anos, na altura das aparições. Crianças que nem iam à escola. Que estavam doentes. Uma mãe que cuida dos seus filhos. Isto deve caracterizar Fátima, não só em relação ao país, mas em relação ao mundo. Já se faz, e muito, mas tem de ser uma das dimensões a desenvolver.Francisco, que dizia há pouco que não era um grande adepto de Fátima, saiu daí marcado por esse silêncio. Relativamente a esse Papa, que herança acha que ele deixou para o Santuário e para a Diocese?Deixou uma imagem em que penso muito. Olhando para a capela das Aparições, via nela a imagem do que pensava que deve ser a Igreja. Dizia: “Tem colunas e um teto para acolher, mas não tem muros, não tem paredes, para que todos possam entrar.” “Todos, todos, todos.” E ali está a casa, que é uma igreja. É uma mãe que acolhe, acolhe sobretudo aqueles que mais precisam. A Igreja como um hospital de campanha. Uma casa de acolhimento, um santuário dedicado a Virgem Maria.Quando olha para a multidão no recinto, no 13 de maio, o que é que mais o impressiona?Quando tinha 20 anos, antes do 25 de Abril, também não era muito adepto de Fátima. Por um lado, porque sabia bem que Fátima era manipulada em favor de um regime que não me era simpático. Por outro, pela forma dolorista com que tantas vezes era representada. Os peregrinos, aquelas tantas pessoas que vão de joelhos por ali passando, que vão fazendo caminho para pagar promessas, deixavam-me uma ideia triste. Com a teologia que ia aprendendo, achava que tinha de ser diferente. Um dia falei com uma pessoa dessas. Não em Fátima, mas deu-me outra visão. Pediu-me para acender uma vela. Disse-lhe que não tínhamos lugar para isso, e ele respondeu-me: “Que pena. Queria muito acender uma vela a Nossa Senhora, porque neste momento a minha mulher está a ser operada. Queria que Nossa Senhora olhasse pela minha mulher.” Meti a minha teologia toda no saco. Devo dizer que ambos acendemos uma vela. Porque há tanto de humano que não vai pela lógica. A nossa fé é vivida de atitudes e daquilo que se diz. Não é para comprar Deus, nem fazer negócio com Deus. É apelar a Deus. Sabemos que Deus não é só poderoso, é também bom. Continuo a ter o meu espírito crítico, mas tenho sobretudo o espírito da fé e da misericórdia. Se peço alguma coisa a Deus, é porque sei que Deus é perfeitamente bom e poderoso..Milhares de fiéis enchem Santuário de Fátima para a procissão das velas (veja as imagens). Que pedido leva pessoalmente a Nossa Senhora de Fátima este ano?Os bispos devem assumir a atitude de Maria. Uma atitude de autêntica disponibilidade materna, tanto para receber o bebé Jesus nos seus braços como para O acolher moribundo, já morto, descido da cruz. E é sempre o mesmo coração de mãe. Lembro-me muito bem dos ucranianos que vieram cá. Os primeiros. E uma mãe ucraniana que me dizia: “De dia sorrimos para os nossos filhos. À noite choramos pelos que estão lá e esperamos por aqueles que são os nossos maridos". Um pedido pessoal passa mais por ter esse coração materno de que a Igreja precisa. Particularmente para com aqueles que sofrem. Vemos por aqui tantas vezes rostos sofridos, mas também agradecidos e em paz. E que a Nossa Senhora nos ajude a ser instrumento, aqui no Santuário, dessa paz ao mundo.Agora que não preside à Conferência Episcopal Portuguesa, sei que não quer falar sobre o tema, mas, falando de mãe, mãe que cuida, não é possível fugir à pergunta. Há uma carta subscrita por 70 católicos que lançam críticas ao comportamento de alguns bispos no tratamento a vítimas de abusos sexuais. Os subscritores criticam a linguagem utilizada, o processo de audição das vítimas e a redução das compensações financeiras. Como reage?O caminho disponibilidade materna e mãe de Jesus é o caminho da Igreja. É esse que devemos seguir. Cada um pode fazer e criticar o que entender. Pode haver interpretações melhores ou piores. O abuso na Igreja ou fora dela, o abuso de crianças, o abuso sexual de crianças, é sempre um horror. E é nesse sentido que Fátima me inspira e vai continuar a inspirar. ."País estagnado." Patriarca de Lisboa quer "humildade" para que haja entendimento sobre Pacote Laboral