Conchas com 10 mil anos retiradas da Foz do Lisandro para não serem destruídas

O sítio arqueológico foi posto a descoberto no último verão na sequência da retirada pelo mar de quatro metros de areia, mas só entre o final de janeiro e o início de fevereiro foi escavado de emergência devido à forte agitação marítima.

Conchas com cerca de 10 mil anos foram retiradas de emergência na praia da Foz do Lisandro, Mafra, uma vez que o sítio arqueológico corria o risco de ser destruído pela agitação marítima, disseram hoje as arqueólogas responsáveis.

"Escavámos tudo o que estava exposto. O concheiro desapareceria se não fosse escavado", disse à agência Lusa a arqueóloga Ana Catarina Sousa, docente da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa.

O sítio arqueológico foi posto a descoberto no último verão na sequência da retirada pelo mar de quatro metros de areia, mas só entre o final de janeiro e o início de fevereiro foi escavado de emergência devido à forte agitação marítima.

"Identificámos lapas, mexilhão e, pontualmente, um búzio e uma ostra", afirmou Marta Miranda, arqueóloga da Câmara de Mafra (distrito de Lisboa).

A existência do concheiro pré-histórico prova que aí existiu ocupação humana há cerca de 10 mil anos.

"Terão sido os últimos caçadores coletores da Europa que faziam acampamentos para consumo de recursos aquáticos", apontou Ana Catarina Sousa, adiantando que foram "encontradas estruturas de fogueiras e vestígios de fauna aquática, pelo que terá sido um sítio de curta duração".

O sítio arqueológico deverá datar do Mesolítico ou do Neolítico, mas só estudos laboratoriais poderão vir a comprová-lo.

"A interação com as comunidades de caçadores recoletores que ocupavam este território é bastante complexa e sítios como o Lisandro contribuem para compreender a passagem de um modo de vida caçador-recoletor para uma economia agropastoril, uma verdadeira revolução na história da Humanidade", explicou a arqueóloga do Centro de Arqueologia da Universidade de Lisboa.

O concheiro situa-se a um quilómetro e meio de outro identificado em 1985 na praia de São Julião, no mesmo concelho, onde existiu uma sucessão de ocupações humanas entre o Mesolítico e o Calcolítico, ou seja, entre o oitavo e o terceiro milénio Antes de Cristo.

A escavação foi dirigida pelas duas arqueólogas e contou com a participação de estudantes da licenciatura, mestrado e doutoramento da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa.

Foi escavada uma área de oito metros quadrados, mas os arqueólogos acreditam que o sítio será muito mais vasto.

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