Cheias de 1967. O mar de lama e dor que mostrou o país

Populares na antiga Vila Conceição, na Rua Humberto Delgado, hoje Avenida dos Bombeiros Voluntários, em Algés

Foi um episódio meteorológico extremo: choveu em poucas horas o que deveria ter chovido num ano. Os rios e ribeiros em torno de Lisboa, transbordaram e as águas ganharam uma inesperada força. A enxurrada levou árvores, carros, fez das ruas rio e mar, e provocou um número estimado de 700 mortos e milhares de desalojados. Faz hoje 50 anos

Aos 13 anos, chegou-lhe de uma só vez a morte da vida toda. Foi há 50 anos. Luísa tem 63, e o luto da irmã mais velha, dos avós e de 27 primos e tios está por fazer. Naquela madrugada de enxurrada do Rio Grande da Pipa, mais de um terço da população da aldeia de Quintas, cerca de cem pessoas, desapareceu num mar de lama. Foi na noite de 25 para 26 de novembro de 1967 - que tal como hoje, era de sábado para domingo.

Luísa Silva Fajardo fala pausadamente, encostada ao portão da casa onde estava com os pais e o irmão mais novo quando tudo aconteceu. Este novembro rega-nos de sol forte, em cima da hora de almoço. A casa onde estamos e onde ainda vive, fica no número 1 da Rua dos Casalinhos. Os Casalinhos (há 50 anos ainda não eram rua) são uma zona elevada da aldeia, a meia encosta, tal como Carapinhas e Casal Mascote. Formam uma espécie de anfiteatro sobre a várzea, zona plana no vale onde o rio e os ribeiros se agigantaram com a enorme quantidade de chuva que caiu durante a noite e a madrugada. A água que escorreu dos montes e saltou dos leitos ganhou uma força inesperada, incontrolável, que arrastou árvores, animais, pedras, carros. E casas com famílias inteiras lá dentro. Os que estavam na zona baixa morreram, numa enxurrada repentina e fatal.

Não se via nada naquela noite em que o céu chorou demais. Não havia água, luz nem telefone (nas poucas casas que os tinham). "O meu pai, desde que começou a dar por isso, que estava a chover, tentou ir lá durante toda a noite. Descia, atulhava-se na noite escura. Não se via nada, nada. Nunca conseguiu. Quando amanheceu é que a realidade apareceu. Esta várzea parecia prata e completamente vazia. Espraiou, com o entulho. Era só lixo, canas, animais e as pessoas, que aqui estavam todas dentro de casa a dormir. A minha irmã apareceu nesse domingo, a minha avó na segunda e o meu avô nove dias [depois]."

Foi nesta aldeia da freguesia de Castanheira do Ribatejo, concelho de Vila Franca de Xira, que morreram mais pessoas nas cheias de 1967. Nessa noite registaram-se valores anormais de precipitação - os especialistas consideram que este é um fenómeno que acontece a cada cem anos - que levaram à saturação dos rios e ribeiros da grande Lisboa, provocando um número de mortos que permanece por contar e centenas de desalojados. A censura mandou parar a contagem de cadáveres aos 462, mas estima-se que o número de vítimas mortais daquela noite ascenda a 700. Além de Vila Franca de Xira, as zonas de Alenquer, Loures, Odivelas, Oeiras e Sintra foram das mais afetadas por aquela que é a maior catástrofe natural em Portugal depois do terramoto de 1755.

Só mais tarde Luísa soube disso. Para ela, a cheia tinha sido só ali e não era coisa pouca. O lugar onde nascera e onde todos eram família, tinha sido dizimado pela lama. "Eu tinha só 13 anos. A minha mãe perdeu uma filha e os pais, e eu é que tive de ir para a frente. Se já era mulher, se já trabalhava, tive de crescer mais."

Mariana Guerra também escapou porque morava nos Casalinhos e não "na baixa". Aos 29 anos fez o funeral da irmã, a poucos dias de fazer 31, e dos três sobrinhos, o mais novo com 19 meses. "O berço do meu menino estava marcado no teto, e ele estava ao colo da mãe, portanto ou a água entrou ou ela abriu a porta a pensar que podia sair. Os dois mais velhinhos estavam dentro da cozinha, dali não saiu ninguém". O cunhado estava em Castanheira, onde tinha ido trabalhar. Quando voltou, alarmado com as poucas notícias que lhe iam chegando, não encontrou ninguém vivo. "Foram escolhidos por Deus", diz Mariana, numa torrente de recordações. Segura a fotografia a preto e branco onde estão a mãe, ela e as duas irmãs e nas costas da qual a mãe - que estava nos Açores, para onde o pai tinha ido trabalhar - a mandou escrever uma carta à irmã falecida que nos lê de seguida, numa ladainha. Parece que se confundem, mãe e filha, ou mãe e filhas, como se os 79 anos deste acaso de vida tivessem sido um acumular de dor e saudade. "Já me deram a volta à cabeça, estou toda a tremer."

Hoje mora no bairro Calouste Gulbenkian, em Quintas, um dos conjuntos habitacionais que a fundação construiu para os desalojados das cheias de 67. Já quase não vive lá ninguém "daquele tempo" - como se aquele tempo pudesse deixar de existir, como tentou o regime de Salazar.

A aldeia de Quintas está cheia de marcas, a juntar às que fazem os olhos dos daquele tempo encherem-se de lágrimas à primeira frase. Há um memorial com os nomes das vítimas da aldeia gravados. Nas duas jarras do monumento mandado fazer pela Junta em 2008, Mariana foi colocando flores enquanto pôde. "Mesmo com as flores artificiais tinha sempre água na jarra, não sei se as outras também faziam assim, mas eu fazia". Uma rua, em semicírculo, a contornar a várzea chama-se Rua 26 de novembro de 1967. Uma linha de estrada mal pavimentada como que a fazer a fronteira entre os que viveram e os que morreram. Também há uma placa de mármore com a estranha redundância de se intitular "memória toponímica", seguida de uma breve descrição do que ali se passou. Todos os anos a aldeia assinala a data (chegou a ser feriado) e hoje não é exceção.

Um presépio de homenagem

Às marcas nas vidas e na toponímia juntam-se os vestígios da violência da cheia. Diz Luísa: "A casa ficou cortada por cima do telhado, ficaram as paredes e não tinha nada lá dentro, só a máquina de costura, as camas de ferro, a botija de gás. Da nossa escola ficou metade do chão e a escada. Está como ficou há 50 anos atrás." Pois está.

Se não soubéssemos, seria apenas o que resta de uma casa velha no vale de torrões que é neste outono a bacia do Rio Grande da Pipa. Também em Alenquer permanece congelado no tempo o que resta do pavimento da Fábrica do Cartão e Papel de Ota, num lugar conhecido como Areal. É Alberto Santos, da associação Alenculta, que explica a violência do que ali se passou: "A fábrica usava como matéria prima a água, porque trabalhavam com trapo e papel e para destroçar o trapo e transformá-lo em papel precisava de toneladas de água. O rio tinha um açude a montante e um túnel por baixo da fábrica para captar a água para a laboração, e depois a água saía do outro lado. Na cheia, o açude cedeu, que a água foi tanta que entrou pelo túnel, rebentou o soalho e levou a fábrica atrás. Um terço do edifício foi atrás da água, caiu, ponto final. E maquinaria absolutamente descomunal veio por ali abaixo, rebentou a ponte do Largo de Santa Isabel e veio entupir na ponte do Espírito Santo. Aquilo ali fez uma represa e a água subiu num instante a uma altura absolutamente incrível. Foram encontrados cilindros com mais de 500 quilos lá em baixo".

A associação a que preside empenha-se em preservar a memória local. Alberto não viveu as cheias, mas está apostado em não as deixar morrer. O presépio gigante que é imagem de marca da vila, nasceu no ano seguinte às cheias: "Um dos vereadores lembrou-se do movimento de solidariedade que existiu em 67. Pensaram em pô-lo na encosta, porque se via de todo o lado. Interromperam a reunião da câmara e foram ver o sítio. O João Mário Oliveira, então presidente da câmara, era pintor, e tinha um mestre chamado Álvaro Duarte de Almeida, que fez as figuras. São figuras com seis metros de altura. As originais eram de madeira, hoje são em metal mas mantêm as mesmas características do original." A partir do dia 1 e até aos Reis está na encosta.

Na vila, cortada pelo Rio Alenquer, existe uma casa velha na Rua de Triana com as marcas das várias cheias. A de 1967 é a mais alta: 3 metros e 7 centímetros. "Esta medida é a partir do nível da estrada, do leito do rio serão uns seis metros de água", estima Alberto Santos. É preciso muita imaginação para perceber o que ali se passou, especialmente num outono como este, em que os patos do rio conseguem pôr-se em pé dentro do fio de água que corre.

O historiador explica o que esteve na origem da grande cheia em Alenquer, que deixou todo o centro da vila debaixo de água - nem os bombeiros chegaram a sair com os carros, ficando com o quartel completamente alagado. "O concelho de Alenquer tem três grandes bacias hidrográficas, ou seja, toda a água que cai escoa para o Tejo através de três linhas de água: uma é o Rio da Ota, outra é o Rio Alenquer, que passa pelo meio da vila, e há uma terceira que drena a parte oeste do concelho, que é a ribeira da Carnota, que depois vai juntar-se com o Rio Grande da Pipa, que vem do lado da Arruda e que vai depois desaguar na vala do Carregado. São estas três linhas. A linha de água da Ota não teve nenhum problema. As duas linhas que deram problemas sérios foram a Ribeira de Alenquer e a Ribeira de Santana da Carnota. Sendo que na Ribeira de Santana da Carnota, em conjunção com o Rio Grande da Pipa na parte que pertence a Alenquer, foi onde morreram mais pessoas, que foi em Cadafais e Casal Silvestre, em frente a Quintas. Nessa zona há mortes em Refugidos, em Preces, na Quinta das Amendoeiras, em Cadafais e no Casal Silvestre. Aqui na vila houve dez mortos, os outros 37 são na outra linha de água".

Casas levadas pela água

Foi o que aconteceu em todo o perímetro de Lisboa naquela madrugada de 1967. Não foi o Rio Tejo que teve a culpa. "O Tejo tem um papel muito reduzido que tem a ver com as marés vivas. Apesar de se terem verificado ocorrências em quase toda a Península de Lisboa, percebe-se que é nas bacias em torno da capital que se observaram mais problemas (Póvoa, Jamor, Barcarena, Trancão e do Rio Grande da Pipa)", refere Francisco Costa, geógrafo da Universidade do Minho (ver entrevista).

Mário e Elisabete Augusto também moram num bairro Gulbenkian, mas que todos conhecem como Bairro dos Sinistrados. São prédios amarelos de três andares em Odivelas, não muito longe do Silvado, de onde conseguiram escapar do primeiro andar em que moravam, já na manhã de dia 26. "Esteve a chover todo o dia. Era dessa chuva que a gente diz molha tolos", recorda Mário. Nasceu num dia de ciclone em 1941 e talvez isso lhe tenha marcado a sina. "Veio uma pancada de pedra", interrompe a mulher. "Veio uma grande rebocada de água mais tarde", diz ele. E aí começou a aflição. Ou as aflições. Conseguiram pôr-se todos a salvo naquele primeiro andar. "A minha mãe ainda foi buscar muita gente, velhotes e tudo, lá para casa mas depois as escadas taparam-se com água e já não pudemos sair". O primeiro andar que se torna uma armadilha e de onde escapariam num buraco "na parte de trás, para a casa do vizinho". Não sem antes Elisabete, grávida de sete meses, ter salvo o pai, por pouco. O homem não queria largar uma bilha de gás acabada de comprar, um pequeno tesouro nas mãos de um pobre: "Ele caiu num buraco cheio de água e de lama. Meti a barriga assim no chão, puxei o meu pai. Quando vi que não aguentava mais, gritei. Ia morrendo. Ó-ó, foi um dia e uma noite que nunca mais se esquecem."

Ficaram a viver "dois meses e tal" num barracão do pai dele no Senhor Roubado com a família toda. Depois mudaram-se para uma casa nos Olivais que lhes arranjaram. Tomaram praticamente de assalto a casa onde estão há 42 anos e criaram os sete filhos. Elisabete explica: "Quando começaram a dar as chaves [das casas novas] houve quem apanhasse 20/30 chaves e depois queriam dinheiro por elas. Tinha aqui uma irmã e um sobrinho, que viram que esta casa estava vazia. Saltaram pela janela e vieram cá para dentro e chamaram-nos. Veio a polícia e tudo para me pôr na rua, mas o inspetor disse "a senhora não sai daqui, está de barriga" [da filha Sandra, que entretanto chega a casa]. Hoje é minha, eu comprei-a."

Da família, grande, não morreu ninguém. "A minha cunhada esteve em cima da barraca com a filha, quando os bombeiros chegaram e deitaram-lhe a mão. Assim que ela saiu de cima do telhado, a casa foi por água abaixo", conta Mário. Teve melhor sorte do que as famílias que o bombeiro José Martins viu, impotente, serem sepultadas na enxurrada: "Eu nessa noite estava de serviço ao quartel. Fui chamado para a Urmeira. A estrada da Paiã, era um mar de água. Quando lá cheguei, via as casas assim [faz gesto na horizontal com a mão] a ir por água abaixo. Famílias inteiras. Nada se podia fazer. Se a gente tentasse ir, íamos também".

Naqueles dias, o quartel dos voluntários de Odivelas transformou-se numa morgue. Guilherme Duarte Esteves, então ajudante do comando, estava doente em casa com 39 graus de febre quando o foram chamar. "Às 21.00 já havia muitos pedidos nos bombeiros. A coisa começou-se a complicar mais a partir das 22.20/22.30, a chuva era muita, às vezes parecia o dilúvio. Vinha lá de cima de Caneças, da Arroja, aquilo é tudo a descer, vinha desembocar tudo a Odivelas. Foi uma calamidade muito grande", recorda aos 77 anos.

"Na Rua do Souto estava uma pessoa entalada, era o Abílio do gás. Esse foi o primeiro morto a vir para os bombeiros de Odivelas. Ainda chamei a doutora, mas ela não conseguiu fazer nada. De seguida dirigi-me para o Silvado, fui para lá com uma equipa de seis ou sete homens, já mal se podia passar. Tivemos de agarrar umas espias a uns postes de eletricidade para podermos passar para lá, mas entretanto dei logo com uma moça nova de 18 anos morta, toda nua. Meti-lhe uma mantazinha por cima, e essa foi a segunda morta a entrar nos bombeiros. A partir daí começámos a encontrar pessoas mortas, foi uma loucura. Foi começar a trazer mortos para o quartel", relata. "Odivelas era um mar de água porque daqui ao Senhor Roubado eram hortas de um lado e de outro. Tinha chamado os Fuzileiros navais para aqui, para a Póvoa, para o Olival Basto. A Póvoa de Santo Adrião era um mar autêntico. No outro dia à noite tínhamos duzentas e tal pessoas mortas no quartel. E tínhamos cerca de 50 pessoas desalojadas das que conseguimos trazer para cá".

Álvaro Mata, dos Voluntários de Loures, era pintor de automóveis e motorista da corporação. Lembra-se que a última coisa que fez antes de estar oito dias ao serviço das cheias foi ir buscar leite para o filho. "Deixei o leite e fui para os bombeiros. Um dos carros foi ver de umas pessoas em Frielas, mas a água era tanta ou tão pouca que nunca mais conseguiu passar para cá. Era até à Calçada de Carriche uma altura de lama de mais de dois metros. A água do lado do Lumiar vinha toda direita ali, com canas, com tudo. O rio era a estrada". Perdeu a conta ao que fez nesses dias - "se for a dizer o que vi e o que fiz, tinha de escrever quatro ou cinco livros". Também Jaime Assunção, bombeiro em Odivelas, recorda com uma precisão quase milimétrica o que estava a fazer quando a sirene tocou: "Eu tinha-me casado há um mês e três dias. Tinha um sobrinho em casa que tinha vindo passar o fim de semana, e a minha mulher resolveu fazer um jantar de bifes com batatas fritas e ovo a cavalo. Peguei num bocadinho de pão, molhei no ovo e comi; Depois cortei um bocadinho do bife, e o pedaço que estava no garfo foi o único bocadinho de carne que comi. O alarme começou a tocar e eu gritei para a minha mulher: dá aí o blusão". Também para ele, essa noite nunca mais acabou. Tirou de uma casa no Silvado 35 pessoas, um rapazito na Arroja, que vinha pela serra abaixo em cuecas e camisola - minutos depois de saírem da ponte onde fizeram o socorro, esta foi levada pelas águas.

Nessa noite, morreu também o delegado de Saúde de Loures, com a família. "Veio um outro delegado e fez-se assim: a quem era reconhecido pelas famílias era feito o funeral. Aqueles que não eram reconhecidos eram levados para a morgue [do hospital] de São José. Andámos nisto muitos dias. Todos os dias levávamos 4, 5, 6 corpos para São José. Estive quase um mês aqui nos bombeiros. Descansava três quatro horas no comando, mas a azáfama era muito grande", relata Guilherme Duarte Esteves. Recorda a onda de solidariedade e a forma como o quartel teve de se adaptar às novas funções: "Começaram a trazer roupas para as pessoas que estavam aqui. As pessoas que aqui ficaram, algumas mal viam, perderam óculos perderam tudo. Tive de alojar nas camaratas dos bombeiros. Pedi uma série de macas à Mocidade Portuguesa para deitar essas pessoas. Tínhamos uma camioneta que ia todos os dias à Ribeira buscar comer. Havia uma firma, que era o Marques Raso, que nos emprestou dois fogões grandes e ofereceu o gás para fazer a comida. Essas pessoas estiveram aqui sensivelmente mês e meio até que o estado do Salazar as começou a mandar para a Mitra", conta Guilherme Esteves.

A explosão do paiol

Em Oeiras, à fúria da Ribeira do Jamor e à subida das águas do Tejo, que inundou caves e deixou de molho o comércio da baixa de Algés, juntou-se, na manhã de domingo, a explosão do paiol de Linda-a-Velha. Helena Abreu tinha 23 anos e, passado meio século, questionava-se se aquilo teria mesmo acontecido porque "ninguém falava nisso". É um dos membros do grupo Histórias de Vida, das bibliotecas municipais de Oeiras, que desde 2014 se dedica à recolha de testemunhos e ao registo da história do concelho. "Eu morava na Damião de Góis. Foi a noite toda com a chuva. A chuva pareciam cordas, cinco, seis horas, pumba, pumba. No sítio onde agora é o Pingo Doce era uma vila de casas baixinhas, e as pessoas estavam em cima do telhado e gritavam para nós que estávamos na janela lá em cima, depois vieram os bombeiros. A minha mãe resolveu dar guarida a essa família da cave, eram mais três pessoas lá em casa. Por volta das cinco ou seis da manhã conseguiram fazer-se as camas no chão e acalmar as pessoas, a ver se a gente dormia uma horinha ou duas. Às sete da manhã, PÁS!, ouve-se a explosão. Em Algés partiram-se muitos vidros. Em Linda-a-Velha ficou tudo destruído. Segundo o presidente da câmara, 90 por cento dos vidros, 40 por cento dos telhados", conta.

Os bombeiros de Linda-a-Pastora lembram-se bem do "pandemónio". Os portões de ferro do quartel ficaram dobrados com as ondas de choque da explosão. "Íamos a subir a A5 no pronto socorro e dá-se a explosão de tal ordem que os cofres da viatura abriram-se todos", diz Miguel Antunes, então adjunto do comando. "Felizmente não houve vítimas, porque aquilo rebentou quando não estava ninguém naquele sector, foi o TNT que rebentou", diz. Aureliano Duarte, "93 anos e 90 de bombeiro", recorda-se que foi toda a gente para a praia."Pusemos o pessoal lá do estádio nas camionetas e foi tudo para o Guincho", diz João Baptista, também bombeiro, que trabalhava no Estádio Nacional. Alberto Brito, bombeiro em Oeiras, andou de megafone, a pedido da polícia, a mandar o pessoal todo para a praia. E depois vieram os saques. "Uma população com tudo destruído pela água, uma explosão às 7 da manhã, não houve nenhum governante que fizesse um discurso a acalmar as pessoas, as pessoas sentiam-se abandonadas, assustadas e aterrorizadas", resume Helena Abreu.

"Porque é que morreram 500 pessoas numa noite? Porquê? Porquê? Até porque aqui ao lado não aconteceu nada. Eu morava em Lisboa e não me aconteceu nada, em Lisboa não aconteceu nada. Porquê esta desigualdade? Porquê esta tremenda tragédia? Fomos à procura de pessoas que pudessem explicar porque é que isto se tinha passado desta maneira". Quem o diz é Helena Roseta, arquiteta e presidente da Assembleia Municipal de Lisboa, então no segundo ano de Arquitetura. "O meio estudantil era bastante mais elitista do que é hoje porque não havia a democratização do ensino, só podia ir para a universidade quem tivesse dinheiro para pagar. Para os estudantes aquilo foi um choque brutal, as pessoas confrontaram-se com a miséria e a morte assim de repente. Sabiam que havia, liam nos livros, mas não era a mesma coisa, não é?"

Roseta nunca foi para o terreno como foram milhares de estudantes, a partir do dia 28 . "Eu era muito miúda, não tinha carro, nem sequer tinha condições para isso. Foi malta mais velha e era sobretudo gente de Medicina e de Engenharia". A arquiteta ficou em Lisboa a recolher informação sobre o que se estava a passar ali ao lado. "Fizemos a edição da separata do jornal da JUC [Juventude Universitária Católica]. O meu trabalho foi recolher informação nos boletins estudantis e nos recortes de jornais com a verdade dos factos que era omitida pela censura, que não deixava passar essa informação, e nós não a conseguíamos saber. Ela era passada de mão em mão nos boletins das associações de estudantes, e nós andámos a recolher essa informação toda". O Caderno de Reflexão saiu três meses depois das cheias e incluía entrevistas ao arquiteto Nuno Portas e ao paisagista Gonçalo Ribeiro Teles. Aqui se apontam como causas do desastre o desordenamento do território, com construção em leito de cheia, a destruição de matas e matos, a canalização das linhas de água e, entre outras, a "existência de uma população urbanisticamente marginal, vivendo em grande parte em barracas". Isto a juntar à grande quantidade de chuva que caiu. "Aquilo teve muita influência para mim porque eu sempre pensei que queria ir para arquitetura para poder fazer alguma coisa socialmente útil e aquilo reforçou a minha convicção de que o mais importante era conseguir, como dizia o Teotónio Pereira, com quem eu vim a trabalhar mais tarde, a habitação para o maior número. Essa continua a ser a causa da minha vida", acentua.

Os estudantes chegaram ao terreno dois dias depois e entre eles estava Fernando Valdez. Tinha 18 anos e estava no segundo ano de Engenharia Mecânica no Instituto Superior Técnico. Foi ali que se centralizou toda a operação de apoio às populações, organizada pelos universitários onde participaram estudantes de Lisboa, Porto e Coimbra, e também alguns de liceus da capital. "Foi um contrarrelógio para se organizar tudo para ir para o terreno, meios logísticos, transportes. Aquilo foi uma tragédia tão grande que as pessoas foram sabendo daquilo e chegaram imensas coisas ao Técnico, para serem depois distribuídas. As dádivas das pessoas foram postas na piscina [vazia] e foram separadas por tipo de coisas, por tamanhos. Ficou cheio de coisas. Estava ali o centro nevrálgico. Na cantina foram feitas, entre aspas, rações de combate - sandes, fruta, bebida - que se levavam para os bombeiros, para as populações e para os estudantes que iam para o terreno", recorda.

Fernando foi para Quintas, a aldeia mártir. Já tinham recebido informações do que lá se passava mas nada se compara ao que os olhos viram. "Não há relatos para descrever aquilo, estava tudo atolado em lodo, quando nós chegámos ainda se encontraram cadáveres... Os bombeiros exaustos, as populações a entreajudarem-se. O apoio oficial não existia, havia apoio de autarquias, não a nível central", recorda. "Aquilo marca sempre. No meu caso pessoal já vinha da pró associação dos liceus, vinha de uma família da oposição, tinha consciência de muita coisa. Mas para muitos estudantes, muitos deles nem eram muito associativos, aquilo foi um momento de viragem na consciencialização de como o regime tratava as pessoas e mantinha pessoas em condições infra humanas de grande pobreza", considera.

Também Eduardo Ferro Rodrigues, então com 18 anos, despertou para a realidade do país. O atual presidente da Assembleia da República tinha acabado de entrar para Económicas no atual ISEG. Esteve em Fanhões, concelho de Loures, onde deu apoio nas limpezas e distribuiu "papéis" a explicar às pessoas que as condições em que viviam tinham a ver com o regime político da altura. "Foi uma espécie de batismo de fogo para a minha atividade política que fará 50 anos daqui a dois dias", aponta. Uma "experiência terrível", em que, tal como milhares de estudantes, teve pela primeira vez um contacto direto "com aqueles bairros de barracas e com a miséria extrema em que viviam as pessoas. E com a indignação que tínhamos todos pelo facto da censura evitar que houvesse uma análise política e social do que se tinha passado." A partir dessa altura, Ferro Rodrigues começou a ter atividade associativa, na associação de estudantes de Económicas. "Fazíamos dessas associações instrumentos de combate à ditadura e à Guerra Colonial." Na próxima quarta-feira vai apresentar na Assembleia da República um voto de homenagem às vítimas das cheias de 1967, que deverá ser aprovado por unanimidade.

"Os estudantes vieram com uma outra cultura que nós não tínhamos, já com uma visão diferente, e foram eles que transformaram isto tudo. Se calhar, se eles não têm saído à rua, sabia-se o mesmo que se soube naquele dia. Acredito nisso", diz Luísa Fajardo, em Quintas. "Transformaram. Através do conhecimento, da notícia, da divulgação para fora, da ajuda que deram. Foi uma grande reviravolta a partir daí. Hoje apercebo-me bem do que é que aconteceu, mas na altura... sabíamos que veio para aqui toda a gente, a Marinha, a GNR, essa gente toda, mas sentia-se, apesar da dor, sentia-se que havia o medo de comunicar. Já havia pessoas por aí a dizer: "cuidado, atenção". Eram esses avisos. Mas de resto o que é que a gente sabia? Sabíamos que tínhamos perdido tudo..."

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