Em Portugal, até março estavam inscritos na Ordem dos Médicos 489 médicos especialistas em Dermatologia, mas quantos há a trabalhar no setor privado ou com seguradoras ninguém sabe ao certo. A Associação Portuguesa de Seguradores (APS), questionada pelo DN, diz não dispor de tais dados, mas as seguradoras também não revelam. A Medis, do Grupo AGEAS, respondeu ao DN que não “iria tecer comentários às questões colocadas”, a Multicare respondeu, mas dizendo estar tudo bem, basicamente. “A Multicare dispõe de uma rede alargada de prestadores de cuidados de saúde com cobertura nacional, que inclui médicos dermatologistas em todo o país, sendo esta informação pública e consultável pelos clientes. A rede é gerida de forma contínua, com um cuidado permanente na sua adaptação às necessidades dos clientes.”, lê-se na resposta .Mas a verdade é que há cada vez mais portugueses com seguros ou planos de saúde - 3,7 a 4 milhões de pessoas em 2025/2026, segundo dados oficias - mas menos médicos de dermatologia a trabalhar com seguros e o tempo de espera para marcação de consulta aumenta cada vez mais. Aliás, a situação tem vindo a agravar nos últimos anos, sobretudo depois da pandemia, mas também porque houve “um aumento da procura de cuidados nesta área”, sustenta a presidente do Colégio de Dermatologia da Ordem dos Médicos. Joana Cabete, confirmando também “haver cada vez menos colegas a trabalhar com seguros”. Aliás, esta “é uma situação que preocupa o colégio e que já foi abordada em algumas reuniões”, diz. Só que, apesar de o assunto “poder ser abordado e trabalhado pelo colégio, e pela Ordem dos Médicos, qualquer solução também deve passar por algum trabalho das seguradoras com os próprios médicos”, defende.O presidente da Associação Portuguesa da Hospitalização Privada (APHP), Óscar Gaspar, destaca igualmente que “a dermatologia está no topo das especialidades mais procuradas nos cuidados e é uma das áreas onde o setor privado tem mais carência de médicos”, mas alerta: “Não é só nesta especialidade, também temos falta de médicos na área da pediatria, psiquiatria, anestesia e outras. A questão é que a falta de médicos e de outros recursos humanos na saúde não afeta só Portugal, mas toda a Europa. É um problema mais global. Não quer dizer que Portugal não possa ter mais profissionais nalgumas áreas do que outros países, mas a verdade é que estes podem não ser os suficientes ou os adequados às necessidades que existem. Isto tanto acontece no setor público como no privado”.Confrontado com casos relatados ao DN por clientes de seguros, que têm tentado marcar consulta na área da Dermatologia e que acabam por ter de esperar “oito meses” a “um ano”, Óscar Gaspar diz não saber ao certo qual é o tempo de espera, mas admite que “pode ser longo”. Por outro lado, faz questão de explicar que a própria hospitalização privada é alheia a esta espera e, de certa forma, à situação que está a levar os médicos a deixar de trabalhar com as seguradoras. “Uma coisa é o que uma seguradora, como a Medis, por exemplo, contrata com a CUF, ou o que a Multicare contrata com a Trofa ou com os Lusíadas. A negociação não é necessariamente igual para cada seguradora ou para cada hospitais, ao que me é dado saber é que são negociações com condições diferentes, por exemplo, preços diferentes, de hospital para hospital, e de seguradora para seguradora". E acrescenta: "Mas independentemente desta negociação há, de facto, uma outra entre seguradoras e médicos de algumas especialidades, sobretudo nas que há muito pouca oferta, em que estes profissionais, muitas vezes, dizem que: ‘Para esta seguradora, a este preço não trabalho’. E aqui o hospital não tem qualquer responsabilidade, trabalha com este médico, mas ele já decidiu que com alguns seguros ou até com a ADSE não trabalha”.Pelo seguro, médico recebe 30 a 45 euros por consulta. Pelo privado, mais de 100Portanto, a única solução para alguns clientes de seguros na área da dermatologia é mesmo a marcação de consulta, no mesmo hospital, mas pelo privado - pagando o valor total da consulta sem desconto. E é disso que se queixam algumas das pessoas que relataram ao DN estar a ter cada vez mais dificuldade em conseguir uma consulta nesta área no tempo adequado. “Se for pelo privado, consigo vaga no mesmo hospital em menos tempo, se calhar em dias, mas pelo seguro tenho de esperar quase um ano. O mesmo acontece se marco para o mesmo médico, mas no seu consultório, também consigo em menos tempo do que pelo seguro”, conta um destes doentes.O presidente da APHP reconhece que o preço da consulta pago por um ou outro sistema faz diferença. “Em termos de números, podemos estar a falar de uma consulta que pode estar avaliada pelo seguro para pagar aos médicos entre 40 a 45 euros, mas se for pelo privado o hospital paga 70% do que recebe do doente ao médico, o que é mais”. E este valor, segundo apurou o DN junto dos doentes, tanto pode ser de 100 euros, de 150 ou mais. “O médico sabe que não precisa de estar sujeito a um contrato com uma seguradora ou com a ADSE para ter o consultório cheio”, desabafa Óscar Gaspar, acreditando que esta é uma das razões que pode estar a levar cada vez “menos médicos dermatologistas a trabalhar com seguros ou até com a ADSE”.No entanto, sublinha, “o problema base é a falta de médicos. E se a situação é já um problema em 2026, será um problema ainda maior em 2027 ou 2028, porque a falta de médicos reporta-nos para a formação e para a falta de vagas nesta área”. Isto, apesar de “a formação em Portugal ser considerada internacionalmente como excelente. A questão é que um especialista não se forma em dois anos, mas em quatro, cinco ou seis. E abrimos cada vez menos vagas, vai ser um problema ainda maior”.Por agora, e segundo referem tanto o presidente da APHP como a presidente do colégio da Ordem, a espera prolongada para consulta é mais sentida nos grandes centros urbanos, nomeadamente em Lisboa e no Porto, precisamente porque “há mais procura de cuidados e menos médicos”, mas se nada for feito Joana Cabete também concorda que pode “agravar”, embora considere que “o número de dermatologistas existentes no país está adequado às necessidades”. Mais diferenciação dos médicos e menos comparticipação nos atos Mas, para a médica, uma das razões para esta questão específica está no facto de “as remunerações das seguradoras não serem atualizadas há muito tempo. Ou se foram, foram-no de forma parca, não acompanhando seguramente a diferenciação que a especialidade tem tido nos últimos tempos”. A presidente do colégio defende que os valores pagos pelos seguros não estão ao nível da diferenciação que os dermatologistas têm vindo a atingir. “No sistema privado tem-se vindo a assistir a um aumento cada vez maior de procura de cuidados, ao mesmo tempo que a especialidade, do ponto de vista técnico e científico também aumentou a sua complexidade, a sua diferenciação, nomeadamente em técnicas cirúrgicas, e, por vezes, as seguradoras não estão a pagar de acordo com esta diferenciação”. Aliás, salienta mesmo, que em muitos casos há seguradoras que já nem comparticipam procedimentos ou atos dermatológicos que são os mais eficazes para os doentes, o que é outro problema”. Ou seja, “há seguros que não comparticipam uma reconstrução, outros não comparticipam tratamentos que consideram estéticos, apesar de nós, médicos, considerarmos que são apropriados para a patologia do doente e que não é estética. E acabam por exigir uma burocracia tal, relatórios e mais relatórios, que criam uma pressão enorme no médico e na sua agenda, levando alguns a desistir deste tipo de contrato”.Joana Cabete reforça por isso que “qualquer solução para esta situação tem de passar pelo lado das seguradoras”, porque “há algumas que não pagam adequadamente face à diferenciação da especialidade. E, depois, há toda a burocracia associada aos próprios seguros”. A médica rejeita ainda a ideia de que esta falta de dermatologistas para consultas tenha a ver com o facto de muitos profissionais estarem a dedicar-se à área da estética. “Não tenho números concretos sobre se há muitos ou poucos, embora a minha perceção seja a de que só um número residual de dermatologistas é que envereda pela estética, ou que prefira fazer só estética. Há outras especialidades com mais colegas a fazer estética, por exemplo a cirurgia”.O haver cada vez menos médicos a trabalhar com seguradoras “é uma realidade conhecida do colégio e já foi, inclusive, abordada em reuniões e é uma questão que nos tem preocupado e que tem de ter uma solução”. Até porque, “os dermatologistas não são diferentes dos médicos de outras especialidades, também prezam cada vez mais a relação entre a sua vida pessoal e o trabalho. E começam a preferir situações que lhes permitem gerir as suas agendas e ter melhor qualidade de vida”. Ao DN, a Multicare contraria esta visão, dizendo que, no seu caso, “procede a atualizações regulares dos honorários e dos valores dos atos convencionados, tendo registado aumentos que, em vários casos, superam a inflação”. Aliás, de forma a assegurar uma maior flexibilidade, a Multicare tem vindo a investir ativamente em soluções complementares de acesso, nomeadamente através da Medicina Online, que já disponibiliza consultas em 13 especialidades, incluindo Dermatologia, sem custos adicionais para os clientes. Os clientes da Multicare dispõem igualmente de soluções de reembolso que permitem aceder a prestadores fora da rede”. E termina referindo que o seu compromisso “é garantir aos seus clientes um acesso eficaz, atempado e de qualidade aos cuidados de saúde, e é nesse sentido que continuamos a trabalhar.”Para o presidente da hospitalização privada, qualquer solução terá de passar também pelo planeamento dos recursos humanos, porque, “chegamos à triste conclusão que em Portugal nunca tivemos, efetivamente, um planeamento de recursos humanos em Saúde”, dando como exemplo: “À data de hoje não conseguimos saber quantos dermatologistas vamos precisar para daqui a dois ou três anos. E isto, obviamente, deveria entrar nas variáveis de decisão nas vagas para as especialidades”. Resumindo: “Precisamos de mais formação”, quer para o setor público ou para o privado. Joana Cabete reforça que a questão aqui é que também não pode haver “doentes de primária e doentes de segunda. Em teoria, as agendas deveriam ser abertas para todos e o acesso devia ser equitativo para todos”..Contratação de seguros de saúde aumenta 10% em 2022 para 3,4 milhões.A detecção precoce do cancro da pele é fundamental para a cura