A Nortada, o ventinho desagradável que se levanta nas praias a meio da tarde e leva os veraneantes a abandonar os areais, se não ocorrer priva os oceanos de nutrientes, explica cientista do MARE.
A Nortada, o ventinho desagradável que se levanta nas praias a meio da tarde e leva os veraneantes a abandonar os areais, se não ocorrer priva os oceanos de nutrientes, explica cientista do MARE. FOTO: Orlando Almeida / Arquivo GI

Águas quentes na praia: um prazer para o banhista, um problema no mar

A mesma água tépida que atrai banhistas às praias portuguesas no verão esconde um impacto direto na restauração: peixe mais magro, escasso e alterações profundas no sabor que chega ao prato.
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O fascínio pelas águas tépidas de verão no Algarve ou na Costa da Caparica contrasta com o diagnóstico rigoroso da ciência: um cenário que afinal não serve nem o prato na restauração, nem o futuro do turismo. Em entrevista, o investigador sénior do MARE Rui Rosa analisa o impacto do aquecimento global, da acidificação e da possível quebra dos regimes de vento, desafiando a ideia de que temperaturas mais elevadas traz vantagens duradouras para a sustentabilidade.

As ondas de calor que recentemente elevaram as temperaturas litorais em Portugal para valores a rondar os 23 ou 24 graus podem parecer um cenário idílico para quem procura o descanso estival, mas escondem um desafio profundo para o equilíbrio ecológico. Para o biólogo marinho e investigador sénior do MARE - Centro de Ciências do Mar e do Ambiente Rui Rosa, professor associado da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, estes episódios anómalos exigem uma leitura muito além do conforto imediato: “Os dados mostram-nos que estão a ficar cada vez mais frequentes, mais recorrentes e também a sua intensidade a aumentar.” E sublinha: “As pessoas gostam desses períodos e desses períodos anómalos - todos nós gostamos de água quente -, mas isso tem implicações a vários níveis, e eu, como biólogo marinho, nós temos conhecimento de que isso afeta a vida marinha.”

   FOTO: D.R. / Rui Rosa
Rui Rosa, investigador sénior do MARE - Centro de Ciências do Mar e do Ambiente, durante a sua atividade de estudo.

Este aquecimento global dos oceanos impulsiona o fenómeno da tropicalização, diz o especialista, levando espécies antes restritas a latitudes meridionais a procurarem novos nichos ecológicos na costa portuguesa. “Cada vez temos mais ocorrências de espécies que anteriormente não se encontravam em latitudes superiores, e que estão a aproveitar esta onda de calor, e, portanto, estes períodos anómalos mais quentes, para no fundo expandirem a sua área geográfica”, explica o investigador, acrescentando que este processo decorre num planeta globalizado marcado pelo Antropoceno - referindo-se ao período em que as atividades humanas passaram a ter um impacto global significativo no clima e nos ecossistemas da Terra.

Além das correntes oceânicas quentes, que funcionam como autênticas ‘autoestradas biológicas’, permitindo que espécies tropicais e subtropicais migrem para novas latitudes mais a norte, Rui Rosa menciona também o transporte marítimo global como um dos principais responsáveis pela proliferação de espécies invasoras, que chegam quer nas águas de lastro dos navios, quer por incrustação biológica nos seus cascos. Como sublinha o investigador, estas “espécies invasoras têm uma capacidade de se adaptar aos novos habitats extremamente rápida e encontram condições propícias para se propagar, e podem, muitas vezes, ser consideradas como vencedoras, nestes contextos de alterações globais, em altas temperaturas”, acrescentando: “E, como em tudo na vida, há vencedores e vencidos, e a nossa experiência diz-nos que estas espécies são, por norma, predadoras.”

O impacto no prato: a sardinha magra

A mesma água tépida onde o banhista adora nadar no verão poderá ser a razão por que a sardinha está mais magra na grelha e o peixe está mais caro. A falta de alimento no ecossistema marinho ou as migrações de cardumes para outras paragens de temperaturas mais a seu gosto serão a justificação para peixe mais escasso, menos suculento ou até com outro paladar, como explica o professor Rui Rosa.

É que à tropicalização dos mares e invasão de predadores soma-se a escalada do dióxido de carbono atmosférico. Antes da Revolução Industrial, os valores oscilavam entre as 200 e as 280 partes por milhão (PPM); hoje, a fasquia superou largamente as 400 PPM, explica, e poderá atingir as 1000 PPM no final do século se nada se fizer. Este excesso reflete-se na superfície oceânica, desencadeando a acidificação das águas e a redução do oxigénio dissolvido. O impacto desta química alterada estende-se diretamente à restauração e ao consumidor, diz o investigador do MARE: “As condições ambientais condicionam, por exemplo, a composição bioquímica dos organismos. Ou seja, questões como o aquecimento, ou mesmo questões ligadas à acidificação, já foi provado cientificamente que alteram a constituição bioquímica dos organismos. Se altera a constituição bioquímica dos organismos, isso vai-se traduzir, por exemplo, nas suas próprias propriedades organoléticas e, portanto, no sabor e coisas associadas a este sentido.”

Correntes oceânicas quentes funcionam como autênticas autoestradas biológicas para espécies tropicais e subtropicais migrarem para norte.

No plano atmosférico e físico, o debate estende-se à estabilidade dos ventos regionais e ao papel determinante do upwelling (afloramento costeiro). Impulsionado pela nortada, este mecanismo de ressurgência faz emergir águas profundas ricas em nutrientes, alimentando a produtividade primária essencial à base das cadeias alimentares. “Se a nortada falhar, não há o surgimento dessas águas profundas com nutrientes, e não promove a produção primária, o plâncton, que é a base das cadeias alimentares”, adverte o especialista, frisando que a ausência de vento pode ser benéfica para o banhista na praia, mas prejudica severamente a dinâmica trófica.

Portanto, se na praia pode saber bem a ausência da Nortada, à hora do jantar, a satisfação com a ementa pode ser bem menor.

E a ideia de que o aquecimento marinho em Portugal constitui uma bênção para o turismo é totalmente desmistificada pelo investigador. Deixando um claro choque de realidade, Rui Rosa conclui: “O aquecimento moderado da água do mar em Portugal, ligado à redução do afloramento costeiro na nossa costa [a tal ausência da Nortada], iria ter graves consequências nas cadeias tróficas marinhas que conhecemos agora e seria trágico. Por exemplo, iria ferir na nossa gastronomia no nosso dia a dia, porque os recursos vivos marinhos que exploramos na nossa costa e que tanto apreciamos estão altamente dependentes destes regimes de ventos. (...) A evidência mostra-nos que a maioria das espécies são perdedoras, e os ecossistemas ficam empobrecidos, e, portanto, um cenário desses não augura nada de bom”, conclui o professor e cientista.

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