Manuel Pinto Coelho defende que a água do mar tratada pode desempenhar um papel relevante como suplemento mineral e instrumento complementar de prevenção em saúde, integrando uma estratégia mais ampla centrada na nutrição, no equilíbrio metabólico e na promoção de estilos de vida saudáveis. Em entrevista ao Diário de Notícias, o médico sustenta que a discussão sobre a composição mineral da água ingerida tem sido negligenciada durante décadas e que a fisiologia humana justifica uma reflexão mais aprofundada sobre o tema. “A água que temos dentro do nosso corpo é água salgada. As lágrimas são salgadas, o suor é salgado. Temos cerca de 9,4 gramas por litro de sal no meio interno. Isto não acontece por acaso”, afirma, defendendo que a hidratação deve ser pensada também em função da qualidade mineral e não apenas da quantidade ingerida.Diz que é muito importante o lançamento de uma água isotónica baseada numa mistura controlada de água do mar com água mineral, concebida para aproximar a sua composição da do meio interno do organismo. “Estamos a falar de uma água com 25% de água do mar e 75% de água mineral, preparada para mimetizar aquilo que temos dentro e fora das nossas células. Não é beber água do mar diretamente”, sublinha. Segundo explica, a proposta assenta na reposição de minerais essenciais frequentemente ausentes em quantidades relevantes na alimentação moderna. “A água do mar contém magnésio, potássio, cálcio, iodo, selénio, zinco e mais de 80 oligoelementos importantes para o funcionamento das células. Estes minerais são fundamentais para a nossa saúde metabólica.”.O médico insiste que se trata de um suplemento alimentar e não de um substituto da água comum. “Não se deve beber mais de meio litro por dia desta água isotónica. Trata-se de complementar a ingestão mineral, não de substituir toda a água que bebemos.” E acrescenta que esta abordagem já é seguida noutros países. “Em Espanha existem oito ou nove marcas disponíveis. Não estamos a falar de algo estranho ou experimental. É uma realidade que já está integrada noutros contextos.”Na sua perspetiva, a discussão sobre a água do mar está ligada a uma reflexão mais ampla sobre o papel do sal no organismo e sobre aquilo que considera ser uma demonização excessiva do seu consumo. “O sal foi demonizado, mas o problema não é o sal integral. O problema é o sal refinado, que é praticamente só cloreto de sódio.” E acrescenta: “A ausência de sal pode ser pior do que o excesso.” Para Manuel Pinto Coelho, os sais integrais contêm dezenas de oligoelementos essenciais e desempenham funções importantes no equilíbrio metabólico e inflamatório do organismo. “Estamos a falar de minerais que participam em processos celulares fundamentais. Não faz sentido ignorar isso.”Estas posições integram-se num discurso que tem gerado controvérsia dentro da comunidade médica e que motivou processos disciplinares na Ordem dos Médicos ao longo dos anos. O médico reconhece esses episódios, mas sublinha que nunca foi sancionado. “Houve investidas contra mim, é verdade, mas ganhei-as todas. A minha folha na Ordem dos Médicos continua imaculada desde 1972”, afirma. Considera que a contestação faz parte do debate científico. “A dúvida é o motor da inteligência. Não pode ser transformada em pecado inexorável.” E acrescenta: “A ciência constrói-se pela contradição. Se ninguém puser em causa o estado atual do conhecimento, o dia de amanhã será igual ao de hoje.”.Recorda ainda que enfrentou críticas por posições públicas sobre colesterol, nutrição e medicina preventiva e entende essas reações como previsíveis. “Sempre soube que este caminho teria de ser feito entre espinhos”, afirma. “A criatividade sempre foi uma ameaça tremenda. Quem pensa diferente incomoda.” Ainda assim, insiste que o objetivo do seu trabalho é abrir debate. “Aquilo que faço com os livros que escrevo é pôr a escrutínio ideias e pôr as pessoas a pensar.”A defesa da água do mar tratada surge, assim, enquadrada numa visão mais ampla sobre a necessidade de alterar o paradigma dominante da medicina. Manuel Pinto Coelho considera que o sistema continua excessivamente centrado na doença e pouco orientado para a promoção da saúde. “Defendo frequentemente que devemos tratar da saúde antes da doença”, afirma. “Mas o paradigma que é aceite e praticado continua a ser um modelo virado para a doença. Espera-se que a pessoa fique doente para depois lhe dar a solução.” Na sua leitura, este modelo mantém-se praticamente inalterado há mais de um século. “Existe um modelo biomédico que foi praticamente imposto há mais de cem anos e que continua sem discussão. A pessoa espera ficar doente para receber tratamento. Não se faz quase nada para evitar que fique doente. Não podemos ficar resignados.”Para o médico, esta abordagem contribui diretamente para o aumento das doenças crónicas. “Hoje 3,9 milhões de portugueses têm uma doença crónica. Isto não é normal. Não pode ser considerado inevitável.”Segundo explica, a origem desta realidade deve ser procurada sobretudo nos estilos de vida contemporâneos. “As pessoas admiram-se muito de ficar doentes. Não têm nada de se admirar. É perfeitamente expectável face ao estilo de vida totalmente anómalo que levam.” E acrescenta: “Há uma ideia distorcida de normalidade na sociedade. Aquilo que hoje é considerado normal é muitas vezes profundamente prejudicial à saúde.”Entre os fatores que identifica como determinantes estão a alimentação, o sedentarismo, o défice de sono e o afastamento progressivo dos ritmos naturais. “Existe a nutrição, existe o exercício físico, existe o sono reparador, existe a gestão do stress, existe a ligação à natureza. Tudo isto são estratégias que ajudam a evitar que a pessoa fique doente”, afirma. Defende por isso que a prevenção deveria ocupar um lugar mais central nas políticas públicas de saúde. “A medicina é uma ciência social. A política é uma medicina em larga escala.”.Uma das críticas mais insistentes dirige-se ao ensino médico, que considera insuficiente no domínio da nutrição. “Se Hipócrates dizia que o alimento é o nosso principal remédio, então o médico devia perceber de alimentação”, afirma. “A verdade é que não percebe, porque não lhe é ensinado.” E acrescenta: “Não há uma cadeira de nutrição nas faculdades de medicina, com raríssimas exceções. Isto é incompreensível.”Na sua perspetiva, esta lacuna contribui para reforçar uma cultura clínica excessivamente dependente da prescrição farmacológica. “A pessoa vai ao médico, sai de lá sem receita e acha estranho. Isto mostra como a medicina ficou dependente do comprimido.” Considera que esta lógica deve ser revista. “Não faz sentido continuar a dar primazia ao comprimido e não investir com a mesma intensidade naquilo que pode evitar que a pessoa fique doente.”Entre os exemplos que aponta como expressão dessa mudança necessária está o consumo de açúcar, que considera particularmente preocupante desde a infância. “O açúcar é provavelmente o alimento mais inflamatório que existe à face da Terra”, afirma. “Aquilo que recompensa o açúcar no cérebro é exatamente o mesmo que recompensa a heroína.” Na sua leitura, a normalização do açúcar como recompensa tem consequências previsíveis a médio prazo. “Os pais e os avós oferecem açúcar como prémio. A criança aprende a gostar e fica agarrada. O resultado é previsível: obesidade, diabetes, síndrome metabólico.”O médico considera que o aumento das doenças crónicas deve ser interpretado como sinal de desequilíbrio ambiental e comportamental. “Hoje temos milhões de pessoas com doenças crónicas. Isto não acontecia há algumas décadas. Temos de perguntar porquê”, afirma. Na sua perspetiva, a resposta está no afastamento progressivo da natureza e na alteração dos hábitos quotidianos. “As pessoas mexem-se menos, dormem pior, alimentam-se de forma diferente e passam menos tempo ao ar livre. Tudo isto tem impacto.”Recorre mesmo a uma comparação histórica para ilustrar a sua leitura da evolução da saúde pública. “No Paleolítico não havia doenças autoimunes, não havia síndrome metabólico, não havia diabetes como temos hoje. Aquilo que nos adoece agora não existia naquela altura.” E acrescenta: “Se a medicina tivesse evoluído como devia, o normal era haver menos doença, não mais.”Apesar da defesa de uma medicina mais preventiva, sublinha que não põe em causa o papel essencial da terapêutica farmacológica em situações agudas. “Os antibióticos salvam vidas. Eu próprio estou aqui hoje porque um antibiótico me salvou a vida depois de uma doença grave”, afirma. Mas considera que a resposta à doença crónica exige outro tipo de intervenção. “Na doença crónica podemos fazer melhor. E fazer melhor significa investir mais naquilo que evita que a doença apareça.”Também em relação ao futuro da medicina, defende que a tecnologia deve ser integrada com prudência e sem substituir a relação clínica direta. “A inteligência artificial pode ser extremamente importante”, afirma. “Mas nada substitui a clínica. Nada substitui o contacto humano.” Para Manuel Pinto Coelho, a transformação necessária passa por recentrar a prática médica na promoção da saúde e na compreensão do terreno biológico do doente. “Temos de voltar a olhar para a saúde antes da doença. Esse é o verdadeiro desafio.”.Saúde Mental. Hormonas e dieta podem ajudar a tratar ansiedade e depressão.Projeto de médicos portugueses quer ensinar crianças a prevenir a hipertensão