O Governo da Guiné-Bissau responsabilizou esta quinta-feira, 23 de abril, as autoridades portuguesas pelos casos de estudantes guineenses retidos no aeroporto de Lisboa, alegando que alguém está a falhar na concessão de vistos.O ministro da Justiça guineense, Carlos Pinto Pereira, manifestou estranheza por as autoridades portuguesas alegarem falta de documentação depois de lhes ter sido concedido visto pela embaixada de Portugal em Bissau.“Se têm visto, deviam poder entrar”, afirmou o ministro, numa conferência de imprensa, em Bissau, transmitida pela imprensa guineense.Desde o início do mês de abril, pelo menos 18 estudantes guineenses ficaram retidos no aeroporto de Lisboa, a maioria dos quais acabou por regressar a Bissau alegadamente por falta da documentação necessária, de acordo com as autoridades portuguesas.De acordo com o ministro da Justiça guineense, estes casos ocorrem sobretudo no chamado regime internacional aberto pelas instituições de ensino superior portuguesas a estudantes de qualquer proveniência e em que são os próprios que conduzem o processo.Carlos Pinto Correia explicou que há dois processos diferentes para os estudantes poderem candidatar-se a frequentar o ensino superior em Portugal, o regime especial e o regime internacional.O regime especial, disse, destina-se sobretudo a países africanos de língua portuguesa e Timor Leste, em que Portugal abre vagas a favor de todos estes países, colocadas à disposição dos governos nacionais que, por sua vez, abrem concurso para estudantes interessados.O ministro guineense acrescentou que, neste regime, os estudantes “concorrem e, se conseguirem colocação, são dadas condições para a obtenção de visto e vai estudar”, ressalvando que “quem paga os estudos são os familiares, o sistema português disponibiliza apenas as vagas, não dá bolsas”.“Neste regime, praticamente não temos notícia de nenhum estudante que tenha sido retido nas fronteiras portuguesas, todos passam, entram na escola e estudam normalmente”, apontou.Os problemas, segundo o ministro, surgem no chamado regime internacional, em que “o Governo da Guiné-Bissau não é tido nem achado”.“Neste regime, cada instituição, cada escola superior portuguesa abre vagas, qualquer estudante de qualquer parte do mundo vai à Internet, candidata-se e é a escola que aprova a candidatura e é o estudante que trata da obtenção do visto”, concretizou.O governante guineense enfatizou que “o processo é todo feito pelo estudante com as autoridades” e considerou que “se alguém tem que assumir alguma responsabilidade são as autoridades portuguesas, as entidades que dão a vaga e a embaixada que dá o visto.“A partir do momento que dá visto, para nós é estranho que chegue [o estudante] ao aeroporto e é barrado, alguém não está a fazer o seu trabalho”, afirmou, considerando a “situação inaceitável” por os estudantes pagarem pelos vistos e depois não poderem entrar em Portugal.O ministro assegurou que “os estudantes têm direito a proteção do Estado guineense”, mas esclareceu que “é bom que as pessoas saibam que o Governo da Guiné-Bissau não é tido nem achado” neste processo.No último fim de semana chegaram a Lisboa dez estudantes em diferentes voos. Cinco voltaram para a Guiné-Bissau e, dos outros cinco, dois já entraram em Portugal e três permanecem no aeroporto, disse esta quinta-feira à Lusa o presidente da associação de estudantes guineenses, Amadu Sabali. O dirigente associativo disse, na quarta-feira, em declarações à Lusa, que o motivo dos atrasos na chegada dos estudantes e na documentação se deve à demora no processo de obtenção de vistos, uma queixa recorrente em Bissau.Amadu Sabali afirmou que a situação dos estudantes no aeroporto “é preocupante” por alegada falta de condições para a higiene pessoal e por causa da alimentação que “nem sempre chega a horas adequadas”.Num esclarecimento enviado à Lusa, a Direção Nacional da PSP confirmou a presença dos cidadãos guineenses na zona internacional do aeroporto de Lisboa por falta de documentação e negou a falta de condições.A Polícia refere que “são asseguradas as condições básicas, nomeadamente alimentação três vezes por dia e acesso a condições de higiene, incluindo banho sempre que solicitado”.