Um milhão em vendas equivale a mais de três mil caixas vendidas num só dia.
Um milhão em vendas equivale a mais de três mil caixas vendidas num só dia. DR

Fármaco para emagrecer supera um milhão de euros em vendas num só dia

Tendência de aumento de vendas já vem desde agosto. Indicado para diabetes e perda de peso, o Mounjaro está sujeito a receita médica, custa várias centenas de euros e não é comparticipado em Portugal.
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A consultora HMR anunciou, no início desta semana, nas redes sociais que “um produto ultrapassou a barreira de um milhão de euros de vendas num único dia nas farmácias portuguesas”, adjetivando este acontecimento de “um feito sem precedentes”. O Diário de Notícias confirmou que o medicamento em questão é o Mounjaro, o nome comercial da tirzepatida, de aplicação injetável e uso semanal. Contactada pelo DN, a HMR não quis fazer comentários sobre o assunto.

Mas ao contrário do que afirma a HMR, esta não terá sido a primeira vez que o Mounjaro, que custa várias centenas de euros por embalagem, entre 180 a 400 euros conforme a dosagem, atinge este volume de vendas. Fonte do setor do medicamento confirmou ao DN que o mesmo valor de um milhão de euros já foi atingido em dois dias do mês de agosto e que valores muito próximos têm vindo a ser registados noutros dias, o que “pode indiciar uma tendência” de que este medicamento estará a ser usado sobretudo para casos de controlo de peso.

Isto porque a substância ativa, tirzepatida, estimula a libertação de insulina, reduz o apetite, aumenta a saciedade e retarda o esvaziamento do estômago. A sua aplicação é feita por via injetável, subcutânea, semanalmente.

Helena Cortez-Pinto, médica gastroenterologista e professora catedrática da Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa, também diz ao DN: “Não me espanta muito que esteja a haver este aumento [de vendas], porque o medicamento é rápido e eficaz”.

A médica explica que, “desde há muito tempo, existe o desejo de as pessoas perderem peso e que estes fármacos levam a uma perda de peso eficaz, que se mantém durante o tempo da toma", acrescentando que também "houve um grande entusiasmo com o semaglutide (outra substância ativa indicada para a diabetes e a perda de peso), mas este tem uma série de efeitos colaterais desagradáveis”.

O Mounjaro, por seu lado, “consegue ter menos efeitos secundários e ser mais eficaz na perda de peso. E as pessoas acabam por achar que vale a pena gastar o dinheiro para poderem perder peso sem sofrerem muito com este processo”, sustenta, sublinhando que “o grande problema das pessoas obesas é que sentem compulsão e sentem dificuldade em travar essa compulsão. O que alguns estudos publicados recentemente mostram é que estes medicamentos conseguem ser muito eficazes nesta redução de compulsão. E não sentir a compulsão é um enorme alívio”.

Mas, alerta, "apesar de ainda não se ter conhecimento de nenhum efeito colateral dramático”, para além de náuseas, vómito ou diarreia, o medicamento não estará isento de riscos. “Para já não há evidências de que cause problemas orgânicos, mas ainda não há tempo suficiente para dizer que não terá efeitos colaterais”. Até porque, a grande questão sobre a administração deste fármaco é que, quando esta é interrompida, a vontade de comer volta”. Ou seja, a “tirzepatida influencia mecanismos de neuro transmissão, assim que deixa de estar presente, o cérebro volta ao mesmo e volta a compulsão”.

Acompanhamento e critério

Todos os medicamentos deste género são sujeitos a receita médica - embora o Mounjaro não seja comparticipado. Ora, para estarem a ser vendidas milhares de caixas por dia, é preciso que muitos médicos o prescrevam. Para Helena Cortez-Pinto, o aumento de vendas deste remédio pode sinalizar que “não está a ser receitado com muito critério. Parece-me que pode estar a ser excessivamente receitado e, possivelmente, muito pela pressão dos próprios doentes. Mas isso fica ao critério de quem está a receitar”, argumenta.

“Parece-me excessivo e não acho que faça sentido haver esta percentagem da população a fazer este tipo fármaco. É um absurdo”, admite. Por outro lado, ressalva ser “verdade que muitas pessoas beneficiam do facto de conseguirem perder peso. E é bom que estes medicamentos venham a ser comparticipados - porque isso reduz também o risco de diabetes, doenças cardiovasculares, entre outras”.

Por isso mesmo, defende que o Mounjaro “continue a ser sujeito a receita médica e que se mantenha a vigilância destas pessoas, até porque no limite estas perdem muito peso, e não perdem só gordura, mas também vitaminas e uma série de substâncias que são necessárias à sobrevivência e que devem ser monitorizadas”, conclui.

Mas associado ao Mounjaro há a questão económica, a médica diz mesmo ficar “espantada por ver pessoas que não têm grande disponibilidade económica, mas com muita vontade de perder peso”, a comprar o fármaco. Note-se que o valor de cada caixa varia, nas farmácias portuguesas, entre os 182 euros, para a caneta de 2,5mg, a dosagem mais baixa, e os 430 euros, para a caneta de 15mg.

Helena Cortez-Pinto salienta ainda que o aumento de consumo do Mounjaro pode estar associado a outro facto: “Hoje em dia há modas, há redes sociais, há o passa-palavra e tudo isto faz aumentar este fenómeno”, conclui em jeito de reflexão.

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