"Franceses têm de parar de tentar dar lições aos outros. Para o mundo voltar a admirar a França"

Brunch com Laurent Goater, bretão a viver em Portugal e candidato a deputado em França.

Os franceses chamam ao tutano l"os à moelle e consideram-no uma iguaria. Ora, L"Os à Moelle é o nome do restaurante francês em Lisboa que Laurent Goater, diretor de uma grande empresa portuguesa e a viver por cá há três décadas, escolheu para a nossa conversa sobre a sua mais recente aventura: tentar ser eleito deputado à assembleia nacional francesa nas legislativas do verão deste ano. Concorre por um dos assentos reservados à diáspora, que representa as comunidades emigrantes francesas de Portugal, Espanha e Andorra. Ah, "e também do principado do Mónaco", faz questão de acrescentar Laurent, que entretanto já me apresentou os compatriotas Éric Charlet, o chef, e Patricia Charlet, a chefe de sala. Um casal de franceses que apostou em Portugal para abrir um restaurante de boa comida, não só da sua Alsácia, mas de toda a França. "Há aquela ideia muito forte de uma França una que vem dos ideais da Revolução de 1789, mas na realidade há muitas Franças e é essa diversidade que dá força ao nosso país", sublinha o meu interlocutor, que sei bem ser bretão, além, claro, de orgulhoso cidadão francês.

Conheço Laurent já há alguns anos e em tempos até cheguei a escrever um perfil sobre este francês que vive entre nós desde 1993, fala um excelente português, é casado com uma portuguesa e tem dois filhos luso-franceses. Vamos falar durante o almoço deste ano eleitoral em França, com presidenciais em abril a antecederem as legislativas, e sei que as comparações com a política portuguesa são muitas, mas relembro que esta conversa é publicada num sábado véspera de eleições por cá, dia de reflexão, e portanto há que respeitar a lei. Concordamos em publicar apenas uma frase sobre a pátria adotiva do candidato de Les Républicains, que servirá até de introdução ao tema das eleições francesas: "Em Portugal, ao contrário de França, ainda se consegue falar de política ao jantar."

No nosso caso, é mesmo ao almoço que falamos da política francesa, nomeadamente da eleição em abril que confirmará ou não Emmanuel Macron para um segundo mandato presidencial. "Eu acredito muito que Valérie Pécresse tem sérias hipóteses de passar à segunda volta e aí derrotar Macron", explica Laurent, referindo-se à até agora presidente da Île de France, região de 12 milhões de habitantes que engloba Paris, candidata presidencial de Les Républicains, a direita clássica francesa, que em tempos foi chamada neogaullista, mas hoje já não pode apostar para cativar o eleitorado nas referências ao general De Gaulle, herói por ter conseguido pôr o país no lado dos vencedores da Segunda Guerra Mundial. "Creio que o partido hoje está mais à direita, como, aliás, a França também", nota Laurent, que diz que as posições políticas se extremaram: "A França está mais à direita do que em 2012 ou 2017. Porque a esquerda está completamente perdida, não representa já as classes populares, representa cada vez mais só uma ideologia universitária muito especial, e havia todo o centro onde Macron foi buscar a sua eleição e que desapareceu. O presidente Macron foi muito culpado disto, pois tentou não tomar posições para não desagradar a ninguém. E na realidade quando não se toma posição num longo período acaba-se por desagradar a todos. Por isso hoje o que as pessoas querem é um candidato ou uma candidata que diga claramente o que quer fazer. Acredito que é Pécresse, claro."

Pausa para os pedidos. Sugiro a Laurent, cliente habitual do L"Os à Moelle, que escolha por ambos: um couvert français para dois, com uma fatia extra de foie gras, é a opção de entrada. Depois, blanquette de vitela branca, servida num tachinho. Para beber, é Patricia que recomenda um tinto, La Reserve Saint Dominique, de 2019, da região chamada Ventoux, nome de uma montanha de quase 2 mil metros de altitude, na Provença-Alpes-Costa Azul, no extremo sudeste do país.

Aproveito para apresentar um pouco melhor Laurent, que nasceu em 1969 em Saint Brieuc, na Bretanha, e que sei que conhece bem Trégastel, a aldeia onde Uderzo e Goscinny se inspiraram para criar Astérix, a partir de pessoas reais, garante. Apesar de admitir ser pouco o bretão que fala, as raízes dizem-lhe muito e por isso a sua ligação à Igreja de São Luís dos Franceses, ao lado do Coliseu dos Recreios e a merecer visita. Fundada no século XVI pelas comunidades francesa e bretã em Lisboa, presta culto não só ao rei que morreu nas Cruzadas, mas também a Santo Ivo, padroeiro da Bretanha.

Formado em Negócios, Laurent estudou em Paris, Boston e San Diego. E Portugal foi um acaso na sua vida, como me contou há cinco anos e agora recupero: "De regresso a França depois dos estudos nos Estados Unidos, tinha de cumprir o serviço militar. E na altura havia uma alternativa para os jovens, que era servir no estrangeiro numa grande empresa francesa. Eu ia para a Rhône Mérieux na Roménia, mas de um dia para o outro mandaram-me para Portugal. Eu nunca tinha posto cá os pés." Foi, contas de cabeça, há 29 anos esse dia em que, após atravessar França e Espanha num Peugeot 405 SRI, entrou em Portugal pela primeira vez. Da indústria farmacêutica passou à da celulose e a par de um percurso profissional de sucesso cedo começou a pensar em construir família em Portugal, até porque entretanto conheceu Luiza, a mãe de José Maria e de Luís.

Além do envolvimento com a Igreja de São Luís dos Franceses, onde gere as contas, toca por vezes como violinista e até canta no grupo coral durante a missa, Laurent é conselheiro da comunidade, um cargo eleito que representa os franceses junto da sua embaixada.

A candidatura agora a deputado nasce da vontade de servir. Mesmo vivendo e trabalhando em Portugal, país que muito elogia, não deixa de se sentir francês e de ambicionar o melhor para a sua pátria. Há cinco anos, votou Macron na segunda volta, contra Marine Le Pen, candidata da extrema-direita, depois de ter visto o seu preferido, François Fillon, um antigo primeiro-ministro, ter falhado a passagem à ronda decisiva. Desta vez, acredita que Les Républicains vão poder obter uma maioria nas legislativas, para apoiar uma presidente saída das suas fileiras e que soube unir o partido, apesar de ter havido duas voltas nas primárias e discursos bem distintos.

"Pécresse convence-me mais do que Fillon porque entretanto a França evoluiu. Foram cinco anos muito duros, e tivemos outra vez de uma certa forma uma desilusão. Hollande foi uma desilusão, Macron, do meu ponto de vista, também. Eu esperava, quando votei Macron na segunda volta em 2017, que ele trouxesse modernidade, que trouxesse boas ideias", sublinha Laurent, que tem má memória da presidência do socialista François Hollande, mas defende o legado de Nicolas Sarkozy, o último chefe de Estado oriundo do seu campo político.

"Eu venho do mundo das empresas e numa empresa quando se mete um CEO, que foi procurado com muita atenção, se lhe deu todos os meios que pediu, e no final de cinco anos a empresa não funciona, as equipas não funcionam, os clientes não gostam de ti, numa empresa dessas a questão não é dizer nós errámos ao escolher o CEO, mas sim admitir que escolhemos o melhor que havia e ele não funcionou e agora é hora de mudar. Nenhum conselho de administração no seu perfeito juízo, confirmando que a coisa não funciona, mantém o CEO. Os franceses têm de mudar obrigatoriamente de presidente, e a mudar tem de ser para melhor", diz, entusiasmado, o candidato a deputado pelo partido Les Républicains, o qual tem acumulado bons resultados nas eleições mais recentes, sobretudo nas regionais de 2021.

O partido macronista La République en Marche! sofre de ter nascido de um só homem, um jovem ministro de Hollande que avançou à revelia do PS, beneficiou da surpreendente não recandidatura do presidente, e conquistou o Eliseu. Laurent diz que Macron continua um homem só por culpa própria, pois "mesmo quando escolhe para ter junto de si alguém como Jean-Yves Le Drian, um bretão, ministro dos Negócios Estrangeiros que foi ministro da Defesa de Hollande e é uma personalidade experiente e respeitada, não lhe permite qualquer visibilidade, pois usa a política externa para se promover tanto para consumo externo como interno. É o que vai acontecer durante esta presidência semestral da União Europeia, que coincide com a campanha".

Entusiasmado, Laurent prossegue com a sua argumentação: "Pécresse é a pessoa que objetivamente tem as competências para gerir melhor França do que os dois casos anteriores. É uma pessoa que já foi ministra, também presidente de uma região que tem mais habitantes do que Portugal. Uma região com problemas enormes de todo o género, complexíssima, transportes públicos insuficientes, bairros problemáticos, insegurança, e ela geriu ao ponto de o anterior presidente da região, que era PS, até apelou a votar nela. É uma pessoa que tem a capacidade de unir e mostrou isso na forma como está a gerir a campanha." Pergunto se ser mulher, e França nunca teve uma presidente apesar da socialista Ségolène Royal e de Marine Le Pen terem chegado a segundas voltas, pode ser uma vantagem neste momento e Laurent, que a conhece pessoalmente, acha que sim, "pois ser mulher em França na política é hoje uma força. As pessoas sabem que neste momento é preciso alguém para unir a França e todos nós reconhecemos, basta olhar para as nossas família, que as mulheres têm mais capacidade de unir do que os homens. Só isso é uma força. Depois, ela tem uma experiência de vida que mostra que é uma combatente. É mais duro para uma mulher do que para um homem o mundo político".

Com a esquerda fragilizada com a crise do PS desde 2017, as presidenciais vão ser muito marcadas pelos resultados da extrema-direita, com Marine, agora do Rassemblement National depois de ser Front National, a ter como rival no seu campo o jornalista Eric Zemmour, o que dificulta a passagem de qualquer um deles à segunda volta. "Há pouco falámos de Michel Houellebecq e de Alain Minc e Minc disse uma coisa gira: vai votar na primeira volta no candidato que tiver menos força entre Macron e Pécresse para garantir que na segunda volta é efetivamente uma escolha entre Macron e Pécresse e já disse que aí ia votar Pécresse. E esse é o interesse da França e dos franceses. Ele reconhece que foi apoiante de Macron mas que não deu resultado."

Houellebecq e Minc tinham entrado na conversa por causa dos livros. No caso do primeiro, tinha comentado com Laurent, que estava a ler Anéantir, o seu mais recente romance, onde se fala de uma campanha presidencial, também de muitos dos problemas da sociedade francesa, e o candidato a deputado concordara que o escritor era bom a fazer o diagnóstico dos males, como alguns políticos também. O desafio era encontrar soluções e que nisso Pécresse é única: "O fenómeno Zemmour mostra bem o que é Marine, uma espécie de refugo de frustrações, e Zemmour acaba por recuperar esse refugo das frustrações, mas agora com uma novidade pessoal. Por outro lado, ao contrário do que fez Macron, tanto Zemmour como Pécresse dizem o que vão fazer. A grande diferença é que Valérie Pécresse tem uma equipa e tem um percurso que mostram que vai fazer o que diz. A tal dama de ferro como escrevi já num artigo do Diário de Notícias. Não há grande dúvida de que aquilo que ela diz que vai fazer, quando diz, já sabe como o vai fazer. E isso não é verdade em Zemmour. Pécresse tem sempre mostrado estar mais do lado da solução do que do lado dos problemas, e os problemas hoje são temas como a imigração que recusa os valores da sociedade francesa, todo o contrário do que foi a excelente integração dos portugueses sem deixarem de ser portugueses, ou o abuso da solidariedade do Estado, gente que se especializou a viver do sistema sem querer trabalhar e que não pode ser confundida com aqueles que precisam mesmo de solidariedade, que nesse caso deve ser incondicional."

Um profiterole de sobremesa, regado com chocolate quente, e um café. Continuo a imitar Laurent. Aproveitamos estar quase no fim do almoço para darmos os parabéns ao casal Charlet. E prosseguimos com o tema de Pécresse e a União Europeia: "É uma europeísta convicta, mas não é uma federalista. Já não há muitos federalistas em França. Quer uma Europa forte, que face à China e aos Estados Unidos diga para o exterior o que quer. Por exemplo, Pécresse quer que ao nível da importação de produtos se olhe para o impacto ambiental e como foram fabricados, porque deixar entrar sem nenhum imposto, sem nenhuma taxa alfandegária, produtos feitos em países que não respeitam o ambiente ou os direitos dos trabalhadores, é errado e mau para a Europa. Ela é também a favor da reindustrialização da França e logo da Europa. E por isso a questão de produzir a custo justo, de modo que não haja uma falsa competitividade que prejudica os países europeus."

Fico a saber que vou reencontrar mais à tarde, naquela quinta-feira, na Fundação Gulbenkian, Laurent, para o concerto que assinala em Lisboa o início da presidência francesa dos 27. E que será seguida da edição de 2022 da Nuit des Idées, que as embaixadas francesas organizam pelo mundo fora. Termino perguntando ao potencial deputado, que tem feito campanha em Portugal e Espanha, como vê a França hoje em termos de ideias: "Continuo a olhar para a França como o país das luzes, um país maravilhoso. Os franceses tiveram, porém, o grande defeito de tentar dar lições ao mundo. Os franceses têm de se deixar disso. Mas, depois, espero que os nossos amigos, os nossos parceiros, olhem para a França novamente como um país que fez muita coisa, onde há muitos recursos, muita exigência e muitos valores e que o mundo pode admirar".

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