As famílias portuguesas de rendimentos médios estão presas numa ‘zona cega’ da proteção social no momento de terem de entregar os seus idosos aos cuidados de uma instituição: sem rendimentos suficientemente baixos para conseguirem vaga rápida na rede pública ou solidária comparticipada, e sem folga financeira para suportarem os custos do setor privado, são forçadas a ultrapassar os seus orçamentos sob forte pressão emocional e urgência temporal.A conclusão resulta do 1.º Barómetro da Procura de Residências Sénior em Portugal, elaborado pela Via Senior e pela BA&N Research Unit, e lançado precisamente esta sexta-feira, 24 de julho, mesmo lançado por estas entidades, e a que o Diário de Notícias (DN) teve acesso em primeira mão. O estudo revela que 52% das famílias com um orçamento mensal até 1500 euros acabam por pagar mais do que previam inicialmente para conseguir uma vaga.Ainda que tais valores possam parecer elevados, a necessidade de recorrer ao mercado privado não surge por preferência, mas por manifesta ausência de alternativas públicas ou sociais. Segundo os dados oficiais da Carta Social do Ministério do Trabalho, Solidariedade e Segurança Social de 2023 – os dados mais recentes disponibilizados –, a taxa de cobertura nacional das Estruturas Residenciais para Pessoas Idosas (ERPI) no setor solidário fixa-se em apenas 8,7% para a população com 75 ou mais anos, apresentando taxas de ocupação superiores a 92% e listas de espera que se arrastam habitualmente por vários anos.Sem uma rede de lares de gestão direta do Estado e com as Instituições Particulares de Solidariedade Social (IPSS) em limite de capacidade, o setor privado transforma-se na única tábua de salvação para as famílias face à perda súbita de autonomia dos seus seniores. “Perante um cenário de famílias em dificuldades e de um Estado sem resposta pública imediata, a nossa preocupação é criar opções para ajudar as famílias a encontrar uma solução adequada e, sobretudo, evitar que muitos idosos permaneçam sem qualquer resposta”, nota Nuno Saraiva de Ponte, CEO da Via Senior, em resposta ao DN no sequência da divulgação do estudo, sublinhando que a falta de capacidade do sistema coloca os agregados numa posição de extrema vulnerabilidade.. Daí que a esmagadora maioria da procura nacional se concentre nos escalões financeiros mais baixos: 90% dos pedidos analisados têm um orçamento máximo de 2000 euros por mês, sendo que o escalão até 1500 euros representa, isoladamente, 49% da procura, seguido pelo intervalo entre 1501 e 2000 euros (41%). Em contraste, os orçamentos superiores a 2500 euros representam apenas 4% do total nacional.A capacidade de manter o plano financeiro inicial aumenta à medida que o rendimento sobe: no escalão entre 1501 e 2000 euros, a percentagem de famílias a ultrapassar o orçamento desce para 32%; entre 2001 e 2500 euros cai para 22%; e nos orçamentos iguais ou superiores a 3001 euros, 98% das colocações são concretizadas estritamente dentro do valor previsto.São dados reveladores coligidos no 1.º Barómetro da Procura de Residências Sénior em Portugal, elaborado pela Via Senior. Uma empresa cuja atividade, concentrada numa plataforma digital, tem por objetivo “dotar as famílias da informação necessária para as suas decisões de vida sénior”, como se lê no próprio estudo. Trata-se da primeira edição deste barómetro porque, pela primeira vez, a entidade optou por analisar o mercado das estruturas residenciais pelo lado de quem as procura e não da oferta existente – perspetiva que vinha acompanhando através da publicação anual do Retrato das Residências Sénior, que no ano passado teve já a sua 4.ª edição.Mas regressando à análise dos dados do novo barómetro, confrontado com o facto de mais de metade das famílias com menos recursos falharem a meta orçamental, o CEO da Via Senior rejeita que os 1500 euros sejam uma fasquia irrealista para o mercado português, mas admite limitações severas.“Há oferta privada de qualidade por valores próximos dos 1500 euros, ou até ligeiramente inferiores. Nestes casos, a solução disponível será normalmente um quarto duplo ou triplo, com uma oferta mais limitada de comodidades e uma localização fora do centro das principais cidades”, explica o responsável ao DN. “Os 1500 euros não são um valor irrealista, mas já não garantem liberdade de escolha.”Embora 1500 a 2000 euros mensais possam parecer, à primeira vista, um teto orçamental razoável para cuidados continuados 24 horas por dia, a realidade socioeconómica torna-os um choque financeiro brutal. Num país onde o salário líquido mediano ronda os 1000€ e a pensão média de velhice dificilmente ultrapassa os 600€, suportar uma mensalidade desta escala absorve por completo a reforma do idoso e exige um sacrifício financeiro pesado por parte dos filhos para cobrir a diferença.Por isso, Nuno Saraiva de Ponte defende que seria necessário uma ajuda do Estado: “Reforça a urgência de Portugal adotar um sistema de apoio direto aos agregados familiares semelhante ao já testado e em funcionamento em Espanha, a Prestación Económica Vinculada al Servicio (PEVS)”.A solução do Cheque Sénior para resgatar as famíliasPerante um Estado sem resposta pública imediata e listas de espera que se arrastam por anos no setor solidário, a Via Senior defende a adoção em Portugal de um modelo de apoio direto aos agregados familiares inspirado na PEVS, já em vigor em Espanha no âmbito da Lei da Dependência.O modelo do Cheque Sénior funcionaria como uma comparticipação financeira atribuída diretamente à família, variando consoante os rendimentos do agregado, o grau de dependência do idoso e o custo da residência privada escolhida. “Seria uma medida socialmente mais justa, uma vez que o apoio seria dirigido aos agregados familiares com menores recursos e com idosos em situação de dependência”, defende Nuno Saraiva de Ponte. “Em segundo lugar, permitiria reduzir a demora na atribuição de vagas comparticipadas. Em vez de ficarem meses e anos à espera por uma resposta, as famílias elegíveis receberiam uma comparticipação que as ajudaria a suportar a mensalidade.”Sobre o risco de a subsidiação provocar uma subida inflacionária das mensalidades privadas, o gestor aponta o caso espanhol: “Este modelo já foi testado e encontra-se em pleno funcionamento em Espanha, onde existem mecanismos de monitorização, fiscalização e regras claras de atribuição”, vincando que, a médio prazo, a medida “poderia estimular o reforço da oferta e aumentar a concorrência entre os operadores”.Decisões limite e uma ‘almofada’ do SNSO barómetro traça igualmente um retrato de decisões tomadas no limite da capacidade das famílias, quando já não é mesmo comportável assegurar pessoalmente o cuidado dos seus idosos. Metade das colocações (50%) é concretizada no prazo máximo de 15 dias e 87% ocorre no espaço de um mês. Além disso, a procura é esmagadoramente definitiva: 88% dos pedidos visa uma solução permanente, enquanto apenas 12% procura estadas temporárias.Esta urgência decorre do facto de a procura surgir quando o domicílio deixa de ser viável devido à perda de autonomia. 78% dos idosos apresentam limitações funcionais – 61% são semidependentes e 17% totalmente dependentes –, enquanto os autónomos representam apenas 22%.Esta elevada taxa de dependência revela que a transição para uma estrutura residencial ocorre num momento de grande vulnerabilidade clínica. O que faz sobressair o papel preventivo da institucionalização privada face ao Serviço Nacional de Saúde: o ‘internamento’ em lares e residências garante o apoio clínico e de enfermagem permanente, que atua como uma almofada do SNS, prevenindo acidentes domiciliários, quedas e complicações que, de outro modo, levariam ao recurso recorrente e desnecessário às urgências hospitalares.Decisão urgente e exaustão da Geração SanduícheSendo um processo de entrada em residências habitualmente espoletado já em fase crítica das aptidões físicas do idoso, a responsabilidade recai maioritariamente sobre os ombros da chamada Geração Sanduíche – adultos maioritariamente entre os 45 e os 65 anos sob forte exaustão física e emocional, que acumulam a exigência das suas carreiras profissionais, com o apoio aos próprios filhos e a gestão súbita e dolorosa da perda de autonomia dos pais idosos.Os dados deste 1.º Barómetro da Procura de Residências Sénior confirmam este desgaste informal: 60% dos contactos são iniciados pelos filhos e 10% por genros ou noras (somando 70% da rede familiar direta). Os netos representam 8%, enquanto apenas 4% dos pedidos partem do próprio idoso. “Os resultados agora obtidos neste barómetro revelam que a procura de uma residência para um familiar idoso é cada vez mais marcada por três fatores: a urgência, a perda de autonomia e a capacidade financeira limitada das famílias”, sublinha Nuno Saraiva de Ponte.. O responsável detalha que “a necessidade mais urgente surge na sequência de um episódio concreto, como um acidente, uma queda, um AVC ou uma alteração da vida familiar”, o que deixa as famílias, já esgotadas, com uma margem de manobra quase nula para gerir o processo sem entrar em rutura.Num país em acelerado envelhecimento demográfico, o retrato desenhado pelo barómetro deixa evidente que a dependência na velhice deixou de ser um mero sobressalto privado gerido portas adentro. Sem uma revisão profunda das respostas sociais públicas ou o aparecimento de novos mecanismos de incentivo e comparticipação direta às famílias, a ‘zona cega’ da classe média continuará a expandir-se, empurrando milhares de cuidadores para o limite da rotura financeira e emocional..Síntese de dadosQUEM PROCURA: 60% dos contactos são feitos por filhos, chegando a 70% se somados genros e noras;4% das iniciativas partem do próprio idoso.QUEM É O UTENTE: 63% são mulheres;37% são homens;86% dos utentes têm 75 ou mais anos;44% têm entre 85 e 94 anos.AUTONOMIA: 61% estão em semidependência;17% são totalmente dependentes;22% mantêm autonomia.GEOGRAFIA DA PROCURA: 75% dos pedidos concentram-se em apenas três distritos da faixa litoral urbana:— 49% Lisboa— 14% Porto— 12% SetúbalTEMPO E TIPO DE RESPOSTA: 88% procura uma solução permanente;50% das colocações fica concluída em 15 dias;87% das colocações conclui-se em menos de um mês.CAPACIDADE FINANCEIRA vs. REALIDADE:49% das famílias fixam o orçamento inicial até 1500€;41% das famílias estão dispostas a pagar entre 1501€ e 2000€;90% das famílias (a soma dos dois escalões acima indicados) acabam por pagar um valor superior ao pretendido, até um máximo de 2000€ para garantir vaga.TAXA DE DESVIO FACE AO ORÇAMENTO: 52% das famílias que pretendiam pagar até 1500€ são obrigadas a gastar mais;32% das famílias que queriam pagar 1501€-2000€ superam o orçamento2% das famílias dispostas a pagar mais de 3000€ acabam por pagar mais por uma vagaMÉTODO:"O 1.º Barómetro da Procura de Residências Sénior foi elaborado com base na análise dos pedidos de procura e das colocações registados pela Via Senior ao longo de 2025, a partir da informação existente na respetiva base de dados interna. Os dados foram tratados pela BA&N Research Unit de forma agregada e anonimizada, com o objetivo de identificar tendências, perfis predominantes e padrões de procura por estruturas residenciais para pessoas idosas em Portugal.".Portugal sem vagas para idosos: 70% dos lares com lotação esgotada. Preços médios superam os 1900€.Instituições querem 1700 euros mensais por cada caso social retirado dos hospitais