63% dos residentes permanecem nos lares entre um a cinco anos e 33,6% ficam entre cinco a dez anos.
63% dos residentes permanecem nos lares entre um a cinco anos e 33,6% ficam entre cinco a dez anos.Arquivo DN

Portugal sem vagas para idosos: 70% dos lares com lotação esgotada. Preços médios superam os 1900€

Portugal lidera o envelhecimento europeu. Entre a baixa rotatividade e a procura estrangeira, o cuidado digno da 3.ª idade tornou-se um luxo inacessível à classe média e aos pensionistas.
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O setor das residências para idosos em Portugal atingiu um ponto de rutura. Um novo estudo revela que mais de dois terços das unidades estão totalmente lotadas, empurrando os preços para valores recorde e deixando as famílias em listas de espera que podem superar os seis meses.

De acordo com os dados do 4.º Retrato das Residências Sénior em Portugal, um estudo exaustivo realizado pela Via Sénior em parceria com a BA&N Research Unit, o número de unidades ERPI (Estrutura Residencial para Pessoas Idosas) sem qualquer vaga disponível subiu para 70% em 2025.

O documento, que analisa cerca de 45% das camas privadas no país, traça um cenário de pressão extrema sobre a rede, na qual a disponibilidade real é agora residual: apenas 8% das residências declaram ter alguma folga na ocupação.

Preços em escalada: mediana já atinge os 2000€

A pressão da procura sobre uma oferta estagnada fez disparar os custos. Cerca de 84,5% das residências aumentaram as mensalidades no último ano, com 38% das unidades a aplicarem subidas entre os 2,5% e os 5%. Atualmente, o valor médio ponderado para um quarto individual fixa-se nos 1921€ por mês (mais 246€ que em 2024), mas o valor mediano já atingiu a barreira dos 2.000€. Para quem procura opções em quarto duplo, o valor médio é de 1717€, enquanto a tipologia mais económica — o quarto triplo — apresenta uma média de 1482€, valores que permanecem fora do alcance da maioria das pensões nacionais.

Este cenário torna-se ainda mais asfixiante quando confrontado com a realidade dos rendimentos em Portugal. Com um salário médio líquido nacional que mal atinge os 1500€ e uma pensão de reforma que, para grande parte dos reformados, oscila entre os 600€ e os 900€, o custo de uma residência sénior absorve — ou ultrapassa — a totalidade dos rendimentos de um agregado comum.

Para muitas famílias, a manutenção de um idoso nestas condições é um esforço financeiro impossível, restando como única alternativa o cuidado doméstico. Esta solução, contudo, gera um novo ciclo de precariedade, ao revelar-se frequentemente incompatível com as exigências da vida profissional dos cuidadores, forçando escolhas dramáticas entre a estabilidade do emprego e o acompanhamento digno dos seus familiares.

Com a reforma ou o salário médios em Portugal, um residência é um luxo inatingível.
Com a reforma ou o salário médios em Portugal, um residência é um luxo inatingível.Arquivo DN

A dificuldade das famílias não se resume ao preço. Quase 70% das instituições têm listas de espera ativas. Se em 36% dos casos o tempo de espera ultrapassa os seis meses, existe uma fatia preocupante de 19% das unidades onde o prazo é classificado como "muito indefinido". Esta estagnação explica-se pela longevidade e baixa rotatividade: 63% dos residentes permanecem entre um a cinco anos e 33,6% ficam entre cinco a dez anos. O perfil é de idades muito avançadas, com mais de metade dos utentes (52,7%) na faixa dos 86 aos 90 anos, exigindo cuidados permanentes e especializados.

O pódio do envelhecimento e o "abandono" estatal

Portugal não enfrenta apenas um problema de gestão, mas uma crise demográfica de escala europeia. O país consolidou-se como o segundo mais envelhecido da União Europeia, com 24,3% da população acima dos 65 anos, apenas atrás de Itália (24,75%).

Contudo, a resposta estrutural é deficitária: Portugal dispõe de apenas quatro camas por cada 100 idosos, um rácio drasticamente inferior ao de países como Países Baixos, Suécia ou Bélgica.

O mercado nacional é composto por cerca de 2700 residências que gerem mais de 105.000 camas, sendo que mais de metade das unidades (52%) apresenta uma dimensão superior a 30 camas.

Esta escassez é agravada pelo que os dados sugerem ser um "abandono" estatal do setor privado: apenas 9,1% das unidades inquiridas possuem algum tipo de acordo ou apoio do Estado. Com um rácio de dependência de 38,6% — o que significa menos de três pessoas em idade ativa para cada idoso —, a sustentabilidade do modelo atual está sob ameaça direta.

A nova face do setor: internacionalização e tecnologia

A par das barreiras para os portugueses, o país continua a ser um destino de eleição externo, ocupando o topo do Relatório Global de Reforma 2025, do Eurostat. Atualmente, 33,5% das residências já acolhem estrangeiros. Embora representem apenas 4,4% do total de utentes, estes residentes possuem uma capacidade financeira superior, ajudando a sustentar a operação de unidades que, em média, empregam 28,36 trabalhadores permanentes.

A resposta estrutural é deficitária: Portugal dispõe de apenas quatro camas por cada 100 idosos.

Para compensar o aumento de custos, o setor aposta na digitalização em 85% das unidades, com um foco muito claro na segurança e na saúde dos residentes. Neste âmbito, cerca de 84,5% das instituições oferecem sistemas de videochamada para contacto familiar, enquanto 68,2% já dispõem de botões de emergência e 64,5% utilizam plataformas de telemedicina e de estimulação cognitiva.

No entanto, o reforço tecnológico contrasta com a presença física médica: embora 96,4% tenham médico, em 75,5% dos casos este profissional apenas está disponível uma vez por semana, evidenciando que a resposta clínica ainda assenta fortemente na enfermagem (presente em 99% das casas) e na monitorização remota.

Dados complementares: radiografia de um mercado sob pressão

Para lá dos grandes números, o 4.º Retrato das Residências Sénior em Portugal (realizado entre dezembro de 2025 e janeiro de 2026) permite traçar contornos mais precisos sobre o funcionamento interno destas instituições. O mercado nacional é composto por cerca de 2700 residências que gerem mais de 105.000 camas, sendo que mais de metade das unidades (52%) apresenta uma dimensão superior a 30 camas.

No que toca à equipa multidisciplinar, os dados revelam disparidades nos serviços especializados. Enquanto a cobertura de fisioterapia atinge os 74,5%, os nutricionistas estão presentes em apenas cerca de 25% das instituições. A presença médica é outro ponto de análise: apenas 6% das residências contam com médicos em permanência, confirmando que a maioria das unidades recorre a visitas pontuais.

Portugal consolidou-se como o segundo mais envelhecido da União Europeia, com 24,3% da população acima dos 65 anos, apenas atrás de Itália (24,75%).

Apesar das dificuldades financeiras e de ocupação, existe uma vontade de crescimento no setor privado. Cerca de 17% das unidades inquiridas revelaram planos para contratar novos profissionais em 2026, sinalizando uma tentativa de resposta ao aumento da complexidade dos cuidados exigidos por residentes cada vez mais longevos.

Este estudo é uma iniciativa da Via Sénior, uma plataforma digital que monitoriza o alojamento sénior em Portugal e Espanha. O serviço, gratuito para as famílias, foca-se em reduzir a opacidade do mercado, permitindo saber preços à partida e traçando perfis clínicos personalizados para agilizar um processo de seleção que, como os dados provam, se tornou um dos maiores desafios sociais da atualidade.

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