Com a lista nacional a não responder às necessidades de professores nas escolas e a não aceitação de horários em concurso de Contratação Escolas (publicados numa plataforma quando ninguém na lista nacional aceita o horário), os diretores escolares tentam de várias formas conseguir diminuir o número de alunos sem aulas. Esgotada a possibilidade de atribuição de horas-extra aos docentes do agrupamento, o DN sabe que muitos responsáveis têm tentado, por exemplo, contactar docentes que já deram aulas nesses agrupamentos, na esperança de que não tenham horário completo nas escolas onde estão a lecionar e possam acumular horas nesses estabelecimentos.Susana, docente do Grupo 200 (Português/História e Geografia de Portugal, de 2.º ciclo), já foi contactada três vezes este ano letivo. “Algumas escolas ligaram para saber se podia aceitar umas horas, porque os alunos estavam há muito tempo sem aulas. Como tenho horário completo e já estou com horas-extra atribuídas na escola onde estou a lecionar, não pude aceitar”, conta.Filinto Lima, presidente da Associação Nacional de Diretores de Agrupamentos e Escolas Públicas (ANDAEP), admite que esta situação aconteça porque “os diretores, querendo o melhor para os alunos, fazem tudo o que está ao seu alcance para resolver o problema”. “A lista nacional não responde às necessidades, os contratos de escolas vão para a plataforma e já não cativam os professores. Na tentativa de os alunos terem as aulas, podem contactar professores que conhecem para acumular horas, até porque pode escapar a publicação do horário na plataforma. Neste momento, é a lei da oferta e da procura, temos muita oferta e pouca procura”, explica ao DN.Estas medidas de desespero não se restringem às direções das escolas. Nos grupos de professores nas redes sociais multiplicam-se posts de docentes a apelar para que algum colega se candidate a horários nas escolas onde estão a lecionar. “Algum professor de Educação Especial disposto a aceitar vaga em oferta de escola para Gaia? Horário bom e completo” ou “venho informar que há um horário completo para me substituir, neste momento encontro-me de baixa médica até ao final do ano letivo”, são alguns dos exemplos dos apelos que se podem ler no grupo de Facebook “Professores Contratados”. Filinto Lima entende que esses apelos mostram que os professores também estão preocupados com os alunos das suas escolas, sendo “positivas essas partilhas nas redes”. Para Arlindo Ferreira, diretor do Agrupamento de Escolas Cego do Maio, Póvoa de Varzim, e autor do blogue ArLindo (dedicado à Educação) estes apelos mostram o “desespero” provocado pela escalada da falta de professores, algo que seria “impensável acontecer há uns anos quando havia milhares de professores sem colocação”. “Vejo esses apelos nas redes sociais com frequência e entendo os diretores que contactam professores. Eu ainda não precisei de o fazer, mas se tiver necessidade também o farei”, sublinha.O diretor escolar acredita que “as coisas vão piorar porque já se sente o efeito da falta de professores em todo o país, já não se trata apenas da zona Sul”. Por isso, refere, a solução só pode passar pela “valorização da carreira e o aumento do vencimento dos professores para atrair jovens para a carreira”. “Há um atraso de dez anos em relação à formação de novos professores. Precisamos de jovens e, para os atrair, tem de se apostar no vencimento. Comparativamente com outras profissões, o salário de professor é dos mais mal pagos e com muitos sacrifícios para os deslocados”, afirma.Opinião partilhada com Filinto Lima, para quem o fator salarial “é a questão central”. “O vencimento dos professores é muito baixo tendo em conta a enorme responsabilidade que é ensinar. Para cativar jovens e evitar a saída dos que já estão no sistema, é preciso aumentar os salários em todos os escalões, diminuir a burocracia e a indisciplina e alterar a avaliação docente”, garante.Cristina Mota, porta-voz da Missão Escola Pública - um movimento apartidário de professores - também não tem dúvidas: “Estes apelos de diretores e professores vão continuar porque o problema vai agravar-se ainda mais”. “Temos conhecimento desses apelos dos diretores e também dos docentes nas redes sociais, até por parte de colegas de colégios privados. Tem havido divulgação de horários nas redes e são os próprios professores que tentam arranjar docentes para as suas escolas”, conta.Esta profissional percebe a preocupação dos colegas que “sabem que, se saírem, os alunos não vão ter aulas”, tratando-se de um receio que “leva a tentar encontrar todas as soluções possíveis”. Cristina Mota partilha ainda um caso peculiar de “uma encarregada de educação de um aluno de uma escola na Margem Sul do Tejo que, perante a falta longa de um professor de Matemática, contactou a direção para se disponibilizar para dar aulas porque tinha habilitação própria para o ensino da disciplina”.A porta-voz da MEP reitera as falhas no combate à escassez de professores, “feita pelo Governo com remendos e sem mudanças estruturais”. “As medidas não estão a surtir efeito. Continuamos a dizer que enquanto não houver investimento na carreira o problema vai agravar. Começa-se a considerar normal um aluno não ter aulas a uma ou duas disciplinas e essa normalização também vai agravar o problema. Já ouvimos pais a dizer que está tudo bem porque na turma do filho só falta um professor”, lamenta. .Alunos sem professores aumentaram para mais de 158 mil em janeiro, diz Fenprof.Concurso extraordinário: maioria dos professores colocados não são novos no sistema e já estavam a dar aulas