O problema “grave” de escassez de professores, normalmente mais crítico na zona Sul do país, alastrou-se a todo o território. Quem o garante é a Missão Escola Pública (MEP), um movimento apartidário de professores, que promoveu um inquérito aos diretores escolares (entre os dias 9 de dezembro e 4 de janeiro), com o objetivo de realizar um balanço do primeiro período/trimestre de aulasO inquérito visou recolher dados sobre “horários sem professor, medidas adotadas para responder a estas situações, condicionalismos sentidos no exercício do cargo de diretor e igualmente informação relativa às condições de inclusão educativa, a qual será objeto de análise específica posterior”. A amostra conta com 222 agrupamentos e escolas não agrupadas, distribuídos pelos 18 distritos do país, correspondendo a mais de 25% do total nacional (809 agrupamentos e escolas).No documento, o movimento indica que cerca de 70% dos diretores (154 respostas) referem que tiveram horários sem professor atribuído por mais de uma semana e 41% (92 respostas) referem ter tido pelo menos um horário sem professor durante mais de um mês. A MEP adianta também que 34% dos diretores (74 respostas) confirma ter tido pelo menos um horário sem professor durante todo o primeiro período. Há agrupamentos que indicam ter tido mais de dez horários sem professor atribuído durante todo o período, segundo o inquérito..Cristina Mota, porta-voz da MEP, teme que as qualificações exigidas para dar aulas venham a baixar em breve, “conduzindo à desvalorização da classe”.. “A análise por região confirma que a escassez de professores continua a ter maior expressão nas zonas já identificadas como mais problemáticas, nomeadamente Lisboa e Vale do Tejo e o Algarve. Contudo, os dados evidenciam de forma clara que o problema já não se restringe a estas regiões e encontra-se em franca disseminação territorial”, pode ler-se num comunicado. A MEP destaca, em particular, a região Centro, “onde 36% dos agrupamentos reporta ter tido pelo menos um horário sem professor durante todo o primeiro período”, um valor, afirmam, “que evidencia a extensão do problema a territórios que, até há poucos anos, não surgiam como prioritários neste indicador”. Já em Lisboa e Vale do Tejo, 40,6% dos agrupamentos reporta situações idênticas, seguindo-se o Algarve, com 50,0%, e o Alentejo, com 28,6%. “Mesmo no Norte, região que continua a apresentar menor incidência relativa, 22,1% dos agrupamentos indica ter tido disciplinas sem professor durante todo o período”, pode ler-se.Condicionamentos na avaliação e transição de ano para milhares de alunosEm declarações ao DN, Cristina Mota, porta-voz da MEP, mostra preocupação com as consequências da escalada do problema na avaliação dos alunos. “Verificamos também que existem milhares de alunos que poderão ter a avaliação e consequente transição de ano condicionada por falta de professor. Isto acontece no primeiro e restantes ciclos”, afirma. A legislação permite que um aluno não tenha avaliação numa ou mais disciplinas durante apenas um trimestre, não podendo terminar dois trimestres consecutivos sem avaliação.“Contudo, milhares de alunos iniciaram o segundo período sem terem tido uma única aula a pelo menos uma disciplina, por falta de professor, num contexto que tende a agravar-se após as 313 aposentações em janeiro e as 287 em fevereiro”, denuncia o movimento. Perante este cenário “torna-se inevitável questionar como será assegurada a avaliação destes alunos no final do ano letivo, caso continuem sem professor”.Os grupos de recrutamento mais afetados são o 1.º ciclo (31%), seguindo-se Educação Especial (25%), Português (22%), Informática (20%), Inglês (11%), Matemática (10%), Francês (8%), História (7%) e Geografia (7%). “No que respeita ao 1.º ciclo, verificamos que 14% dos diretores (31 respostas) refere que teve turmas sem professor atribuído, o que é bastante relevante tendo em conta que a não atribuição de professor a estes alunos poderá implicar ficarem sem qualquer aula”, adverte.Para Cristina Mota, “a questão do 1.ºciclo é particularmente preocupante”. A porta-voz da MEP teme que as qualificações exigidas para dar aulas venham a baixar em breve, “conduzindo à desvalorização da classe”.O movimento defende que as medidas implementadas pelo Governo para fazer face à escassez de docentes não estão a surtir efeito desejado, “limitando-se a mitigar os seus efeitos imediatos”. A MEP vai mais longe e considera mesmo que querer usar “truques demagógicos” para esconder a real dimensão do problema configura “um crime contra as gerações futuras”.