Os dados da Direção-Geral de Estatísticas da Educação e Ciência (DGEEC) são esclarecedores: no ano letivo 2024/2025, Portugal tinha 98.200 alunos com medidas de suporte à aprendizagem e à inclusão, mais 29% do que há uma década. Para responder às necessidades específicas destes alunos, o sistema dispõe de menos de 8.000 docentes de Educação Especial. Ou seja, uma média de 12 alunos para cada aluno.Há, também, falhas de recursos humanos nas áreas da psicologia, terapia da fala, terapia ocupacional, entre outras. Alertas que têm sido reiterados por parte de associações, professores e diretores escolares. Filinto Lima, presidente da Associação Nacional de Diretores de Agrupamentos e Escolas Públicas, é uma das vozes mais ativas neste contexto, referindo-se ao Ensino Especial como “o parente pobre da Educação”.Estas dificuldades de resposta por parte do sistema têm levado cada vez mais famílias a procurar apoios no setor privado, com consequências financeiras significativas. Só num centro de referência em Braga - a SalusLive - a procura por apoio em Educação Especial cresceu de forma expressiva em cinco anos, obrigando ao reforço da equipa especializada.“Cada vez mais famílias pagam apoio externo enquanto aguardam avaliações ou medidas, para não perder janelas críticas de intervenção”, refere o centro pediátrico, em comunicado enviado ao DN. A SalusLive afirma que “a falta de recursos nas escolas deixa milhares de crianças sem resposta adequada”. Estes atrasos na resposta educativa, acrescenta, “geram ansiedade, desgaste emocional e custos financeiros elevados para os pais”.Para Andreia Leal, diretora técnica da área lúdico-pedagógica da SalusLive, o aumento da procura deve-se às falhas na resposta por parte das escolas, mas também à maior consciencialização por parte das famílias que, “estão mais atentas aos sinais de alerta e procuram ajuda mais cedo”. “Este aumento também revela uma realidade que não podemos ignorar: muitas crianças continuam sem acesso atempado às respostas de que necessitam. As famílias estão mais informadas, identificam mais cedo os sinais de alerta e procuram ajuda, mas encontram frequentemente tempos de espera prolongados para avaliação e intervenção”, sublinha. A responsável adianta ainda ao DN que o centro observa, diariamente, que “muitas crianças chegam aos serviços especializados porque os pais sentem que não podem esperar mais”. “Isto demonstra que existe uma necessidade crescente de reforçar a capacidade de resposta dos sistemas educativo e de saúde”, afirma. Respostas que tardam e deixam as famílias sem soluções, tendo de recorrer a um esforço financeiro para conseguir as terapias necessárias para os filhos. E o impacto é “muito significativo”. “Do ponto de vista financeiro, o esforço pode ser enorme. Uma avaliação multidisciplinar e um plano terapêutico regular representam um investimento considerável para muitas famílias. Quando são necessárias várias terapias por semana, os custos acumulam-se rapidamente, tornando-se difíceis de suportar durante meses ou anos”, explica Andreia Leal. Há ainda consequências do ponto de vista emocional: “pais ansiosos, preocupados, culpabilizados e, muitas vezes, exaustos pela necessidade constante de procurar soluções para os seus filhos”. Além dos custos diretos, acrescenta, “existem também custos indiretos e um desgaste considerável associado à gestão diária de consultas, terapias, deslocações, reuniões escolares e adaptações familiares”.A falta de recursos nas escolas provoca, segundo a diretora técnica, uma desigualdade entre quem pode pagar e quem não consegue fazer face a despesas para ajudar os filhos. “Embora existam profissionais e serviços públicos de enorme qualidade, a realidade é que o acesso continua a ser desigual”, lamenta. Quando uma família tem capacidade financeira para recorrer rapidamente a avaliações e terapias privadas, consegue iniciar a intervenção mais cedo e com maior intensidade. “Quando essa possibilidade não existe, essas crianças ficam dependentes de respostas que nem sempre chegam no tempo desejável ou com a frequência adequada”, salienta. Andreia Leal não tem dúvidas que há uma falha, quando deveria garantir que todas elas, “independentemente da condição socioeconómica da família, tivessem acesso aos apoios necessários no momento em que deles precisam”.Falhas fazer perder “janelas críticas de intervenção”Andreia Leal mostra especial preocupação na falta de respostas atempadas para as crianças com necessidades específicas, pois, em muitos casos, perdem-se as “janelas críticas de intervenção”. “Os primeiros anos de vida representam um período de enorme plasticidade cerebral e capacidade de aprendizagem. É precisamente por isso que falamos de janelas críticas de intervenção. Quando uma criança não recebe apoio atempadamente, perde-se uma oportunidade valiosa de potenciar competências numa fase em que o impacto da intervenção pode ser maior”, explica. Na prática, refere, “aquilo que muitas famílias sentem é que cada mês de espera conta”. “Quanto mais cedo a intervenção acontece, maiores são as possibilidades de promover o desenvolvimento e prevenir dificuldades futuras”, conclui.Para o centro pediátrico, “uma escola verdadeiramente inclusiva é aquela que responde às necessidades de cada criança no momento certo - e não apenas das crianças cujas famílias têm meios para procurar apoio fora dela”..Alunos passam 38 horas na escola. Especialistas alertam para impacto na saúde mental.Falta de professores provoca “desequilíbrio” na preparação de alunos para os exames