Alfeu Sá Marques, antigo professor da Universidade de Coimbra e ex-presidente das Águas de Coimbra, considera que Portugal está a pagar décadas de erros no ordenamento do território e na gestão dos rios. Aos 72 anos, com larga experiência no estudo do rio Mondego e das cheias em Coimbra, o engenheiro defende que, sem mudanças estruturais, o risco de inundações irá aumentar nas próximas décadas.Segundo o especialista, o ordenamento dos rios não pode ser dissociado do ordenamento do território. “Enquanto não nos preocuparmos seriamente com a ocupação do solo, não conseguimos resolver o problema das cheias”, afirmou, sublinhando que a desertificação do mundo rural, o abandono da pastorícia e da floresta e o aumento dos incêndios florestais alteraram profundamente o comportamento hidrológico das bacias.Alfeu Sá Marques recorda que o aproveitamento hidroelétrico do Mondego, concluído em 1982, funcionou eficazmente durante quase 20 anos. “Entre 1982 e 2000 praticamente não houve cheias significativas no Mondego. O sistema estava bem concebido e bem operado”, explicou..Para o engenheiro, o que mudou não foi apenas o clima. Embora reconheça a influência das alterações climáticas, considera que o fator determinante foi a ocupação desordenada do território e a perda de capacidade de retenção natural do solo. A ausência prolongada de cheias criou ainda uma falsa sensação de segurança, levando à construção em zonas ribeirinhas de risco. “Todos gostaríamos de ter uma casa à beira do rio, mas não temos cultura de risco”, alertou.Defensor assumido da construção de novas barragens, Alfeu Sá Marques considera que estas são fundamentais para mitigar tanto cheias como períodos de seca. “Sempre houve anos de muita precipitação e anos de seca. A forma de gerir isso é armazenar água quando chove mais e utilizá-la quando chove menos”, afirmou, recorrendo à metáfora dos camelos que atravessam o deserto com reservas.O engenheiro destacou o exemplo do Alqueva, que, apesar das críticas iniciais, encheu em poucos anos e transformou profundamente o Alentejo. “Dizia-se que nunca iria encher. Em dois ou três anos estava cheio”, lembrou..No caso específico do Mondego, Alfeu Sá Marques considera que a barragem da Aguieira, apesar de essencial, não é suficiente para proteger Coimbra e o Baixo Mondego. Defende há quase 30 anos a construção da barragem de Girabolhos, recentemente anunciada pelo Governo como avançando finalmente.Segundo o engenheiro, Girabolhos teria uma albufeira com cerca de dois terços da capacidade da Aguieira, permitindo uma gestão muito mais eficaz dos caudais em períodos de cheia. “Sem Girabolhos, a Aguieira tem de ser gerida com enorme cautela, porque se estiver demasiado cheia no inverno perde capacidade de encaixe”, explicou.O projeto chegou a estar concessionado à Endesa, no âmbito de um plano nacional de aproveitamento hidroelétrico, mas foi travado por razões ambientais aquando da formação do Governo liderado por António Costa. “Se tivesse avançado na altura, teria sido feito praticamente a custo zero para o Estado. Agora vai custar entre 200 e 300 milhões de euros”, lamentou..Outro fator crítico apontado pelo especialista é a sedimentação do leito do rio, em particular na zona do açude-ponte de Coimbra, que reduz a capacidade de escoamento e aumenta a frequência das inundações. A isto soma-se, segundo o engenheiro, uma crónica falta de manutenção das infraestruturas hidráulicas em Portugal.“Construímos, mas não somos bons a planear a conservação. Quando há dinheiro, fazem-se obras; depois falta verba para manter”, criticou, comparando a situação com a degradação acelerada das construções modernas.Relativamente à atual subida do caudal do Mondego, Alfeu Sá Marques considera que a situação tem sido bem gerida pelas autoridades, nomeadamente pela Agência Portuguesa do Ambiente e pela Proteção Civil. A rotura do dique fusível no Baixo Mondego, explicou, ocorreu exatamente como previsto nos cenários de segurança.“O sistema funcionou como devia funcionar”, afirmou, estimando que o caudal máximo em Coimbra dificilmente ultrapassará os 1.600 metros cúbicos por segundo, um valor elevado, mas longe de um cenário catastrófico. Ainda assim, deixou um aviso claro: sem Girabolhos e sem mudanças no ordenamento do território, o risco estrutural mantém-se.O antigo professor sublinhou a importância da comunicação científica com a sociedade. “Uma das razões pelas quais os cidadãos pagam às universidades é para que o conhecimento seja explicado às pessoas”, afirmou. .Ativado plano de emergência para cheias em Coimbra.Mau tempo. Coimbra pede evacuação das localidades entre Bencanta e Ameal.Cheias nas zonas ribeirinhas em Coimbra