O setor da Educação chega a meio de agosto marcado pela polémica em torno da correção dos exames nacionais e pelos problemas relacionados com a falta de professores, mas também com desafios que vão além da atualidade imediata. Para Assunção Flores, presidente e professora catedrática do Instituto de Educação da Universidade do Minho, o sistema educativo tem evoluído positivamente nas últimas décadas, mas enfrenta problemas que exigem respostas de curto, médio e longo prazo. “A Educação é um dos setores mais complexos e exigentes, que tem evoluído de forma positiva ao longo das últimas décadas. Contudo, há efetivamente desafios que se colocam hoje à escola e aos professores, como é o caso da digitalização e da inteligência artificial e o aumento da capacidade de resposta às necessidades diversificadas dos alunos”, afirma. É neste contexto que coloca também os problemas na correção digital dos exames nacionais. “Há ainda muito a fazer e, no caso a que se refere dos exames nacionais, é preciso assegurar que nenhum aluno é prejudicado no acesso ao ensino superior”, sublinha.Outro dos problemas que permanece sem uma dimensão totalmente conhecida é a falta de professores. O Governo continua sem divulgar quantos alunos ficaram sem aulas a uma ou mais disciplinas, uma informação que, para a docente, é importante para se perceber a verdadeira dimensão do fenómeno e avaliar a resposta dada pelas políticas públicas. “É, sem dúvida, importante conhecer a dimensão do problema e evitar que os alunos sejam prejudicados pela sistemática falta de professores”, diz. Assunção Flores relembra, contudo, que a escassez de docentes não é uma realidade exclusivamente portuguesa. “O problema é global e estrutural e exige medidas de emergência, mas também soluções mais consistentes e de longo prazo”, afirma. A professora rejeita, por isso, uma resposta limitada à emergência. “A falta de professores é um problema persistente e estrutural, e não apenas conjuntural, pelo que exige medidas de curto, médio e longo prazo”, explica.Em vários cursos de Educação existem “cinco e seis vezes mais candidatos do que vagas”A formação é uma das áreas que Assunção Flores considera decisivas porque “para além da valorização da carreira, é necessário garantir uma formação sólida e adequada para todos os que nela querem ingressar”. E aponta uma solução para os docentes que já estão a lecionar sem a formação necessária: “Seria fundamental assegurar que, quem está a lecionar sem a formação necessária e adequada para ser professor, a pudesse obter desde o primeiro dia de exercício de funções, criando condições para que isso aconteça, por exemplo, conjugando o horário de trabalho com a frequência de um mestrado em ensino.”Há medidas implementadas pelo Governo que procuram responder à escassez, como o regresso de professores aposentados, suplementos remuneratórios para docentes em idade de aposentação e também investimento na entrada de jovens na profissão, através de bolsas para estudantes de Educação Básica e dos mestrados em ensino. E é precisamente neste ponto que Assunção Flores identifica uma realidade diferente de algumas das narrativas sobre a falta de interesse dos jovens pela profissão. No Instituto de Educação da Universidade do Minho, avança, “este ano, e apenas na primeira fase de candidaturas, que decorreu em julho, tivemos quase 600 candidatos para 13 cursos de mestrado em ensino”. Em vários cursos, acrescenta, existem “cinco e seis vezes mais candidatos do que vagas”.Matemática, Física e Química, Português e 1.º ciclo são os grupos mais críticosPara responder às necessidades futuras, defende um reforço da capacidade formativa das instituições de ensino superior e dos seus próprios formadores. Há, contudo, áreas onde a procura continua a ser mais baixa. Matemática e Física e Química são apontadas como disciplinas críticas e com menos candidatos. Já Português e o 1.º ciclo do ensino básico apresentam uma situação diferente: “Se olharmos para as necessidades de docentes até 2031, de acordo com as estatísticas oficiais, verificamos que também o Português e o 1.º ciclo do ensino básico são grupos carenciados e, nestes casos, temos muito mais candidatos do que vagas”, conta. Para tentar reverter esta realidade, a atratividade da carreira é uma questão central. Para a professora, não basta aumentar o número de candidatos à formação: é necessário mudar as condições em que os professores exercem a profissão. “Uma das apostas será, sem dúvida, a valorização da carreira docente e a criação de condições de exercício profissional adequadas. Isso exige o reconhecimento dos professores como profissionais e não como meros aplicadores de diretrizes ou normas”, conclui..Concurso Nacional de Professores colocou apenas 213 novos docentes .Falta de professores agravada por elevada desistência nos cursos