Do alto do primeiro andar, na marquise de alumínio branco, uma família de Vila Nova da Raínha, Azambuja, olhava impotente para a água barrenta em todo o redor da casa que os transformou numa espécie de ilhéus e atração turística. Do outro lado, a uns 300 metros, uma dezena de vizinhos e moradores miravam-nos de volta, a partir da rua e das janelas de suas casas, na expectativa de ver quando a água chegaria também até eles.Pouco passava das 15h00 e ali, naquela freguesia ribatejana, já três casas estavam isoladas pela água esta quarta-feira, 4 de fevereiro. Mas as previsões meteorológicas anunciavam que o pior ainda estaria para vir, pois que o pico da cheia estava anunciado para o fim da tarde e quinta-feira prometia ser um dia muito difícil. A estrada nacional (EN3) começou a ficar intransitável numa das vias por volta das 17h, acabando por ser mesmo cortada mais tarde.“O ‘Formigo’ não sai dali, mas o Ângelo já se foi”, comentavam os moradores que aguardavam com suspense que a ameaça das águas se cumprisse, protegidos da chuva e vento forte pelo beiral de um prédio. O Formigo é o homem sitiado na varanda, por opção, e o Ângelo o dono da casa mais perto de onde estamos, que já foi alvo de evacuação, explica-nos Pedro Martins, ele próprio morador na rua que traça uma linha limite entre terra firme e o rio intrusivo.Desta vez a culpa não foi do Tejo, mas sim do Rio Alenquer, que “vem de Torres Vedras, percorre quilómetros, ganha força, e também por causa do lixo que vai apanhando pelo caminho, galga as margens e invade os terrenos”, explica outro morador/observador.“As pessoas aqui já estão habituadas, quando chove muito, a mudarem-se para o primeiro andar, mas estragam-se sempre as coisas que lá têm”, diz Pedro Martins.. Por muito que a história do Ribatejo e da Lezíria se confunda com cheias épicas, este ano parecem estar a ser passados limites que há muito não eram ultrapassados. Isso mesmo atesta o enérgico presidente da Junta de Freguesia: “Pelo menos desde 2010, há 16 anos, que não se via nada disto aqui”, diz Gustavo Bruno Borda d´Água. De equipamento da Proteção Civil, cabelo molhado e óculos pintalgados de chuva, o autarca não tem tido mãos a medir, a acompanhar trabalhos dos operacionais e a acudir a situações como a dos residentes com a casa alagada. “Em 1979 chegámos a ter o centro da vila com 70 cm de água”, recorda, mas há muito tempo que não se lembrava desta urgência.Uma das situações que mais preocupa o autarca, a esta hora, é a quantidade enorme de água que “está passar por baixo do viaduto da autoestrada, e que está a um triz de galgar a estrada”, por isso é para lá que se dirige e nós também. No terreno de operações, junto ao viaduto, cujo acesso se faz por uma estrada de lama repleta de grandes charcos de água a ombrear com a ribeira que corre rápida e ameaçadora, uma equipa de bombeiros acompanha trabalhos de remoção de canas e lixo do rio para evitar o seu transbordo.Enquanto as máquinas retiram uma carga imensa de canas e lixo do curso de água, para impedir o pior, elementos da proteção civil monitorizam a situação e a comandante da corporação dos Bombeiros da Azambuja, Thays Freixo, coordena a operação. E num sotaque brasileiro garante, com suavidade, que “estamos todos alinhados e a fazer tudo para evitar o pior”. Um toque de elegância operacional num cenário agreste de chuva, vento e lama, onde um olhar atento conseguiu descortinar, lá ao fundo, dois cavalos brancos abrigados do medo debaixo do viaduto.A subida das águas pode ser muito rápida, diz quem já testemunhou. “Em 2008, por aí, fui à janela e não havia água, fui tomar banho e quando voltei, já tinha a água ao pé da porta quase”, recorda Pedro Martins.É esta memória coletiva e também os alertas da Proteção Civil que levaram esta quarta-feira as autoridades de Azambuja a encerrarem a escola de Manique do Intendente, porque a água já estava muito perto.. “Não vale a pena colocar as pessoas e os bombeiros em risco, por isso pedi aos bombeiros para irem retirar um senhor de uma casa em risco de ficar alagada”, disse Margarida Lopes, vereadora da Câmara Municipal da Azambuja e diretora do Centro Social e Paroquial da Azambuja. O ambiente que se vivia ao fim da tarde no concelho da Azambuja era de apreensão, à medida que se previa o agravamento da situação e se esperavam condições mais críticas para o dia seguinte. “Sim, estamos apreensivos. Acabei de falar ao telefone com o presidente da autarquia que veio no sentido de Vila Franca de Xira e já não se consegue circular num sentido, vao cortar a estrada”. Também foi cortada a estrada alternativa de Manique do Intendente, porque ficou submersa, entre outras.Com o alerta da proteçao civil municipal, empresas como a Sonae (Continente) mandaram todos os trabalhadores para casa, por volta das 16h/17h, o que transformou o trânsito da EN3, junto à Plataforma Logística, num comboio quase parado de automóveis e camiões.A vereadora da oposição não tem problemas em elogiar o trabalho que está a ser feito por toda a equipa, que envolve câmara e bombeiros. “A Proteção Civil tem sido incansável”, garante Margarida Lopes. “Nós tivemos muitos anos de seca e desabituámo-nos deste tipo de situações, agora custa-nos um bocado mais, mas vamos ter de nos preparar”, num cenário em que as alterações climáticas nos estão a mostrar que nada voltará a ser como dantes.