Ao longo da vida, mais de metade da população portuguesa será afetada por uma perturbação neurológica ou mental. Os números não enganam e traçam uma “realidade avassaladora”. De acordo com o novo relatório Headway sobre 'Saúde do Cérebro em Portugal', divulgado na manhã desta sexta-feira, 19 de junho, em Lisboa, as “doenças do cérebro são o grupo de patologias mais prevalente em Portugal”, estimando-se que, “no seu conjunto, as condições neurológicas afetem quase metade da população (47,1%), e, em paralelo, as perturbações mentais, por si só, afetem mais de uma em cada cinco pessoas”. Ou seja, se se combinar a prevalência destas condições e a sua evolução ao longo da vida, estima-se que “mais de metade dos portugueses venha a ser afetado por uma perturbação neurológica ou mental, podendo este valor chegar a dois terços da população”, refere o documento.Em termos de impacto económico, este já ultrapassa os 4,7 mil milhões de euros anuais em despesas diretas de saúde, mas “quando se incluem os custos indiretos, como perda de produtividade e o peso sobre cuidadores e famílias, o valor é substancialmente maior”. E, alertam os especialistas, “à medida que Portugal envelhece, este peso tende a agravar-se”. Por isso mesmo, lançam um desafio aos decisores políticos: “O país precisa de um Plano Nacional para a Saúde do Cérebro, com metas mensuráveis, financiamento dedicado e uma abordagem que integre prevenção, diagnóstico precoce e tratamento”. O objetivo deste desafio é “transformar um custo de 4,7 mil milhões de euros num investimento com retorno comprovado para as pessoas, para as famílias e para a economia”, argumentam.Para Francisco Ramos, economista da Saúde, um dos participantes na discussão destes dados, “investir na Saúde do Cérebro não é uma despesa perdida; é uma decisão económica inteligente, e os dados provam-no: os retornos podem ir de cerca de dois euros em epilepsia a 4,5 euros em saúde mental por cada euro investido. Estamos perante uma das mais rentáveis políticas públicas que poderíamos adotar", sublinhando ainda que que “os 4,7 mil milhões de euros em custos com as terapêuticas aplicadas às doenças do cérebro representam apenas a ponta do iceberg, uma vez que não incluem os custos indiretos com a perda de produtividade e o peso sobre as famílias”.O psiquiatra Gustavo Jesus defendeu que as doenças do cérebro ainda ainda têm o estigma como barreira: "Continuamos a separar a saúde mental da saúde física, mas a saúde é uma só e começa no cérebro. Enquanto o estigma impedir as pessoas de procurar ajuda e os sistemas não integrarem os cuidados, vamos continuar a falhar. Estes dados devem servir para nos unir numa única missão: cuidar da pessoa como um todo", afirmou.O neurologista Nuno Canas, também presidente da Liga Portuguesa Contra a Epilepsia (LPCE), alertou para o facto de haver o "lado esquecido" das doenças do cérebro. "A saúde mental ganhou visibilidade, e ainda bem. Mas as doenças neurológicas, como a epilepsia, cuja prevalência aumentou 45,3% em 30 anos, continuam na sombra. Precisamos de mais especialistas e de estruturas de apoio que garantam o acompanhamento de que estes doentes necessitam.”A nível dos Cuidados Primários, Nuno Jacinto, presidente da Associação Portuguesa de Medicina Geral e Familiar (APMGF), lembrou que "o médico de família é, muitas vezes, a primeira porta de entrada para estes doentes. Somos essenciais no diagnóstico precoce e no acompanhamento, mas precisamos de mais formação, de melhores ferramentas e de uma articulação eficaz com os cuidados hospitalares. Reforçar os cuidados de saúde primários é o primeiro passo para um sistema mais eficiente."O relatório apresentado foi desenvolvido pelo TEHA Group (subsidiária do think tank The European House – Ambrosetti) em parceria com a Angelini Pharma, e mostra também que o sistema de saúde não está preparado para responder à escala do problema. Portugal tem apenas 4,6 neurologistas e 13,6 psiquiatras por 100.000 habitantes, números abaixo da média europeia.No caso da epilepsia, 44% dos doentes não têm acompanhamento médico regular e persistem lacunas significativas no apoio e na representação dos mesmos. Sem medidas específicas, o aumento da prevalência traduzir-se-á numa maior procura de serviços especializados, em custos indiretos mais elevados e numa pressão crescente sobre os doentes, as famílias e os cuidadores..Investigação da Universidade de Coimbra revela quanto pode envelhecer um cérebro afetado por doenças crónicas.Investigadora portuguesa abre portas a novas terapias no combate a demências