Há escolas a pedir aos professores para alterarem as férias já agendadas, e aprovadas, de forma a ser possível fazer face ao volume de trabalho que surgiu na sequência dos problemas registados com as classificações dos exames nacionais de 11.º e 12.º anos.O DN falou com dezenas de professores que confirmaram ter recebido esse pedido e que lembram que além da questão das classificações acresce a necessidade de organizar o próximo ano letivo, com a constituição de turmas e outros serviços, também eles sujeitos a atrasos devido às mudanças na calendarização das classificações da 2.ª fase. Entretanto, os professores classificadores receberam a informação que a partir das 00h00 desta quarta-feira iria ser efetuada uma “intervenção de manutenção, pelo que a Plataforma de Classificação e Supervisão estar temporariamente indisponível”.“Recebi ontem o pedido para mudar as férias e não consegui dar uma resposta imediata porque preciso de saber se posso mudar as datas das viagens de avião que já estão pagas. O que me disseram é que se todos nos recusarmos a mudar, haverá requisição civil e teremos mesmo de alterar as datas”, explica ao DN uma professora de Inglês, que não quis identificar-se por temer represálias.As escolas estão a lidar com vários constrangimentos: o período de classificação de exames foi alargado até ao dia 14, a 2.ª fase de exames vai arrancar mais tarde e está previsto um aumento exponencial de pedido de reapreciação de notas. Situações que estão, por consequência, a atrasar a preparação do próximo ano letivo e que levam à necessidade de manter os docentes em funções em agosto, soube o DN.Filinto Lima, presidente da Associação Nacional de Diretores de Agrupamentos e Escolas Públicas afirma ser necessário “evitar a todo o custo mudanças nas férias dos professores”. “As férias são um direito que os professores têm e que já foram aprovadas lá atrás. Há que evitar uma requisição civil. As coisas já estão mal e não podem piorar. Iria gerar revolta”, salienta. O responsável sublinha a pressão sentida pelos docentes classificadores, “obrigados a trabalhar muitas horas extra para tentar cumprir os prazos” e, uma mudança no período de descanso seria “pedir mais sacrifícios a quem tudo tem feito para resolver problemas dos quais não têm qualquer responsabilidade”. “Os professores classificadores, neste momento, são os sofredores e vivem um período de grande ansiedade, com novidades todos os dias. São os menos culpados, mas são eles que estão a pagar as favas desta situação. Percebo a lei, mas os docentes, de uma forma global, vão revoltar-se se forem obrigados a mudar as suas férias”, alerta.Filinto Lima afirma haver ainda professores sem acesso aos exames para classificação e, sobre a data de afixação das notas (17 de julho) refere que “é ver para crer”. “Estamos todos desconfiados com este processo. Neste momento, há a hipótese de não se cumprir o prazo de dia 14 para terminar as classificações. É uma possibilidade real”, afirma.Cristina Mota, porta-voz da Missão Escola Pública (MEP) – um movimento apartidário de professores – também tem muitas dúvidas sobre o cumprimento dos novos prazos de classificação e de afixação de pautas. “Na maioria das escolas, os professores ainda têm itens por atribuir, em várias disciplinas, sem acesso à plataforma. O dia 14 será muito difícil cumprir-se”, sublinha. A título de exemplo, explica que, na disciplina de Matemática, os professores corrigem cerca de 40 provas (são 400 itens) e estão, neste momento, a classificar cerca de 170. “Português devia ter 240 itens, no mínimo, e temos professores com 140. Devem receber muitos itens para classificar já próximo do final do prazo e com problemas que continuam com a plataforma, itens trocados, provas de disciplinas que não lecionam, será muito difícil entregar as classificações a 14 e julho”, refere.O calendário de acesso ao ensino superior também está em causa. Cristina Mota recorda que o concurso cessa a 6 de agosto e os resultados das reapreciações de nota só saem dia 7.“Pais terão de cancelar férias e perder milhares de euros”Ao DN têm chegado relatos de pais obrigados a mudar as férias devido à alteração das datas da 2.ª fase dos exames. A situação, conta uma encarregada de educação, “está a causar enorme preocupação e indignação a muitas famílias portuguesas”. “Na sequência dos problemas ocorridos na correção dos Exames Nacionais da 1.ª fase, foi anunciada a alteração das datas da 2.ª fase dos exames. No entanto, esta decisão transfere para os alunos e respetivas famílias as consequências de um erro que não lhes é imputável”, afirma. A mesma fonte relembra que “muitas famílias organizaram as suas férias de verão de acordo com o calendário oficial divulgado pelo IAVE”. “Foram marcadas viagens, estadias, compromissos familiares e outros eventos, muitos deles já pagos e sem possibilidade de reembolso. Com esta alteração inesperada, há pais que terão de cancelar férias, perder milhares de euros ou, em alternativa, colocar os filhos perante a difícil escolha entre realizar os exames ou manter compromissos assumidos com base nas datas inicialmente publicadas”, relata. A encarregada de educação entende não ser aceitável “que as famílias sejam prejudicadas financeiramente por uma decisão motivada por falhas do próprio sistema”. “Os alunos cumpriram todas as regras e organizaram a sua vida de acordo com o calendário oficial. Alterar essas datas depois de muitas famílias já terem feito os seus planos demonstra uma falta de respeito pela organização familiar e pelos encargos financeiros que esta decisão acarreta”, conclui. Entretanto, um grupo de pais e encarregados de educação lançou uma petição pública online a pedir a anulação dos exames nacionais, “sem prejuízo dos alunos”. O grupo mostra “profunda preocupação e indignação perante as falhas graves e amplamente reconhecidas no processo de digitalização e classificação eletrónica das provas” e pretende a anulação dos exames nacionais.O DN contactou o Ministério da Educação, Ciência e Inovação, mas não obteve resposta. .Pais e encarregados de educação lançam petição a pedir a anulação dos exames nacionais .Ministério da Educação altera calendário de exames nacionais. Notas divulgadas a 17 de julho e 2.ª fase adiada para dia 20