Segundo dados da Agência para a Gestão do Sistema Educativo (AGSE), no Concurso Nacional de Professores para o ano letivo 2026/2027 – cujo resultado foi divulgado na semana passada – foram colocados 19.172 docentes, dos quais 5454 em zonas do país com mais dificuldade de atração e retenção de docentes. Números que, acredita a Missão Escola Pública (MEP) – um movimento apartidário de professores – induzem a opinião pública em erro. Isto porque, alerta a MEP, apenas 213 docentes são novos no sistema educativo.O Concurso Nacional de Professores é feito a nível interno (direcionado a docentes pertencentes ao quadro do ministério) e externo (para aqueles que ainda não vincularam ou para novos profissionais). Assim, explica ao DN, Cristina Mota, porta-voz da MEP, “dos 19.172 professores colocados, 14.396 pertencem ao Concurso Interno, tratando-se de docentes já vinculados que apenas mudaram de escola, de quadro ou de grupo de recrutamento”. “Os restantes 4776 correspondem ao Concurso Externo, sendo que a esmagadora maioria já se encontrava a lecionar nas escolas públicas e apenas transitou de uma situação de contratação para um vínculo permanente”, esclarece. Para a responsável, “Portugal não ganhou 19 mil professores, nem ganhou mais 5400 docentes para responder às carências existentes”. “A esmagadora maioria dos colocados já fazia parte do sistema educativo. Mudaram de escola ou de vínculo. O problema da falta de professores permanece”, sublinha.Na sequência da divulgação dos resultados, a MEP, em parceria com Davide Martins, especialista em estatísticas da Educação, analisou outros dados para compreender o verdadeiro impacte destes concursos no reforço do corpo docente e na resposta à falta de professores. Destacando os 213 professores que entram no sistema sem qualquer tempo de serviço, nos grupos de recrutamento mais carenciados, o número de novos professores “continua residual”. Em Português surgem apenas 14 novos professores, em Matemática 12, em Inglês apenas três, em Educação Especial seis e em Francês apenas um. “Estes números desmontam, por si só, qualquer narrativa de reforço significativo do corpo docente”, diz Cristina Mota. A MEP alerta ainda para o elevado número de aposentações. Desde setembro de 2025 reformaram-se 3018 educadores e professores, “um número mais de 14 vezes superior ao total de novos docentes presentes nestes concursos”. A análise do movimento destaca também o envelhecimento do corpo docente e a vinculação de 111 professores com 60 ou mais anos de idade, incluindo um docente com 67 anos. “Tratam-se de profissionais cuja experiência deve ser valorizada, mas cuja proximidade da aposentação demonstra, uma vez mais, a incapacidade do sistema para assegurar uma renovação geracional consistente”, refere Cristina Mota.A MEP defende que “os números divulgados pelo MECI podem servir para alimentar comunicados otimistas, mas não alteram a realidade que diariamente se vive nas escolas”. “Mudar professores de escola não cria novos professores. Vincular quem já estava a dar aulas não aumenta o número de docentes disponíveis para responder à falta de profissionais. A análise destes concursos revela precisamente o contrário da mensagem política que se tentou transmitir: o sistema continua a ter enormes dificuldades em atrair novos docentes, a renovação geracional é insuficiente e o número de entradas está muito longe de compensar as aposentações”, salienta. O movimento considera preocupante “que o Governo procure transformar movimentos administrativos em alegados reforços do corpo docente”. “Quando se troca transparência por propaganda, não se resolvem os problemas das escolas, apenas se maquilham estatísticas. Os alunos não precisam de narrativas otimistas. Precisam de políticas que garantam professores nas escolas”, conclui. Aposentações em crescendo nos últimos oito anos2013 (ano com maior número de reformas) – 46282014 – 11272015 – 12802016 – 6232017 – 7552018 – 6692019 – 14092020 – 16492021 – 19442022 – 24012023 – 35212024 – 39812025 – 36232026 (janeiro a julho) – 1446 (as previsões para este ano apontam para um total de 4000)Estes números refletem apenas a saída dos docentes subscritores da Caixa Geral de Aposentações. O registo da Segurança Social não é público e, por isso, o número de professores reformados pode ainda ser mais elevado.