Concorrência chinesa e subida da extrema-direita ameaçam estratégia climática da UE
FREDERICK FLORIN / AFP

Concorrência chinesa e subida da extrema-direita ameaçam estratégia climática da UE

O setor europeu da energia solar está “a meses de colapsar” devido à concorrência da China. No caso dos automóveis há quem tema um “banho de sangue” por causa dos carros elétricos asiáticos, que podem ser 30% mais baratos.
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A presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, reforçou a ambição e anunciou, este mês, querer baixar as emissões de carbono em 90% até 2040, face aos níveis de 1990. Mas a estratégia para atingir a neutralidade carbónica em 2050 enfrenta obstáculos e a autonomia europeia para a colocar em marcha está cada vez mais comprometida. À cabeça dos riscos está a crescente dependência e concorrência da China em setores-chave da transição energética, como o automóvel e a energia solar. O outro grande risco é político: a previsível ascensão da extrema-direita no Parlamento Europeu nas eleições de junho ameaça relaxar a ambição na ação climática. E, como se não bastasse, a revolta em curso no mundo agrícola um pouco por toda a Europa traz outro sinal de preocupação, de consequências ainda imprevisíveis, no que às regras ambientais diz respeito.

Depois de, no ano passado, terem soado os sinais de alarme sobre a possibilidade de alguns fabricantes automóveis europeus não aguentarem a concorrência das marcas chinesas, com preços de veículos elétricos impossíveis de igualar, é agora a vez de a indústria ligada à energia solar vir chamar a atenção para a sua crise.

Este mês, a organização europeia do setor, a ESMC, fez um apelo dramático à Comissão Europeia (CE), para tomar medidas, alegando que perante a concorrência dos painéis solares chineses subsidiados, o setor está literalmente com a corda na garganta, a atravessar uma onda de falências, e a poucos meses de colapsar. “A situação é mesmo muito, muito complicada, podemos perder a maioria da indústria europeia nos próximos meses se não houver um sinal político forte”, disse o secretário-geral do European Solar Manufacturing Council (ESMC), Johan Lindahl, citado pelo Político.

Os produtores acusam a política chinesa de subsidiação deste setor de estar a inundar o mercado europeu de materiais baratos, abaixo do custo, e em desrespeito pelos direitos humanos na cadeia de produção solar para o conseguirem.

Embora a CE tenha iniciado conversações preliminares sobre as opções de apoio ao setor, ainda não se comprometeu com nenhuma medida, mesmo apesar dos apelos acalorados nesse sentido no Parlamento Europeu, no início deste mês, da esquerda à direita.

Tal como acontece com a indústria automóvel, os módulos solares chineses chegam a ser três vezes mais baratos do que os produzidos na UE. Mas esta causa não está necessariamente ganha, pois nem todos concordam que Bruxelas deva desafiar a China sobre as suas práticas na energia solar, uma vez que tal pode vir a prejudicar as importações de materiais para este setor que são vitais. Por outro lado, há quem questione se injetar dinheiro de emergência num setor que pode já estar terminal será um bom negócio. É que a China controla 80% da capacidade de produção global, enquanto a UE só produziu 3% dos painéis solares que instalou o ano passado. Numa luta entre David e Golias, “injetar dinheiro no setor arrisca-se a poder ter apenas resultados de curto prazo”, aponta a chefe para a investigação solar da Bloomberg NEF, Lara Hayim, citada por aquele jornal.

Há meses que as organizações do setor pedem medidas de apoio, ainda que temporárias, para ajudarem o setor a aguentar-se dois ou três anos até a UE implementar regras mais claras de apoio à produção local. A pressão sobre Bruxelas para agir face à concorrência chinesa “desleal” tem precedentes. No outono passado, a presidente da Comissão, Ursula von der Leyen, anunciou a abertura de um processo de averiguações às importações de veículos elétricos da China, sob a suspeita de subsidiação pública à produção de automóveis elétricos. Em causa está igualmente a pretensão da UE evitar a dependência exagerada de um mercado para suprir as suas carências energéticas, depois da lição traumática aprendida com a dependência do gás russo, que, com a Guerra da Ucrânia, cortou o abastecimento e fez disparar os preços.

O problema é que penalizar a indústria solar chinesa pode ser um tiro no pé para a Europa. A CE quer recuperar 30 GW de capacidade de produção solar até 2030, mas também precisa de instalar 750 GW de painéis em todo o continente para atingir as metas do clima que se autoimpôs, o que só deverá conseguir se continuar a importar. Em cima da mesa está a neutralidade carbónica até 2050.

Certo é que, enquanto se avaliam as vantagens e desvantagens de agir, grandes empresas europeias vão fechando ou estão em risco, sendo a Alemanha o mercado que mais deverá sofrer, pois controla quase metade da produção de módulos solares na UE. A produtora de painéis neerlandesa Exasun e a austríaca Energetic pediram insolvência, a suíça Meyer Burger afirmou que vai parar a produção em abril, enquanto dois outros produtores, a Solarwatt e a Eckert Solar também ameaçam encerrar ou parar de investir.

Indústria automóvel vulnerável a “banho de sangue”

O risco de falências ou despedimentos também é apontado para os fabricantes europeus de automóveis na competição desigual com as marcas chinesas. Quem muito se tem empenhado nesse alerta tem sido o CEO do grupo Stellantis, Carlos Tavares, que representa 14 marcas, e que no outono passado acusou Bruxelas de ter estendido o tapete vermelho à China, com os prazos que fixou para a total reconversão do setor ao modo elétrico até 2035. Já este ano, Tavares voltou a dizer que a situação só não é mais grave porque a China sabe que se for mais agressiva causaria “um banho de sangue social” na Europa. “Mas podem fazê-lo a qualquer momento”, disse o executivo. Em causa está um custo de produção à saída da fábrica 30% mais baixo e uma quase equiparação entre o custo de um veículo elétrico a um térmico conseguida pelos fabricantes chineses, explicou, em janeiro numa intervenção na Ordem dos Engenheiros, em Lisboa.

Este desnivelamento deve-se não só a custos laborais significativamente mais baixos, mas também ao facto de a Europa depender dos minerais críticos para a construção de veículos elétricos que se encontram em solo chinês. As empresas chinesas dominam a produção mundial de componentes essenciais para a produção de energia nas baterias (92% dos ânodos, 77% dos cátodos, 82% dos eletrólitos) e a refinação de outros. Para Carlos Tavares, o “dogmatismo” europeu no modo elétrico vai criar desigualdades sociais no acesso à mobilidade, porque, diz, a classe média ainda não pode pagar um elétrico. Ou então é a indústria automóvel europeia que entra em colapso, com reestruturações e despedimentos, se acontecer a entrada massiva de carros asiáticos 30% mais baratos. Algumas marcas já entraram no mercado europeu, nomeadamente no português, com preços muito competitivos para o segmento médio como é o caso da BYD.

Extrema-direita com poder de influência

Aquele é um argumento que poderá vir a ser explorado politicamente nas próximas eleições europeias, já em junho. E esse é outro risco para a estratégia da neutralidade carbónica. Uma sondagem recente do European Council on Foreign Relations prevê um peso crescente da direita nacionalista e da extrema-direita, que poderá, pela primeira vez, garantir 25% dos assentos parlamentares. Isto se juntarmos o ECR (Grupo dos Europeus Conservadores e Reformistas), o ID (Identidade e Democracia) e os 12 membros do Fidesz, o partido do primeiro-ministro húngaro Viktor Órban, que não estão agrupados. Analistas admitem que mesmo que o centro-direita, provável vencedor, se recuse a formar coligações com os partidos radicais cada vez mais poderosos, existe uma razoável chance de a extrema-direita conseguir influenciar, pela primeira vez, a agenda política europeia e bloquear ou fazer regredir algumas leis sobre ambiente e clima.

E há sempre circunstâncias conjunturais, mais ou menos justas, mais ou menos previsíveis, sujeitas a aproveitamento político. Uma inesperada pedra no sapato para a estratégia ambiental da UE são os fortes e arrastados protestos dos agricultores que contestam, entre outras coisas, a falta de compensação para as exigências agroambientais a que estão sujeitos. Bruxelas viu-se obrigada a fazer cair a proposta de cortar para metade o uso de pesticidas até 2030. Mas o clima de descontentamento social com a globalização e o desenho de novas geometrias políticas em curso podem ainda obrigar a Comissão Europeia a reorientar a sua rota climática.

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