Cerca de 4.500 clientes da E-Redes nas localidades afetadas pela depressão Kristin, que passou pelo continente em 28 de janeiro, continuavam às 07h00 desta sexta-feira, 20 de fevereiro sem energia elétrica.Silvino, de 80 anos, suspira depois do sol se pôr e a casa ficar na penumbra, em Leiria. Vem aí mais uma noite longa, mal dormida e escura. É um desses 4500 que está nesta situação há mais de três semanas e sente a solidão apertar cada vez mais.De bigode branco, óculos descaídos no nariz, Silvino Ferreira dos Santos olha de forma fixa para a salamandra, onde o borralho que arde vai-lhe aquecendo os pés nus. Ao longe, ouvem-se alguns latidos de cães e carros a passar junto a uma estrada das Chãs, na freguesia de Regueira de Pontes, onde vive numa casa escondida do resto da rua.Na maior parte das moradias da zona, vê-se luz, os candeeiros de iluminação pública voltaram a ligar e a vida parece que segue a normalidade possível, depois da passagem da depressão Kristin ter feito voar telhas, destruir coberturas de empresas, interromper a vida quotidiana e destruir uma rede elétrica que, passadas mais de três semanas, ainda não está completamente reposta.Se alguns encontram remendos provisórios como geradores que mantêm o essencial ligado ou puxadas de energia das casas de vizinhos e familiares, este homem de 80 anos, que foi cantoneiro na Câmara de Leiria, tem apenas a iluminar a sua casa a chama que sai da salamandra da sala e duas velas brancas que usa para não tropeçar no escuro a que está votado no resto da casa.“Isto é uma tristeza”, conta Silvino, que vai procurando conter as lágrimas enquanto fala com a agência Lusa.. Se ao início pensou que a situação ficaria resolvida num par de dias, hoje, a frustração vai-se acumulando, enquanto vê vizinhos, familiares e amigos terem luz e a sua casa continuar às escuras.“Agora já está a mexer comigo. Desde o princípio desta semana que me custa cada vez mais estar assim - todos os dias à noite em que me vou deitar - e dói, dói, dói”, diz.Durante o dia, procura entreter-se com a horta, beber um café com amigos e conversar um pouco. Na casa, para se conseguir barbear, move um espelho para a sala para usar a luz do dia, para tomar um duche tem de levar uma vela para a casa de banho e aproveita o pôr do sol para jantar qualquer coisa que não seja preciso guardar no frigorífico, que está vazio.Por volta das 21:00, já está na cama e é à noite que tudo custa mais.“O que é que fico aqui a fazer? Estou à luz das velas. Não tenho televisão, não tenho nada. Passo aqui um bocado e depois vou para a cama”.. As noites são longas e mal dormidas, que “uma pessoa depois na cama pensa, pensa, pensa, e às vezes pensa no que não devia pensar”.Neste momento, Silvino diz que sente “revolta, angústia, frustração, tristeza – tudo, agora junta-se tudo”.“E sozinho dói mais. Sinto mais a solidão, que já a tinha, mas agora aperta muito mais”, conta o homem, viúvo há três anos, e que, por estes dias, olha para a falta de luz como uma reclusão que vai ganhando forma: “Sinto-me preso”.Silvino tem procurado ajuda na Junta de Freguesia de Regueira de Pontes. Ainda na quinta-feira lá passou pela manhã para perceber quando é que a luz poderia voltar, mas “eles, coitados, são uns incansáveis, mas também não conseguem resolver”.. “Pensamos que amanhã vem a luz, que amanhã é um novo dia, que tem de ser um dia de cada vez. É a única forma”.Silvino tem saudades do som da televisão, de ver o Preço Certo na RTP, de se sentir menos sozinho. Por estes dias, vai-se virando também para a fé para aguentar, “que há sempre um Deus que nos guia”.Os filhos ainda o ajudam no fim de semana, mas da casa, vinca, não sai.“A nossa casinha, a nossa brasinha”, diz o homem que vive naquela moradia há 55 anos.Mesmo que a luz venha, Silvino diz que já lhe vai ficar uma cicatriz destas três semanas.“Não podemos deixar cair os braços. Temos de ser fortes. Mas há momentos em que a gente se vai mesmo abaixo”..Nas Colmeias e na Memória, o dia continua a ser noite. “É pior do que a guerra em Angola”