Centro Interpretativo do Estado Novo abre em Santa Comba Dão após avanços e recuos
O Centro Interpretativo do Estado Novo - Regime e Resistência vai abrir portas no dia 23, na Escola Cantina Salazar, no Vimieiro, concelho de Santa Comba Dão, pondo fim a um longo processo de avanços e recuos. Foi nesta localidade que nasceu António Oliveira Salazar, figura maior do Estado Novo.
“Não queremos transformar este centro interpretativo num museu ao ditador, queremos sim criar um centro interpretativo que estude não só o regime, mas também a resistência ao regime”, garantiu à agência Lusa o vice-presidente da Câmara de Santa Comba Dão, Luís Nunes.
O Centro Interpretativo do Estado Novo - Regime e Resistência (CIEN - RR) ficará instalado naquela que foi uma escola modelo do Estado Novo, um edifício dos anos 40 do século XX que a autarquia já tinha recuperado há alguns anos.
Este equipamento municipal tem coordenação científica da Associação Ephemera e o objetivo de promover o estudo, o conhecimento e a reflexão sobre o período do Estado Novo, dar a conhecer as diferentes dimensões do regime e as formas de resistência à ditadura.
“A Associação Ephemera, dirigida pelo Dr. Pacheco Pereira, vai disponibilizando parte do seu espólio temático sobre o tema”, explicou Luís Nunes, acrescentando que a Escola Cantina Salazar passará a ser um espaço para exposições temáticas, debates, conferências e discussões académicas.
A primeira exposição será dedicada à censura “na área da imprensa, da literatura e também da música”, fazendo assim ligação ao papel que esta tem no concelho, com as suas filarmónicas e o Conservatório de Música e Artes do Dão.
“Paralelamente, haverá sempre uma biblioteca temática disponível para investigadores que possam procurar aqui uma contextualização bibliográfica especializada”, acrescentou.
O vice-presidente sublinhou que houve o cuidado de “posicionar este centro interpretativo de forma tão objetiva quanto possível naquilo que possa ser a análise histórica do Estado Novo”.
“O que é que não se pretende? Criar um museu ao Salazar, ao ditador”, assegurou. Apesar disso, o ditador também não pode ser escondido e haverá “uma sala de aulas da época, em que na parede está a fotografia do Salazar”.
Luís Nunes considerou que “há toda uma contextualização que não é passível de ser escondida, de ser camuflada”.
“São fenómenos históricos a partir dos quais nós devemos necessariamente aprender para não voltar a cometer os mesmos erros. Não se trata de um culto da memória, mas sim cultivar a memória para evitar os erros no futuro”, realçou.
O autarca mostrou-se convencido de que este projeto dinamizará o Vimieiro e Santa Comba Dão, ao ser “um polo de atração” de visitas de turismo e de grupos de escolas de vários pontos do país.
“Até porque esse movimento já existe, a título individual, mesmo não havendo lá nada para ver. Há uma procura grande por parte de curiosos que querem perceber como é a aldeia onde o ditador nasceu e passou algum tempo”, contou.
Com o CIEN – RR aberto ao público, “certamente que esse fluxo vai ficar mais organizado, mais significativo, trazendo também esse retorno económico” a Santa Comba Dão, considerou.
O programa de inauguração vai estender-se ao longo de três dias. Além da exposição “Só Existe o que se Sabe que Existe – A Censura no Estado Novo”, haverá mesas redondas, concertos, uma visita guiada ao património do centro histórico de Santa Comba Dão e uma mostra de cinema, entre outras atividades.
Toda a programação e as atividades deste equipamento municipal serão acompanhadas por uma comissão científica, cuja composição será anunciada pela Ephemera e pela Câmara Municipal de Santa Comba Dão.


