De tempos em tempos, o historiador Valentim Alexandre publica um novo estudo sobre o “império colonial português” e desvenda o que resultou do fio de acontecimentos que as decisões de Salazar provocaram nos territórios que agigantaram Portugal durante séculos. Já o fizera em Contra o Vento (2017), Os Desastres da Guerra (2021) e No Fio da Navalha (2023), tendo chegado agora às livrarias Um Luto Português. Este quarteto de investigações tem sempre como cenário a “maré anticolonial” e a “defesa do império”, sendo que os três últimos volumes se dedicam à crise ultramarina no ano de 1961. O ensaio que agora é lançado fecha esse “ano horrível” com a invasão de Goa, Damão e Diu pela Índia.Não será por acaso que Valentim Alexandre intitula este trabalho como Um Luto Português, afinal a perda do império ultramarino começa com a queda de Goa a meio de dezembro de 1961 e será a maior catástrofe para o regime salazarista no que respeita à sua integridade. Já se perdera o Forte de Ajudá, mas era um enclave minúsculo que não teve um grande efeito na política colonial de Salazar. Mais grave era a guerra em curso em Angola, os conflitos que virão em Moçambique e na Guiné, que irão desembocar também numa perda desses territórios, mesmo que Salazar não assista ao desenlace da sua ordem de combate “Para Angola e em força”. Nem o seu sucessor, Marcelo Caetano, encontrará forma de alterar o destino das províncias por inabilidade política e falta de coragem em enfrentar os duros do regime na tentativa de encontrar uma solução aceitável para o inevitável.O historiador refere que durante todo o período entre 1946 e 1961 a posição de Portugal perante as exigências da Índia e das organizações goesas pró indianas foi sempre de “uma total intransigência” e que o governo de então sempre afirmou que “os territórios eram parte integrante de Portugal e assim deveriam permanecer”. Foi o que Salazar reafirmou num discurso em 1954, mesmo que na prática pouco fizesse para manter Goa, Damão e Diu na sua posse. Só seis anos antes é que o presidente do Conselho mandara reforçar a defesa militar dos territórios, mesmo que considerasse que a impossibilidade de vencer um confronto devesse ser contornado com uma presença “o mais possível no terreno e, embora vergando (…), só quebrar pela força bruta”. Ou seja, para Salazar, regista o historiador, a “guarnição militar de Goa teria de estar em condições de não triunfar mas deveria bater-se com dignidade”. Que foi exatamente o que aconteceu e que este ensaio descreve pormenorizadamente.Mais do que ninguém será Salazar que viverá este luto com grande intensidade e consciente de uma inevitável derrota, nem que seja por ausência de uma força militar em Goa, situação para a qual contribuirá pois era ministro da Defesa desde abril de 1961. Segundo Valentim Alexandre, “Salazar tinha a obrigação de estar a par das realidades militares” devido a este cargo, no entanto acrescenta que o governante já conhecia bem a situação “dado ter seguido sempre de perto como presidente do Conselho tudo o que se relacionava com a preservação da soberania portuguesa em Goa”. O que se pode depreender também de um documento que foi apresentado num Conselho de Estado em 1956, no qual Salazar admitia a hipótese de “a União Indiana passar a ter uma política mais agressiva.”A fotografia da capa de Um Luto Português é bem representativa do desaire salazarista: uma coluna de militares portugueses prisioneiros desfila após a sua rendição sob as armas do exército indiano. Essas tragédias irão replicar-se em múltiplas imagens a propósito de outros territórios que Portugal irá perder e nas memórias dos que tiveram de abandonar as “parcelas” de um império que se desmoronou. Entre o trio de investigações sobre o referido “império” que chega neste mês de março às livrarias está também uma outra história sobre o antes e o durante, ou seja, o relato do historiador britânico, Tom Gallagher, em Portugal e o Ocidente, em que faz uma descrição dos acontecimentos entre o ultimato britânico, a governação de Salazar e a Revolução dos Cravos.Gallagher não é suave em muitas das suas afirmações sobre este período que vai desde a crise da monarquia constitucional até aos anos mais recentes, que o historiador descreve numa conclusão intitulada De potência mundial a resort europeu. Mas, não vale a pena assumir brios nacionais perante o que a história conta sobre os factos das últimas décadas, e o que o historiador faz é uma interessante descrição de como Salazar “aposta na neutralidade num mundo em chamas” e de como vai gerir a questão da preservação do ultramar no pós-II Guerra Mundial com o início dos conflitos nas províncias africanas. Um retrato português feito por um estrangeiro liberto de amarras ideológicas que ainda tolhem os nossos historiadores.O olhar de Tom Gallagher é desapaixonado e em muito diferente do de Xavier de Figueiredo, autor de A Tragédia da Partida dos Colonos de Angola. Nem poderia ser muito diferente, pois este é um dos maiores dramas humanos da nossa história contemporânea e sobre o qual ainda se debatem visões. O autor inscreve a independência de Angola na luta ideológica que então se viveu, não esquece a parcialidade das Forças Armadas portuguesas em relação ao MPLA, ou a influência das potências mundiais, e o descaso sobre os portugueses que foram viver para África. Ou seja, recoloca a identidade dos colonos perante o desastre da descolonização. .UM LUTO PORTUGUÊSValentim AlexandreTemas e Debates557 páginas .PORTUGAL E O OCIDENTETom GallagherD.Quixote467 páginas(sai dia 10) .A TRAGÉDIA DA PARTIDA DOS COLONOS DE ANGOLAXavier de FigueiredoGuerra & Paz237 páginasLançamentosNOBEL DE NOVOA primeira edição (da Antígona) há anos que estava esgotada, mas agora pode voltar-se a ler o romance de estreia do mais recente Prémio Nobel da Literatura, O Tango de Satanás, datado de 1985, iniciador do seu estilo de longos parágrafos, mesmo de páginas sucessivas, com uma adaptação ao cinema de Béla Tarr, dividido em duas partes simétricas, agora reeditado por todo o mundo, sem referir a localização geográfica da ação mas tudo indicia ser a Hungria, com cenários campestres, tabernas com teias de aranhas, personagens desgrenhadas abandonadas à sua sorte, muita chuva e lama, uma espécie de Messias há muito desejado, um campo de prisioneiros, estrondos no céu e ravinas ameaçadoras entre muitas coisas estranhas que passam pelas páginas deste romance onde tudo cabe e que pode abrir as portas à segunda obra que é traduzida para o leitor português deste autor de nome complexo, que figuras como Sontag e Sebald elogiaram e as instituições premeiam abundantemente, até a Academia Sueca. .O TANGO DE SATANÁSLászló KrasznahorkaiCavalo de Ferro280 páginas