A estreia de Pai Nosso – Os Últimos Dias de Salazar, de José Filipe Costa, suscita uma curiosa questão conjuntural. Chamemos-lhe sociológica, no sentido em que envolve as relações dos cidadãos portugueses com as memórias da sua própria história — e, em particular, as memórias da ditadura do Estado Novo.O problema é tanto mais interessante quanto se cruza com duas outras questões, artísticas e simbólicas. Em primeiro lugar, a situação catastrófica do consumo (em boa verdade, do não-consumo) da produção cinematográfica portuguesa no interior das suas próprias fronteiras — os números oficiais de 2025 são eloquentes. Quer se queira quer não, desde logo pela singularidade do seu “tema”, Pai Nosso funcionará como um teste revelador sobre os modos de relação do público em geral com essa produção.Além disso, não podemos esquecer que o cinema produzido em democracia tem gerado um número significativo de obras que reduzem a nossa história coletiva a uma dicotomia pueril de “heróis” imaculados e “demónios” reduzidos a caricaturas. Como se, a partir do dia 25 de abril de 1974, se tivessem aberto as portas do Céu, num clima de pureza redentora, capaz de nos libertar de um tempo em que o mapa da população estaria dividido em duas regiões autónomas: de um lado, os militantes antifascistas; do outro, um resto inerte, fechado em casa, que não sabia nada do mundo à sua volta, nem sequer da música dos Beatles.Escusado será dizer que o filme de José Filipe Costa não pode ser encarado como uma “resolução” de tal conjuntura. Nem sequer fará sentido exigir-lhe que responda, ponto por ponto, à teia de dramas culturais e políticos que nela ecoam e, de alguma maneira, se têm consolidado. Uma coisa é certa: não é todos os dias que um filme arrisca lidar com a herança, política, precisamente, mas também simbólica e emocional, com que o salazarismo nos convoca.Nesta perspetiva, Pai Nosso é um exemplo (a meu ver, raro e precioso) de um cinema que não tem medo de observar o “nome” e a “figura” de Salazar como entidades que nos assombram, não a partir de um exterior maligno, mas dentro, e por dentro, daquilo que somos. Vale a pena relembrar a resposta de Hans-Jürgen Syberberg aos que acusaram o seu Hitler – Um Filme da Alemanha (1977) de não ser um “retrato histórico” — respondeu ele que, de facto, era outra coisa, ou seja, um filme sobre “Hitler em nós”. Parafraseando, diremos que Pai Nosso é um filme sobre “Salazar em nós”. Em tal domínio, mesmo correndo o risco de uma generalização precipitada, não encontro no cinema português outro título com o mesmo empenho analítico e inteligência formal, a não ser esse objeto admirável, tão mal conhecido, que é Brandos Costumes (1975), de Alberto Seixas Santos. . José Filipe Costa não é um criador de “reconstituições históricas”, à maneira do naturalismo medíocre de telefilmes e seus derivados. Pai Nosso é mesmo uma narrativa de duplas alucinações: em primeiro lugar, do próprio ditador que, depois de ter caído de uma cadeira e sofrido um AVC, vai vivendo o exílio em que o colocaram (ocultando-lhe o que estava a acontecer no país) através de um crescente delírio, narcisista e surreal, dos poderes que já não tem; depois, o próprio filme vai deslizando para um tom alucinatório em que a memória histórica parece exigir um “outro” realismo, bem diferente de qualquer noção de “reprodução” ligada ao espaço televisivo.Há, em Pai Nosso, uma proeza iconográfica (entenda-se: cinematográfica) que importa sublinhar, até pela forma como resiste às representações automáticas de Salazar como avatar definitivo da própria ideia de ditadura — mérito também, como é óbvio, da notável interpretação de Jorge Mota. A saber: a sensação muito física de que Salazar é uma personagem individual, individualizada e individualizável, não esgotada no poder que aplica, mas que existe como um corpo — observe-se a decomposição da sua agilidade física, ou ainda a imagem breve, mas brutal, da nudez do seu cadáver. O seu fantasma circula, afinal, pela nossa intimidade..'As Provadoras de Hitler'. A gastronomia como tema de guerra.Quando Leibniz fez pose para um retrato