Bispo José Ornelas alerta que facilitar despejos agravará a crise da habitação
O bispo de Leiria-Fátima manifestou esta sexta-feira, 30 de outubro, preocupação com a crise da habitação e advertiu que medidas que facilitem despejos podem agravar o problema, denunciando, além disso, o fenómeno da especulação imobiliária.
"[Olho] com preocupação, porque eu penso que ninguém no seu bom senso pode dizer que o problema não existe. O problema existe", declarou José Ornelas à Lusa em Macau, onde se encontra por ocasião das celebrações dos 450 anos da diocese local.
Em declarações na Sé Catedral, o religioso mostrou-se particularmente preocupado com eventuais medidas que facilitem despejos. "Se se vão facilitar os despejos, vamos só criar problemas ulteriores", advertiu.
O responsável católico defendeu que as respostas à crise devem procurar equilibrar interesses. "É de todo o bom senso que reine justiça para todos, mas que não se aumente o problema dos desalojados", afirmou.
Ornelas considerou ainda que a resolução da crise exige tempo, mas disse serem necessários sinais claros de compromisso por parte das autoridades.
"Tem de haver sinais também de que se quer e se está verdadeiramente a pôr as bases para ter uma situação diferente", afirmou, apontando para a necessidade de "sinais políticos e económicos".
O bispo destacou o impacto humano da crise, sublinhando que a situação é tão grave que as pessoas já não estão apenas preocupadas em conseguir comprar uma casa, mas sim em ter os meios financeiros suficientes para manter o espaço onde vivem.
Apontou, além disso, que a subida dos preços nos últimos anos "não são fruto simplesmente do custo". E denunciou: "Aqui há também um fenómeno de exploração da situação por parte de alguém que ganha com isso".
As manifestações em Portugal pelo direito à habitação e contra o agravamento do custo de vida tiveram início em 10 de outubro no Porto, alastrando-se a Lisboa.
Os manifestantes exigem a reversão da nova lei do arrendamento, o fim das demolições e dos despejos sem alternativa habitacional, um travão à aquisição de habitação por fundos imobiliários, o aumento da habitação pública, a recuperação de imóveis devolutos para fins habitacionais e tetos “verdadeiramente acessíveis” à renda.
Durante a madrugada de domingo, a PSP dispersou, à bastonada e com recurso a cães, as manifestações pelo direito à habitação em Lisboa e no Porto, após mais de duas horas de tensão e ordens para que as pessoas saíssem e as tendas fossem retiradas.
Os manifestantes não acataram as ordens, invocando o direito constitucional à manifestação.
Segundo a PSP, registaram-se, no total, 33 feridos e 33 detidos por desobediência. Em comunicado, as organizações das acampadas referiram dezenas de feridos.
A Inspeção-Geral da Administração Interna (IGAI) abriu um processo na sequência das intervenções policiais que aconteceram na madrugada de domingo em Lisboa e no Porto. Também a provedora de Justiça pediu à PSP, com caráter de urgência, informações sobre a carga policial na madrugada de domingo sobre os manifestantes.

