Um inquérito realizado pela Nova School of Business and Economics (Nova SBE) - desenvolvido no âmbito da Cátedra em Economia da Saúde, criada a partir de uma iniciativa para a equidade social em parceria entre a Fundação “La Caixa”, o BPI e a Nova SBE e liderada pelo professor Pedro Pita Barros - analisou, em 2025, o comportamento dos portugueses em relação à automedicação, quer com medicamentos de venda livre, quer com os que estão sujeitos a receita médica, o que até agora ainda não tinha sido feito, e os resultados revelam que esta prática "está generalizada", que "frequentemente é eficaz", que pode revelar maior autonomia do doente para gerir os seus episódios de doença sem gravidade, mas que também pode refletir a falta de capacidade de respostas do sistema, já que foi usada sobretudo por pessoas sem médico de família atribuído pelo Serviço Nacional de Saúde (SNS). De acordo com o documento, divulgado esta terça-feira, dia 13, “a automedicação em Portugal é simultaneamente generalizada - mais de metade dos inquiridos, de um total de 1034, referiu ter recorrido a automedicação em algum momento - e frequentemente eficaz: quase sete em cada dez participantes com experiência prévia com automedicação indicaram que, no episódio mais recente de automedicação, o seu problema de saúde se resolveu unicamente através desta forma de autocuidado, sem necessidade de recurso subsequente a cuidados profissionais”. E, apesar da prática da automedicação ter como base situações de menor gravidade, a verdade é que “a taxa de sucesso observada sugere que é frequentemente eficaz e que a população pode estar, de um modo geral, preparada para se envolver em formas mais amplas de autogestão da sua saúde”. No entanto, os resultados obtidos em 2025 a partir de um inquérito nacional à população entre os 15 e os 85 anos, revelam algumas áreas de vulnerabilidade, nomeadamente o facto de esta prática ter sido reportada sobretudo por “indivíduos sem médico de família atribuído”, o que sugere que a decisão pela automedicação “não resulta apenas de uma preferência individual, mas pode resultar de barreiras de acesso a cuidados de saúde”.Segundo explicou ao DN Carolina Santos, uma das investigadoras do estudo, assinado também pelo professor Pedro Pita Barros, “a automedicação assente em conhecimento já adquirido, por exemplo em doentes crónicos, pode ser benéfica no sentido em que pode evitar deslocações a unidades de saúde para condições menores, o que permite libertar recursos para tratar pessoas que efetivamente precisam de acompanhamento profissional”. Mas, no seu entender, a grande questão que se coloca sobre esta matéria, é se, de facto, “a população está mesmo na posse da informação necessária para se automedicar ou se esta prática resulta de barreiras no acesso aos cuidados de saúde”, justificando: "Nesta análise surgiram algumas dúvidas, porque vimos que as pessoas que não têm médico de família atribuído no SNS se automedicaram mais frequentemente.” Portanto, refere Carolina Santos, “o que este resultado pode estar a sugerir é que, em parte, as decisões de automedicação podem não estar a refletir simplesmente uma situação em que o episódio de doença é pouco grave e que a pessoa decide monitorizar os seus sintomas em casa, mas que podem ser também o reflexo das barreiras de acesso aos cuidados de saúde”. E se é assim, reforça, “é uma dimensão que importa corrigir a par de uma disseminação de informação correta e fidedigna”, sublinha.A investigadora reforça mesmo que “a opção por automedicação deverá resultar de uma avaliação de benefícios e de riscos dessa opção, dado que está disponível a opção de consultar o médico de família que segue regularmente o cidadão. Não deverá ser uma opção escolhida devido à ausência de seguimento por parte de médico de família”.Outro resultado que merece atenção neste relatório é a relação entre “confiança e sucesso da automedicação”, já que os dados apontam para o facto de “níveis mais elevados de confiança nas próprias capacidades estarem associados a menor probabilidade de resolução do problema exclusivamente através da automedicação” - uma explicação que, segundo é referido no documento, "é plausível" quando “alinhada com a literatura sobre o viés cognitivo de excesso de confiança (Dunning, 2011)”. Ou seja, quando há uma tendência para “sobrestimar competências pessoais na gestão de sintomas", tal "pode conduzir à escolha de estratégias inadequadas ou ao adiamento da procura de cuidados profissionais”.. Portugueses automedicam-se, mas não dizem ao médicoAssociado ao fenómeno da automedicação há um outro aspeto importante que deve ser tido em conta e que os autores do relatório da Nova SBE, Pedro Pita Barros e Carolina Santos, entendem como “uma lacuna de comunicação", que deve ser corrigida. Isto porque, “63% dos indivíduos com experiência em automedicação não informam o seu médico de família sobre estes episódios, limitando a capacidade dos profissionais para avaliarem riscos, orientarem comportamentos e prevenirem utilizações inadequadas de medicamentos”. Portanto, defendem, “promover uma comunicação mais aberta e transparente entre doentes e médicos nos cuidados de saúde primários é essencial”, sendo também fundamental que tal possa ser feito num “ambiente seguro e não-punitivo, que encoraje os doentes a partilhar práticas de automedicação e que permita aos profissionais oferecer aconselhamento adequado, sem julgamentos desnecessários”.Segundo é referido neste relatório, que surge a par de um outro documento anual, que avalia o Acesso a Cuidados de Saúde, publicado desde 2013 e que também é divulgado nesta terça-feira, “incentivar uma prática segura e informada de automedicação e, de um modo mais amplo, de autogestão da saúde exige, em primeiro lugar, que se reconheça que a automedicação em Portugal é um fenómeno heterogéneo, em que coexistem dois perfis comportamentais distintos”. A saber: um perfil menos frequente e baseado na experiência adquirida, predominante entre pessoas mais velhas e com doenças crónicas; e um perfil mais regular, associado à procura de conveniência e mais comum entre adultos jovens e ativos profissionalmente. Só que estes dois perfis exigem respostas diferenciadas. “Para o primeiro grupo, torna-se prioritário prevenir utilizações inapropriadas de medicamentos remanescentes - como antibióticos - e mitigar riscos de interações medicamentosas em contextos de multi morbilidade. Para o segundo, a prioridade é assegurar que a automedicação frequente não substitui a procura atempada de cuidados clinicamente necessários”, lê-se no documento..41 casos para automedicação. E é precisamente por isto que os autores destacam “ser crucial reforçar e valorizar recursos já existentes, como a Linha SNS24, que desempenha um papel central na prestação de aconselhamento clínico à distância e no apoio à tomada de decisão dos cidadãos”, propondo ainda, e de forma adicional, um reforço na “possibilidade de as unidades de cuidados de saúde primários funcionarem em horário alargado, até às 24 horas, nos dias úteis, e aos sábados, domingos e feriados (medida já prevista no Decreto-Lei n.º 52/2022, de 4 de agosto)”, o que poderia contribuir para reduzir situações de automedicação motivadas pela falta de respostas no acesso aos cuidados de saúde primários.De qualquer forma, e apesar de algumas dúvidas, o estudo evidencia que "a automedicação pode ser benéfica, na medida em que permite a resolução de problemas de saúde menos graves, de modo eficiente, desde que os indivíduos disponham de informação adequada sobre os medicamentos utilizados e sobre os riscos associados a esta prática, mas também pode ser prejudicial quando é utilizada, não por escolha informada, mas como um substituto (forçado) de cuidados formais necessários, nomeadamente por parte de cidadãos que não tenham médico de família atribuído no SNS". Neste contexto, os autores recomendam também o reforço do papel do farmacêutico enquanto elemento central na “automedicação”, já que pode contribuir para que o lado benéfico da automedicação — a resolução adequada de problemas de saúde pouco graves — prevaleça sobre a sua vertente negativa..Portugueses mais doentes e com mais dificuldade em comprar medicamentos em 2025