Em 2025, 45,5% dos inquiridos pela Nova School of Business and Economics (NSBE), no âmbito do Inquérito Sobre o Acesso a Cuidados de Saúde, que será divulgado esta terça-feira, relatou ter tido, pelo menos, um episódio de doença, o que corresponde a um aumento de 3,2 pontos percentuais face a 2023, aproximando-se do máximo registado em 2015 (46,3%). As faixas etárias entre os 15 e os 44 anos foram as mais afetadas, bem como os grupos mais pobres e com menos escolaridade. No mesmo ano, aumentou também a probabilidade de os indivíduos com maiores privações económicas não poderem adquirir todos os medicamentos que lhe foram receitados para um episódio de doença - 51 pontos percentuais acima da probabilidade observada nos grupos mais favorecidos (classes A e B). Estes dados foram recolhidos pela Nova SBE através de um inquérito a nível nacional a 1034 pessoas, que é realizado anualmente desde 2013, e constam do relatório referente a 2025, realizado no âmbito da Cátedra em Economia da Saúde, atribuída ao professor Pedro Pita Barros, criada a partir de uma iniciativa para a equidade social em parceria entre a Fundação “La Caixa”, o BPI e a Nova SBE. E uma das conclusões é bem clara: “Apesar de o Serviço Nacional de Saúde (SNS) português ser universal e tendencialmente gratuito, a capacidade efetiva de recorrer a cuidados de saúde continua a depender, em parte, da condição financeira dos indivíduos.”No documento, assinado por Pedro Pita Barros e pela investigadora Carolina Santos, que tem como objetivo principal “promover a investigação sobre o setor da Saúde, bem como o conhecimento e discussão da sociedade portuguesa quanto a tendências, desafios e políticas do setor da Saúde”, é destacado o agravamento dos episódios de doença nos mais jovens e mais pobres, e maiores dificuldades na aquisição de medicamentos também por parte dos mais desfavorecidos. No entanto, e como destaca ao DN Carolina Santos, esta “tendência de agravamento nos episódios de doença já vem a registar-se desde os anos da pandemia de covid-19 (2020-2021)”, bem como as dificuldades na aquisição de medicamentos que considera ser “um problema particularmente gravoso”, que deve “ser corrigido”. . Segundo o relatório, os indivíduos com maiores privações económicas são também os que mais relataram a probabilidade de não poder fazer o tratamento na totalidade. Senão vejamos: “Em 2023, “um indivíduo do escalão económico mais desfavorecido (E), tinha uma probabilidade de 41% de não adquirir toda a medicação necessária ao tratamento de um episódio de doença, 40 pontos percentuais superior à registada nos escalões económicos mais altos (A e B). Em 2025, esta probabilidade passou para 52%, 51 pontos percentuais”. O alerta para esta situação é dado logo no início do documento quando se refere, que, “além das preocupações associadas à maior ou menor eficiência no acesso a cuidados de saúde, existe igualmente uma preocupação central com a equidade nesse acesso”, devendo ser garantido o que diz a Constituição Portuguesa, “acesso igual para necessidade igual de cuidados de saúde”.Por isto mesmo, e na opinião dos autores, “a relevância atribuída aos princípios de equidade nos sistemas de Saúde, justifica a adoção de políticas públicas que os salvaguardem, mesmo que a custo de alguma ineficiência no funcionamento do sistema de saúde”.Mas a grande preocupação vertida neste documento - e salientada ao DN pela investigadora Carolina Santos - é que “a ocorrência de episódios de doença se encontra ligada às condições sócioeconómicas da população”. Como diz, “há uma desigualdade na Saúde e no acesso aos cuidados que começa, desde logo, no facto de a ocorrência de episódios de doença terem sido mais frequentes nas classes sócioeconómicas mais desfavorecidas”. Por outro lado, “era de esperar que, pelo menos, o sistema de Saúde, e quando falo em sistema, refiro-me ao SNS e também ao setor privado sem fins lucrativos, conseguisse colmatar a desigualdade na ocorrência e na resposta aos episódios de doença”. Mas o que se viu foi que , “apesar da maior necessidade de cuidados, a população mais vulnerável em termos financeiros continua a enfrentar maiores barreiras no acesso aos cuidados”. E, se é verdade que algumas barreiras têm vindo a ser eliminadas ao longo dos últimos anos, nomeadamente com o fim das taxas moderadoras em cuidados de saúde primários e até, em alguns casos, em deslocações aos serviços de urgência do SNS, se se for referenciado pela Linha SNS 24, no que toca à aquisição da medicação, “continua a verificar-se uma grande probabilidade de esta não ser na totalidade, ou pelo menos, de ser a necessária”. O que “é particularmente gravoso, no sentido em que a despesa com medicamentos continua a ser a principal componente da despesa associada às idas aos cuidados de saúde primários ou a um serviço de urgência do SNS”, defende a investigadora da Nova SBE..Ligue Antes, Salve Vidas. Regulador da Saúde diz que hospitais e centros de saúde estão a dificultar acesso de utentes a cuidados. Fosso entre desfavorecidos e mais favorecidos aumenta na doença e no tratamento De acordo com o que é expresso no relatório, doença e condições sócioeconómicas são fatores dependentes um do outro, que agravam o fosso entre desfavorecidos e mais favorecidos economicamente, o qual tem vindo a agravar nos últimos cinco anos, os números não enganam. No que toca à doença, "45,5% dos inquiridos (num total de 1034) indicaram ter tido pelo menos um episódio de doença, o que corresponde a um aumento de 3,2 pontos percentuais face a 2023”, destacando o documento que, “em termos do gradiente socioeconómico, verifica-se que entre pessoas com maiores privações económicas, 68,2% dos indivíduos reportaram ter-se sentido doentes, o que fica 30,7 pontos percentuais acima da proporção registada entre indivíduos do grupo socioeconómico mais favorecido”. E quando se considera o nível de escolaridade destes indivíduos, verifica-se que 55,5% das pessoas com apenas o 1.º ciclo de escolaridade concluído (ou sem educação formal) reportaram ter sofrido um episódio de doença no ano anterior, o que é 22,7 pontos percentuais superior à proporção registada entre inquiridos com ensino superior”. Relativamente à idade, verificou-se que, em 2025, “o gradiente etário na ocorrência de episódios de doença” se atenuou, mas tal não se deveu “a uma diminuição na probabilidade de doença nos grupos etários mais velhos, mas sim a uma maior ocorrência de episódios de doença em camadas mais jovens da população, sobretudo em mulheres de condição sócioeconómicas mais baixas”. Em 2025, um indivíduo do escalão económico mais desfavorecido “tinha uma probabilidade de 67% de reportar um episódio de doença, comparativamente com apenas 39% entre indivíduos dos escalões mais favorecidos”.Segundo refere o relatório, estes dados sugerem ainda que o aumento na percentagem de indivíduos a reportar episódios de doença em 2025 é explicado sobretudo pela maior incidência de episódios de doença na população mais jovem (entre os 15 e os 44 anos) e na população com Ensino Básico ou Ensino Secundário, sublinhando que tais efeitos “não são totalmente independentes, dado que se trata da mesma população segmentada de diferentes formas”. Quanto ao género, é referido que se verificou uma diminuição nos episódios de doença no grupo das mulheres. “O gradiente socioeconómico na probabilidade de registar um episódio de doença diminuiu para as mulheres, passando a ser de 18 pontos percentuais” - o que é explicado também pelo “agravamento da probabilidade de doença entre mulheres dos escalões económicos mais favorecidos (33% em 2022-2023 vs. 46% em 2025)” e pela “redução da probabilidade de doença entre mulheres com maiores privações económicas (72% em 2022-2023 vs. 64% em 2025)”.No entanto, ao mesmo tempo, “as mulheres de baixo rendimento (escalão D) surgem como o grupo que teve uma evolução mais desfavorável em termos de crescimento da probabilidade de ocorrência de episódio de doença, com esta probabilidade a passar de 48% para 57%”.Nos homens, isto já não aconteceu. “Se, em 2023, um homem com maiores privações económicas registava uma probabilidade de sofrer um episódio de doença 34 pontos percentuais mais alta do que um homem dos escalões económicos mais favorecidos (A e B), em 2025 este hiato aumentou para 37 pontos percentuais.”. Probabilidade de ter médico de família passou de 91% para 79% Na análise aos recursos existentes, o relatório é taxativo ao concluir que a cobertura por médico de família no SNS “permanece baixa”. De acordo com a amostra analisada, “a probabilidade de um indivíduo ter médico de família atribuído pelo SNS passou de 91% em 2019 para apenas 79% em 2025”, concluindo-se ainda que “os indivíduos de classes mais desfavorecidas apresentam menor probabilidade de ter médico de família”. No entanto, é destacado que a redução de probabilidade de ter médico de família no SNS pode estar a levar à expansão de iniciativas no setor privado destinadas a facilitar o acesso a cuidados de saúde primários. “Em 2025, a probabilidade de um indivíduo ter médico de família no privado era de 14,79%, já tendo em consideração características socioeconómicas da população e a sua cobertura por médico de família no SNS. Perante um episódio de doença, indivíduos com médico de família no privado registam maior probabilidade de procurar cuidados de saúde profissionais unicamente no setor privado”. O certo é que, entre 2022 e 2025, a probabilidade de um indivíduo recorrer a cuidados de saúde apenas no setor público diminuiu oito pontos percentuais, passando de 90% para 82% - embora, a larga maioria (83,52%) da população continue a recorrer unicamente ao SNS, aquando da procura por cuidados de saúde. Os autores do relatório aproveitam também para relembrar alguns factos como: a Saúde é a segunda principal preocupação da população portuguesa, referida depois do aumento do custo de vida, segundo o último Eurobarómetro, e que a despesa assegurada por esta (cerca de 29%) estão “acima da média da OCDE (19%)”. Situações que devem ser corrigidas. Por último, e “uma vez que tratar e cuidar não se esgotam na resposta clínica à doença, mas implicam reconhecer a singularidade de cada pessoa, a sua experiência subjetiva e o contexto em que vive", a NSBE avaliou também a perceção de cuidados prestados com dignidade, compaixão e respeito, por quem procurou ajuda profissional no sistema de saúde. E o resultado revela que, entre 2023 e 2025, esta perceção aumentou de forma expressiva para a população com 80 ou mais anos, passando uma experiência positiva a ser reportada por 85% dos indivíduos, 15 pontos percentuais acima do valor registado em 2023 (70%). Ainda assim, em termos globais, os níveis de satisfação com a humanização dos cuidados permanecem abaixo dos registados nos períodos da pandemia. .Automedicação é generalizada e mais em doentes sem médico de família, mas é “frequentemente eficaz” .Vagas deixadas por ocupar nos centros de saúde representam 300 mil utentes sem médico de família